quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Agora nos cinemas: "Amizade Colorida"

Lembro no inicio do ano quando vi o trailer de "Amizade Colorida"...e pensei naquela época que se tratava de uma cópia de "Sexo sem compromisso", filme de Ivan Reitman estrelado por Natalie Portman e Ashton Kutcher que tratava do mesmo assunto. Para minha felicidade, embora seja um tema similar, "Amizade Colorida" é muito mais divertido, inteligente e perspicaz do que "Sexo sem compromisso" e ainda conta com atuações bem convincentes de Mila Kunis (que coincidentemente foi a rival de Portman em "Cisne Negro") e Justin Timberlake que mais uma vez prova que é melhor atuando do que cantando!!!
O filme começa com os dois protagonistas, em locais diferentes, levando foras de seus respectivos pares (quem faz a namorada de Justin que lhe dá um fora neste momento é a sempre excelente Emma Stone, aqui fazendo participação especial). Após da cena inicial, Jamie (Kunis) e Dylan (Justin), acabam tendo seus destinos cruzados, já que ela o "descobre" através da internet e acaba conseguindo com que ele se torne diretor de arte da GQ (e o convence a ir morar em Nova York, sendo que ele é de Los Angeles e ama sua cidade). Ambos se tornam grandes amigos e, por estarem necessitando de sexo, resolvem começar a transar para satisfazer suas necessidades...por ela ser totalmente desconfiada (por não saber quem é seu pai), e ele traumatizado pelos foras, ambos estabelecem este vinculo de modo seguro, já que não há mais do que sexo na situação...ocorre que, claro, o sentimento começa a surgir entre ambos, que terão de decidir qual rumo tomar em seu relacionamento.
O filme é engraçado, com ótimas piadas (não tem medo de ser irreverente), e um elenco de peso, que além dos protagonistas inclui Patricia Clarkson (que faz a mãe Hippie de Jamie), Richard Jenkins (que faz o pai de Dylan que é jornalista mas que está morrendo de Alzheimer), Woody Harrelson (que faz o jornalista esportivo da revista que é gay, mas em nada aparenta ser), e Jenna Elfman (que faz a irmã de Dylan). Com este grande elenco, que soa como um "presente" à Timberlake (afinal este é o primeiro filme protagonizado por ele e já vem com um elenco de apoio excelente), não é de duvidar que o filme esteja sendo muito querido por todos que já o viram. Outro fator positivo é a direção de Will Gluck, que anteriormente dirigiu o excelente "A mentira" e que aqui mostra mão firme para a direção, de modo muito ágil e diferente.
Incluindo cenas que sao quase musicais (São dois Flash-mobs, sendo um com a linda canção "Closing time" da banda Semisonic que é o tema do casal), e muitas cenas divertidas, "Amizade Colorida" é uma comédia romantica nata, mas que pelo seu dinamismo e inteligencia consegue cativar tanto homens quanto mulheres.

Nota: 8,0

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Agora nos cinemas: "Pronta para amar"


