Nas tradições mais ortodoxas e paternalistas do islamismo, a separação de um casal não é bem vista muito menos facilitada pela sociedade. Assim, é de se destacar que Nader (Peyman Moadi, excelente) reage com notável honra e humanismo, ainda que contrariado com a decisão de sua esposa Simin (Leila Hatami). Buscando se adaptar a nova rotina, ele contrata uma empregada, Razieh (Sareh Bayat, espetacular), para que alguém possa cuidar de seu pai com Alzheimer enquanto ele se encontra no serviço, junção que moverá todas as engrenagens de uma desafiadora trama. Engana-se aquele que pensar que A Separação é um filme iraniano com a finalidade de ressaltar as diferenças da cultura islâmica perante um assunto relativamente comum no Ocidente. Indo muito além, A Separação é um excelente estudo de personagens que se desenvolve a partir de eventos, ocorrências e acidentes cotidianos que se desenvolvem geometricamente, tomando proporções inesperadas. Revelar muito mais sobre a sinopse é infeliz, especialmente porque o resumo jamais fará altura ao que espera o espectador.
Em seu primeiro filme desde A Procura de Elly, o diretor e roteirista Asghar Farhadi nos traz um pouco de ecos de Mike Nichols ou da tensão tipicamente européia quando eles resolvem desvelar o que há por trás das aparências nas relações interumanas. Contudo, o foco aqui é menos os relacionamentos desgastados, e mais a responsabilidade que tomamos quando lidamos com um próximo, seja ele quem for, e os limites que impomos àqueles que nos agridem. Construindo um filme absurdamente tenso, que prende o fôlego do espectador em todos os momentos da projeção, é gratificante ressaltar que este feito é alcançado por nada além de um texto escrito com maestria e cinco atuações marcantes – completando o trio anteriormente apresentado, temos Sarina Farhadi como filha do casal e Shahab Hosseini, interpretando Hodjat, marido de Razieh. A força texto/atuação é tão presente e palpável que não é difícil imaginar aquela encenação em algum palco, ainda que o roteiro tenha sido escrito diretamente para o filme.
Contudo, evidentemente a narrativa é contextualizada por uma cultura específica, e alguns momentos cruciais do filme são desenvolvidos levando-se em consideração tais especificidades (digam-me, em qual cultura ocidental existe tamanha devoção honesta a uma escrita sagrada capaz de se impor num momento de impasse ético decisivo como o que ocorre nos momentos finais do filme?), mas ainda assim, isso parece pouco importar ao filme. Não é a distância que se busca, ao contrário, é a comunhão: islâmicos ou não, todos os personagens parecem nos questionar incessantemente quais seriam nossas atitudes em suas peles. Lidando com assuntos relativamente sensíveis, é louvável que o filme em momento nenhum se renda a algum maniqueísmo desinteressante ou incoerente com o restante de seu conteúdo: ao contrário, os caminhos percorridos por cada personagem mostram-se amplamente complexos, e corrói o expectador com a dúvida, em todos os momentos (algo que, aparentemente, John Patrick Shanley tentou sem sucesso com seu Dúvida).
Fincando-se como o atual favorito ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira (e este troféu só não será seu caso uma surpresa muito desagradável ocorra), o filme sofre sim nas mãos de um bairrismo hollywoodiano. Em um mundo justo, o filme seria tranquilamente indicado nas categorias de melhor roteiro original, melhor ator (Moadi), melhor atriz (Bayat) e melhor ator coadjuvante (Hosseini). Já que tal mundo não existe, espero que suas múltiplas indicações e vitórias em prêmios de destaque internacional (iniciado no sucesso absoluto durante o Festival Internacional de Berlim, em 2011) sirva para que, ao menos, o filme alcance um público maior do que o previsto. Também não posso deixar de me queixar sobre o fato que toda publicidade do filme destaca excessivamente Simin (Hatami), sendo que esta é a personagem menos interessante do quinteto.
Nota: 10,0.

2 comentários:
Verei o filme hoje. Estou com as expectativas lá em cima!
Percebi que você mudou a cara do blog. Não que eu seja expert em design e não me sinto no direito de apontar isso, mas é que pelo menos pra mim, ler fonte branca no fundo preto foi muito difícil, Vivi!
Grande abraço!
Oi, aqui é o Tiago... Então, Vivi e eu nos alternamos quanto ao design do blog, cada vez um escolhe. E o lance de letra branca no fundo preto já apareceu outras vezes, e ninguém fez um comentário parecido... Bacana saber, na próxima evitamos... E logo mais devemos trocar de novo.
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