sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Agora nos Cinemas: Cavalo de Guerra



Coube ao homem urbano atual, no lugar de alguma opção melhor para o destino de seu afeto, ser fielmente apegado aos animais mais caros e próximos, aqueles que nos obedecem, gracejam e amam cotidianamente. Com isso, inúmeros filmes exploram este profundo sentimento humano com seus filmes sobre baleias, cachorros, golfinhos, e sinto falta de uma calorosa e incompreendida jibóia nesta lista. Reza lenda que este sentimento está fincado em nosso passado, remoto ou não, da relação dos índios, egípcios, romanos e a natureza. E muito provavelmente no homem rural, que tinha seu labor apoiado em seus fiéis companheiros, como os cavalos. Pois bem, Cavalo de Guerra é a declaração de amor do Spielberg pelas fazendas que tem ou deveria ter.

Baseado em uma peça teatral (não, não estamos falando de Equus), o filme gira em torno de Albert (o inexpressivo e sem carisma algum Jeremy Irvine) e sua amizade com Joey, um cavalo comprado por seu pai a altos custos, desde potro, para ajudar com os afazeres de uma fazenda que ruma à falência. Por motivos alheios à vontade do garoto, o cavalo é vendido a um oficial do exército inglês durante a primeira guerra mundial, e o que vemos, em seguida, é a busca deste apaixonado pelo objeto de seu desejo. Talvez alguns percebam aí um filme sobre amor ou amizade.

Há outros que, por outro lado, se questionam na cadeira do cinema os motivos que levaram a seqüência de Austrália não ter nem Nicole Kidman nem Hugh Jackman no elenco. Comparação esdrúxula por comparação esdrúxula, não me parece errôneo o comentário que relacione o caráter episódico de Cavalo de Guerra com o mesmo estilo adotado em Cold Mountain, contudo, se no filme de Minghella as tramas agregadas acrescentavam um mínimo de impacto à narrativa (não se esqueçam que com pouco mais de dez minutos em cena, Natalie Portman era o verdadeiro destaque do filme), no filme de Spielberg, cada novo episódio parece mais sem razão de ser do que o anterior.  Contudo, apesar da falha estrutural, o filme esconde sua longuíssima duração em doses equilibradas de melodrama e momentos verdadeiramente interessantes.

A saber, a divisão é muito simples: tudo que envolve os humanos (exceto, talvez, a família de Albert, com tocantes interpretações de Peter Mullan e Emily Watson) é extremamente enfadonho e apelativo – ainda que tenha um ou outro momento interessante (como os eventos em um moinho). Já tudo aquilo que envolve o cavalo é simplesmente arrebatador. Spielberg foi um excelente e inenarrável diretor de elenco com seu animal (provavelmente interpretado por mais de um, e alguns digitais) – não há cena de Joey que não nos provoque alguma reação ou emoção, e o equino sustenta com classe e honra o filme. Hábil diretor de cenas de guerra (contudo, registra-se que nem mesmo em Soldado Ryan Spielberg sobre dosar corretamente guerra e tédio), os momentos de batalha são mais maquiados (sendo um filme família, evita-se o sangue a qualquer custo), mas ainda assim tensos e convincentes. Desta maneira, o momento mais marcante da película é na loucura de Joey, quando este foge por trincheiras em determinado momento (ignorando-se as conseqüências supérfluas da cena, há de se concordar que nenhum ser humano é passível de assisti-la sem reação alguma).

Contudo, Spielberg está invariavelmente deslocado no tempo, assim como brega e apelativo. Se não nos bastasse a vergonha alheia por um inexplicável leilão nos encerramentos da narrativa, como então encarar as fotografias finais sem imaginar Albert arrancando um pedaço de cenoura da terra e entregando ao cavalo enquanto diz “Jamais passaremos fome de novo”?

Deseja-se que a biografia de Lincoln, atual pré-favorito ao Oscar 2013, tenha destino melhor.

Nota: 5,0.

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