Por algum motivo obscuro, o adorável longa "Pronta para amar" ainda não foi lançado nos cinemas americanos. Produzido pelos irmãos Weinstein, o filme é um drama tão bem acabado que acaba sendo mais leve e doce do que muitas das comédias românticas que estão atualmente em cartaz.
O filme, que é protagonizado por Kate Hudson, conta a história de Marley, uma independente e bem sucedida empresária que no auge de sua carreira descobre que está com um cancer terminal. Tentando enfrentar a situação da melhor maneira possível, ela acaba conhecendo o Dr. Julian Goldstein (Gael Garcia Bernal), um médico bonito e tímido que se apaixona por ela quase que instantaneamente, e que irá acompanhá-la até o final de sua vida.
É interessante que o filme seja o segundo longa de Nicole Kassell, que anteriormente dirigiu o pesado e sombrio "O lenhador", o roteiro é de uma estreante, Gren Wells, mas mesmo assim é muito bem feito, onde a tristeza da história perde passo para uma leveza realmente muito positiva. Um dos aspectos mais interessantes do filme é o modo como as pessoas ao redor de Marley reagem: do pai frio que tenta aproximação (que é interpretado por Treat Williams), à melhor amiga que simplesmente não consegue enfrentar a situação, até a mãe da protagonista que dá suporte para a mesma em todos os momentos (feita pela sempre ótima Kathy Bates). O filme ainda traz Lucy Punch como a amiga que irá Marley e Whoopi Goldberg como Deus (no caso no filme Marley sabe que Whoopy é Whoopy, que seria apenas a personificação do supremo).
Outro ponto positivo da trama é a trilha sonora de Heitor Pereira, um dos brasileiros mais bem sucedidos em Hollywood e a naturalidade com que Hudson interpretou a personagem, ficando sem maquiagem na maior parte do tempo (e ainda assim continua belíssima), e dando um tom muito bonito pro personagem, que enxerga o mundo de um modo muito suave e sabe que tem que enfrentar seus problemas, com o menor drama possível.
Enfim, por mais que a história teria tudo para ser um grande drama, ela nada mais é que um romance açucarado e contente, que faz com que o expectador consiga perceber a beleza da vida, por mais que ela se mostre ingrata às vezes.

nota: 8,0

domingo, 11 de setembro de 2011

Agora nos cinemas: Larry Crowne

Qualquer filme que tenha os nomes Tom Hanks ou Julia Roberts no elenco já chama a atenção por si só. Quando os dois então estrelam um projeto, é impossível não se interessar pelo longa em questão. Infelizmente "Larry Crowne" não sobrevive ao fato de ser protagonizado pelas duas estrelas, que além de estarem no piloto automático não conseguem ter química entre si. E o pior disso tudo? É que a direção e roteiro são assinados pelo próprio Hanks (o roteiro é dividido com Nia Vardalos) em um filme totalmente comum e sem sal.
Aqui acompanhamos o personagem título, que começa o filme sendo demitido do seu trabalho simplesmente porque não tem uma graduação. Resolve então mudar de vida e voltar a estudar, onde claro acaba se apaixonando por sua professora de oratória, Mercedes (Roberts) uma mulher inteligente mas desacreditada que tem um marido rico viciado em pornografia de internet. Larry ainda faz outros amigos como por exemplo a adorável Talia (Gugu Mabtha Raw) que o inclui em um grupo muito bacana de motoqueiros, e é contratado por um restaurante para ser chef de cozinha (profissão que ele exerceu trabalhando na marinha durante 30 anos- e esta é a explicação dele não ter uma faculdade). Ele ainda tem 2 vizinhos bacanas- Bella (Taraji P. Henson, muito desperdiçada) e Lamar (Cedric the entertainer). Tudo muito bonitinho mas muito vazio.
O problema de Larry Crowne é que tudo é previsível demais, a história não empolga (custa a acreditar que a mesma tenha menos de 90 minutos de duração) e os personagens são mal desenvolvidos (por mais que Larry tenha problemas não dá de acreditar como ele será tão ajudado pelos outros em um mundo como este em que vivemos)...além claro de Roberts e Hanks serem estrelas demais para conseguirem interpretar seres tão comuns quanto Larry e Mercedes.
Infelizmente, este é um filme nada- é mais uma comédia romantica ordinária, igual à tantas outras por aí...e, se você é fã de Roberts e Hanks, é melhor ver outros filmes da dupla como "O casamento do meu melhor amigo" e "Forest Gump".

nota: 5,0

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Melancolia



Diz Lars von Trier que Anticristo foi feito a partir de imagens e sensações derivadas de pesadelos oníricos ou lúcidos que o roteirista e diretor teve ao enfrentar uma severa depressão. Evidentemente, qualquer um que assistiu ao filme anterior não duvida disso. Contudo, se Anticristo era em estrutura fruto de uma depressão, é Melancolia a obra que carrega o fardo de discutir tal experiência psicológica em seu aspecto mais solitário e triste.

