Eva Katchadourian é uma mulher claramente em desespero. Morando em uma casa desestruturada, encarando sua depressão com álcool e pílulas e aceitando um subemprego ante a sua grande capacidade, ela vive soterrada pelo labirinto emocional da culpa. Perseguida pela população de sua cidade, que a agride fisicamente e vandaliza sua casa, Eva é a mãe de um atirador que matou seus colegas de colegial – Kevin. Não se preocupem sobre algum possível spoiler, estes são apenas os dez minutos iniciais da projeção.
Não conheço a obra original de Lionel Shriver, apenas tenho a intuição de se tratar de uma obra alternativa de boa qualidade, pelo estilo de meus poucos amigos que comentaram enfaticamente sobre o livro. Também fiquei sabendo que a estrutura do livro é através de cartas através da qual a mãe tenta expurgar suas dores e culpas. Já a diretora Linney Ramsey aposta em diferente estrutura: vemos cortes abruptos entre o presente da mãe e sua dificuldade em voltar a fazer parte do mundo no qual sempre viveu, e o passado de uma família, desde os pais se conhecendo, até o desenvolvimento infantojuvenil de Kevin e sua pequena irmã. Já devo deixar claro o elogio às escolhas estilísticas da diretora – ainda que nada sutis, o abuso da cor vermelha e da sobreposição entre mãe e filho em alguns momentos, além de inúmeros jogos de luzes e perda de focos faz com que o filme nos perturbe gradativamente. Sua arriscada opção por nos entregar aspectos do clímax violento que chegará no final da projeção também se mostra acertada, apesar de ousada: mesmo sabendo o que aconteceu, ficamos atônitos ante as imagens (nem tão gráficas) que surgirão.
A divisão estrutural da narrativa também já permite o link com a principal qualidade do filme: Tilda Swinton tem aqui o ponto mais alto e sua carreira. Atriz que nunca me conquistou por completo (apesar de ser apaixonado por sua participação em Queime Depois de Ler – junto com todo este elenco) consegue com este filme a proeza de nos deixar sem conseguirmos imaginar quem pudesse fazer o papel de Eva se não ela. Seu rosto magnético ainda que estranho é tão essencial ao filme quanto sua desorientação e enganadora frieza agregadas ao papel com maestria.
Contudo, quando chegamos a Kevin, o filme começa aos poucos a perder sua força. Não por falta de talento do elenco – tanto Ezra Miller (adolescente) quanto Rock Duer (mais ou menos 3 anos) defendem seu personagem de maneira extremamente competente, mas ainda assim Jasper Newell (6-8 anos) consegue se sobrepor aos anteriores. Contudo, o que sobra de elenco, falta de conteúdo. Peço desculpas sobre o trocadilho, mas o filme não nos diz nada sobre Kevin, e este não passa da encarnação demoníaca da perversidade natural. Este ponto do filme – crucial para a apreciação do mesmo – é tão inconseqüente que não foram poucas as vezes que tive a impressão de estar assistindo a “O Anjo Malvado” (The Good Son, 1993) em uma versão para adultos sádicos. Seus motivos, angústias e dores nunca transparecem na tela, e o personagem não é nada além do ódio inexplicável estampado em seu rosto desde muito pequeno. O extermínio em massa nas escolas é um problema endêmico – e, até o início da década passada, exclusivo – à sociedade norteamericana, contudo o filme em momento algum se pretende a alguma discussão social sobre o tema.
Por fim, é válido ressaltar que apesar de não ser tão bom quanto alguns críticos disseram, o filme é mesmo tão perturbador e repelente quanto dizem. Fazendo questão de ser cruel em cada detalhe, sobrou para a leveza Franklin (John C. Reily, o pai) soar como uma distância facilitada pela cegueira, e a doçura de Celia (Ashley Gerasimovich, a irmã caçula) ser dilacerada pelos momentos mais incômodos do filme. E diante de tantas indisposições, não deixa de ser importante comentar que mesmo uma resposta inesperada dada em uma comemoração de fim de ano consegue ter o poder de se fincar como um dos momentos mais repulsivos da projeção.
Sugerindo um desfecho que deixará os mais imediatistas revoltados e os interpretativos um tanto desnorteados, Precisamos falar sobre o Kevin é um filme que dificilmente conseguirá adoração de um grande público, contudo, apesar de seus incômodos defeitos, merece ser reconhecido pelo excesso de coragem em sua crueza e estilo.
Nota: 6,5

1 comentários:
Pelo jeito "Precisamos falar sobre Kevin" acabou me agradando mais.
De maneira alguma vejo o personagem de Kevin mal construído e muito menos vejo sua maldade como algo inexplicável. O melhor do filme está em tratar da rejeição no ventre. Kevin foi rejeitado, não desejado vir ao mundo pela sua própria mãe e isso (comprovado cientificamente e até mesmo espiritualmente) faz do ser uma pessoa revoltada e com todas as características que o personagem apresenta.
Se não compreender como Kevin é "criado" antes de nascer, dificilmente entenderá o personagem.
Mas, ainda assim o filme mesmo se limita a ir além e encaro isso como uma preferência em ser discreto do que explosivo. Acho que a diretora sabe até onde pode ir e assim não entrega um filme cinco estrelas, mas, como dito, de qualidade inegável.
Abraços!
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