Dividido em dois capítulos, cujos títulos dedicam-se aos nomes de suas personagens principais, Justine (capítulo primeiro) se dedica nos festejos graças ao matrimônio da personagem homônima (Dunst), que parece viver um inferno particular. Esforçada ao esboçar alguma felicidade diante do grande momento de sua vida pessoal, Justine é visivelmente deslocada naquele contexto, sendo chocada, aos poucos, às ruínas de seu próprio universo: seu noivo é um companheiro compreensível, ainda que omisso; sua mãe lhe define, a todo instante, a palavra amargura, com posições e falas impertinentes à situação; seu pai parece possuir especial descaso para com todas as mulheres, inclusive as de sua vida, mostrando-se sempre autofocado; seu chefe é especialmente sem tato ao fazer do casamento um teste profissional e sua irmã, Claire (Gainsbourg) é quem carrega o fardo de sustentar as dores da irmã, ainda que, para isso, não hesite em demonstrar seu cansaço e irritabilidade.

Por outro lado, Claire trará o pano de fundo de toda a obra. A aproximação do planeta Melancolia (sensível falta de sutileza do diretor, que perdoamos com inquestionável facilidade ante a obra apresentada) torna-se, aos poucos, uma ameaça para Claire, a personagem, que recusa-se a acreditar na possibilidade do apocalipse – apesar de muito se assustar com a tal – mas que, aos poucos encontra o fim de sua vida pessoal: tudo aquilo que Claire conta para se manter como uma pessoa equilibrada começa a desmoronar: todos os contratos sociais a sustentar sua vida desaparecem ante o iminente fim do mundo. Neste momento, von Trier nos traz sua crueza tão característica: a desgraça da humanidade, ainda que definhe Claire aos poucos é, ao mesmo tempo, um acalento para Justine.

E aos dois capítulos é acrescido um impressionante prólogo – ainda melhor que o estonteante de Anticristo – no qual o apocalipse é retratado como em um pesadelo, antecipando que aquele evento não deve ser encarado pelo espectador como um suspense com possibilidade de final menos infeliz: o mundo acabará, não há esperança.

Enquanto a primeira parte do filme nos remete a algumas características do Dogma 95, dentre eles a crueza visual e a câmera insistentemente em mãos e livremente movimentada, Claire é realizado através de planos mais comportados e contemplativos, sem grande movimento. O roteiro de von Trier é enxuto, direto e cinicamente honesto, ao passo que, novamente, as escolhas são ainda mais elogiáveis ao papel de diretor. Não há como não destacar a beleza do fim do mundo acompanhada pela ópera Tristão e Isolda, de Wagner (encontrando aqui uma acidental e bela rima com o pífio A Árvore da Vida, cujo único momento de honesto impacto se deve ao Gênesis – o Big Bang – acompanhado por Lacrimosa, de Preisner).

Kristen Dunst condensa com merecimento todos os elogios ao elenco da obra, entregando-se integralmente àquele que é, por ora, o melhor papel de sua carreira. A Gainsbourg coube um papel menos histriônico do que visto na obra anterior do diretor, enquanto, no elenco secundário, destacam-se Charlotte Rampling, a mãe, e Stellan Skarsgard. É gratificante a oportunidade de ver Kiefer Sutherland parado e sem armas na mão, enquanto, de fato, gostaria de ver Alexandre Skarsgard em um papel dramático um pouco mais destacável – algo que o ator não encontrou por aqui.

No final das contas, Melancolia deve ser a obra mais comportada e comum de von Trier desde Dançando no Escuro (destaco que não tive a chance nem o interesse de conferir O Grande Chefe), no entanto, não encontra nenhum demérito por isso, sendo, ao mesmo tempo, um de seus melhores filmes. E, novamente, me vejo obrigado a dizer que apesar de nos dar uma experiência única a cada nova obra, ainda sonho com o dia que o diretor retome a ideia de concluir sua trilogia iniciada por Dogville. Também sou obrigado a dizer que é uma lástima o fato de que, num dos melhores momentos de sua carreira, o diretor se manche tanto e roube a atenção para suas impensadas e ignorantes palavras no festival de Cannes sobre sua identificação com Hitler. Ainda que não tenha sido uma fala tão devastadora quanto a reação causada, não deixou de ser apontável ignorância desnecessária por parte do diretor.  

Nota: 9,0

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Contra Corrente



Houve um tempo, especialmente até alguns anos atrás, no qual eu regularmente me pegava pensando, em uma autocrítica, se os filmes com temáticas homossexuais contavam com certa simpatia imediata de minha parte. A conclusão foi simples: sim e não. Sim, à medida que, por ainda ser um tabu, filmes bobos e leves como De Repente Califórnia, comédia romântica ao pé da letra do termo, ainda são raridades e acabam ganhando alguns pontos comigo. Por outro lado, não, pois quando o filme é ruim, independente da temática, eu acabo metendo o bedelho (como o superestimado Minhas Mães e Meu Pai e o covarde-sem-ponto Do Começo ao Fim).

Digo isso por um motivo muito simples... Ainda não sei explicar a razão, mas Contracorrente, apesar de sua obviedade e deslizes de seu roteiro, me ganhou por completo. Refiz-me tal crítica e pude observar que não se tratava disso, mas sim daqueles pontos que, apesar de termos reclamações pontuais e precisas, somos embalados por uma narrativa sem precisarmos de um grande motivo. Felizmente, não se trata de um guilty pleasure, longe disso.

Miguel (Cristian Mercado, que sustenta o filme com invejável facilidade) é pescador de uma comunidade humilde, casado e prestes a ser pai. Além das funções que lhe cabe, ele dedica parte de seu tempo livre a uma transgressora paixão por Tiago (ou Santiago, o filme nunca se resolve, mas, no caso, o ator Manolo Cardona, também ótimo), fotógrafo e artista plástico “estrangeiro” que visita o vilarejo com finalidades artísticas, mas ali se finca para ficar perto de seu amor. E, apesar do conflito óbvio na trama, ela se desenvolverá de tal maneira surpreendente que seria desrespeitoso revelar mais alguma coisa (e, por favor, evitem críticas na internet: ninguém soube respeitar o segredo).

Acontece que tal desenvolver do filme, apesar de uma grande inovação na temática gay, é um tanto frustrante. Seguindo passos óbvios, já sabemos de antemão todos os rumos possíveis à trama, e eles acontecerão, um a um. Mesmo com essa evidente reclamação, devo manter que é um filme cativante. Da atuação de seu elenco principal (e, sejamos honestos, inclui-se aí a beleza física do casal protagonista) à intimista fotografia litorânea do Peru, o filme vai nos ganhando aos poucos, e talvez ainda mais após o seu final (clichê). A obviedade do roteiro é sensibilizada se considerarmos que a produção voltada às temáticas gls na América Latina é deveras limitada e, assim sendo, temos uma grata surpresa.

E devo dizer que, apesar de limitado e acovardado em alguns aspectos, o filme tem em si duas sacadas muito interessantes: a primeira, um belo desenvolvimento sobre visibilidade (ou invisibilidade), tendo uma simples cena na qual o casal anda de mãos dadas pelo vilarejo o seu ponto alto. A segunda está em seu conceito de estrangeiro: a origem de Santiago nunca é explicitada, e seu deslocamento naquele contexto se deve muito mais à sua profissão artística e a sua comentada homossexualidade do que a alguma questão óbvia de território. Pontos positivos, além das pontuais alfinetadas à religião.

Escalado para o Festival Mix 2010 – que vem se mostrando a cada ano mais interessante e bem organizado – o filme entrou em circuito “comercial” em abril de 2011, e como sua distribuidora – a bem-intencionada Festival Filmes – ainda é pequena na tentativa de desbravar o mercado nacional de DVDs, recomendo que o filme seja baixado na internet para que possa ser conferido.

Nota: 7,0

A partir deste parágrafo, ler apenas caso já tenha visto o filme ou se não se importar com spoilers:



Há alguns comentários sobre a semelhança desta obra com Dona Flor e Seus Dois Maridos. Sim, esta é a surpresa do filme: Santiago, o fotógrafo, morrerá mais ou menos aos 40 minutos de projeção - contudo, seu espírito não encontra liberdade nem paz, recorrendo sempre à proximidade de Miguel. Aqui há um ponto bacana de ser debatido: a abordagem espiritual do projeto é justamente seu ponto falho. Além de toda a trama óbvia sobre o luto e a aceitação de si, há um impasse no roteiro se ele busca uma trama sobrenatural, com aparições reais da alma de Santiago, ou se é um drama psicológico, e o personagem aparece apenas quando invocado pelo seu amante. Não é bobeira distinguir as duas possibilidades, uma vez que cada uma daria contornos próprios à trama, e é assustador como o roteiro se divide entre ambas. Contudo, apesar da diferença óbvia (Dona Flor é uma comédia rasgada), creio ser uma inspiração/referência inegável. Surpreendentemente, Javier Fuentes-León aparenta ser um fã de novelas brasileiras, não apenas dedicando um breve diálogo do filme para homenageá-las como centrando na novela O Direito de Amar uma bonita metáfora perto do desfecho da trama. Então concordo com os espectadores que pontuaram o fato de que a semelhança entre ambas as obras transpassam a mera coincidência. 

A Serbian Film - Terror Sem Limites e reflexões livres sobre censura


É inútil começar escrevendo que nenhum filme este ano (e, sei lá, nos últimos 10, talvez) causou mais polêmica que o terror do estreante diretor Srdjan Spasojevic "Terror Sem Limites" - censurado num incontável número de países, dentre eles, o Brasil. E como onde há fumaça, há fogo, e sou movido pela curiosidade, evidentemente acreditei que assistir ao filme faria com que eu tivesse uma opinião mais centrada sobre o assunto.

Mea culpa. Mea maxima culpa. 

Entretanto, de fato, agora posso me expressar melhor sobre a obra. Num estilo narrativo que não deixa de ter certos ecos de Anticristo, por aqui, perdemos a noção do que é pesadelo e do que é real na narrativa, e embarcamos em um doentio mergulho pela proposta do diretor. Acontece que, verdade seja dita, parte da violência física do filme - excluindo-se aí suas considerações sobre a violência sexual - fica aquém dos explícitos gores-blockbusters como a série Jogos Mortais ou O Albergue. Mas, como polêmica pouca é bobagem, entramos nos tabus sexuais. Acerta o diretor em esfregar na cara de seu público que há um profundo caráter sexual no sadomasoquismo e que, uma vez sentado num cinema para assistir pessoas esquartejando seus corpos em armadilhas, há um aspecto perverso de nossos espíritos em jogo.

A parte "coerente" do filme pára por aí. Caso alguém realmente se importe com spoilers por desejar ver a obra, sugiro que pulem o seguinte parágrafo, e sigam direto para o outro. Contudo, sugiro também que poupem seus estômagos e se contentem apenas com o resumo da ópera:

A violência sexual do filme é gradual, e já começa bem apelativa. Milos, ex-ator pornô é convidado por um diretor para estrelar um filme cujo conteúdo seus realizadores não sabem se é mera pornografia ou aspira à arte. Há um jogo de resistência sobre quais limites do ator poderão ser quebrados no desenvolver de tal obra. Inicialmente, ele parece ter repulsa por qualquer traço de violência na gravação do filme, mas rende-se a um violento jogo psicológico começando atrocidades cada vez maiores. No primeiro sinal de que algo não vai bem, Milos transa com uma mulher enquanto lhe são expostas imagens de uma garota, menor de idade, chupando um sorvete. Isso se desenrolará na seguinte maneira: em outra cena ele se verá obrigado a bater na mulher com quem transa, passa para a mulher "morta" com a qual ele também transará. Para lhe provar que a ambição do filme é válida e inovadora, o diretor lhe apresenta um vídeo no qual um médico, ao fazer o parto de um recém-nascido, sodomiza a criança. No fim, chegar-se-á ao ponto de Milos estuprar - sem saber - sua própria família (inclusive seu filho menor de idade), para, no fim, toda a família se suicidar e dar-se a entender que um novo diretor filmará um novo maníaco transando com a família morta.

Além da trama explicitamente visual a embrulhar o estômago, A Serbian Film é simplesmente doente por, ao contrário do que foi apregoado aos quatro ventos, não ter nenhuma outra intenção em mãos para seu material. Que não me venham com as alegações de metáforas sobre a barbárie humana, muito menos sobre as críticas políticas. Talvez o que exista mesmo, de leve, são moralistas considerações sobre a indústria pornô - uma vez que, mesmo não sendo bem vista socialmente, não merece tal analogia. Como disse, o máximo que  aceito como proposta do filme seria uma crítica da indústria de filmes gore e seus espectadores. Contudo A Serbian Film reproduz com maestria aquilo que talvez ele critique: seu roteiro é, em última análise, uma metalinguagem do que a obra se torna: uma pornografia doente, masoquista - e sádica - que infelizmente encontrará algum público que sinta prazer em vê-la.

Dito isso, sou obrigado a concluir o texto defendendo, ainda assim, a não-censura de filmes no país. Apesar da violência, seria ainda mais doentio ver no filme qualquer traço de apologia a qualquer coisa e, bem ou mal, todas as suas cenas foram gravadas respeitando ao máximo às leis que lhe convém (ou seja, é estranhamente necessário ressaltar o fato de que nenhuma criança ou recém-nascido foi abusada sexualmente para sua realização, assim como nenhum assassinato ocorreu). Talvez fosse o momento de se refletir se é necessário a criação de uma nova classificação etária - 21 anos (e as classificações etárias eu defendo, uma vez que ajuda os exibidores a legitimarem sua proibição na venda dos ingressos) ou algo do tipo... Acontece que, em última análise, repulsivo ou não, se estamos em um país onde a democracia vigora, que cada exibidor e espectador tenha o direito de resolver aquilo com o que se envolverá ou não. E, verdade seja dita, não fosse tal polêmica, dificilmente o filme sobreviveria mais do que uma semana nas salas de exibição - assim como não viraria um alvo tão óbvio para downloads virtuais, por toda e qualquer faixa etária.

No entanto, também não há como se fazer de cego para uma situação como essas. Ainda que contra qualquer tipo de censura, devo admitir que há evidentemente como compreender um filme causar tamanho mal estar. Que o público fique feliz com o fato de que não está perdendo grande coisa - e que, além disso, é uma obra de fácil acesso na internet. Contudo, precisamos ficar de olho. Qualquer iniciativa que pontualize uma intenção de se definir o que é o bom senso do arbítrio de outrem é igualmente um grande incômodo.

Se ainda for necessário a nota do filme... Que fique... 1,0

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(Infelizmente este filme quase estragou minhas últimas excelentes experiências cinematográficas, a saber: Incêndios, Contracorrente e A Rosa Púrpura do Cairo. Fico devendo crítica dos dois primeiros, assim como a de Melancolia, próxima que devo escrever. Devido a nossos acordos e divisões de filme, me comprometi com a Vivi para não dar meu destrutivo parecer sobre o embuste A Árvore da Vida). 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Videocast: Indicados ao Emmy 2011- categoria Minisseries e Filmes para TV



Oi gente, aqui está a minha análise sobre os indicados nas categorias envolvendo melhor minissérie/filme para TV do Emmy, espero que gostem (tem partes que eu meio que me esqueço do nome das pessoas rsrsrs, tava lesada no dia gente rsrsrss).
Bjus,
vivi