sábado, 26 de fevereiro de 2011

Oscar 2011- Previsões finais

Dedinhos cruzados, amanhã finalmente saem os vencedores desta temporada surpreendente e excelente, e não podíamos deixar de colocar os nossos palpites por aqui! Então coloco as minhas previsões e as do Tiaguito para vocês verem:

Previsões da Vivi:

MELHOR FILME
The King's Speech

MELHOR DIRETOR
David Fincher - The Social Network

MELHOR ATOR
Colin Firth - The King's Speech

MELHOR ATRIZ
Natalie Portman - Black Swnn

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christian Bale - The Fighter

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Melissa Leo- The Fighter

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
The King's Speech

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
The Social Network

MELHOR ANIMAÇÃO
Toy Story 3

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
In a Better World - Dinamarca

MELHOR FOTOGRAFIA
True Grit

MELHOR EDIÇÃO
The Social Network

MELHOR TRILHA SONORA
The King's Speech

MELHOR CANÇÃO
"We belong together- Toy Story 3"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
Inception

MELHOR FIGURINO
Alice in Wonderland

MELHOR MIXAGEM DE SOM
Inception

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
Inception

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Inception

MELHOR MAQUIAGEM
The Wolfman

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Exit Through the Gift Shop


Previsões do Tiago:

MELHOR FILME
The King's Speech

MELHOR DIRETOR
David Fincher - The Social Network

MELHOR ATOR
Colin Firth - The King's Speech

MELHOR ATRIZ
Natalie Portman - Black Sawn

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christian Bale - The Fighter

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Hailee Steinfeld - True Grit

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
The King's Speech

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
The Social Network

MELHOR ANIMAÇÃO
Toy Story 3

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
In a Better World - Dinamarca

MELHOR FOTOGRAFIA
True Grit

MELHOR EDIÇÃO
The Social Network

MELHOR TRILHA SONORA
The King's Speech

MELHOR CANÇÃO
"If I Rise" - 127 Horas

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
The King's Speech

MELHOR FIGURINO
Alice in Wonderland

MELHOR MIXAGEM DE SOM
Inception

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
Inception

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Inception

MELHOR MAQUIAGEM
The Wolfman

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Exit Through the Gift Shop


então gente, todo mundo preparado para a maior festa do cinema, segunda feira estaremos comentando os vencedores...
mil beijos à todos,
vivi

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Agora nos cinemas: "O vencedor"

Cerca de 10 anos atrás, Mark Wahlberg vinha tentando levar a história real do lutador Micky Ward para as telonas. Com ajuda de seu amigo pessoal, o diretor David O. Russell, eles conseguiram um ótimo time para levar a vida desta personalidade às telas, e, de uma maneira completamente original e interessante, fazer deste um filme indicado à 7 Oscars, incluindo melhor filme.
O diferencial desta película é que ela faz da história de uma pessoa, a história de sua família, onde todos os componentes são importantes: basicamente o filme destaca a história de Micky (vivido pelo próprio Wahlberg) paralelo à de seu irmão Dicky (Christian Bale), este treinar aquele, só que, devido seu vício em crack, Dicky atrapalha muito mais que ajuda Micky. Pra piorar a situação, a mãe deles, Alice (Melissa Leo, que embora tenha feito uma campanha suicida ainda é a favorita ao Oscar de atriz coadjuvante) passa a mão na cabeça de Dicky, ignorando seu vício e deixando Micky de lado. É então quando Micky conhece Charlene (Amy Adams, também indicada e ótima como sempre) que ele consegue asas para voar e mostrar todo o seu potencial. E através de situações de "cair na real" Dicky também tomará ciencia de seus atos e acordará em tempo.
O fato é que este é um filme sobre família, que independente de seu tipo é a coisa mais importante que o ser humano tem em sua vida e influencia muito os atos de cada um. E esta família em específico tem muitas peculiaridades e defeitos, mas tem a força de combater os obstáculos e vencer os desafios que lhes são impostos. Por isso mesmo, por ser um filme sobre família, que os 4 protagonistas estão indicados ao Oscar (até mesmo Wahlberg indicado como produtor do filme), já que aqui temos atuações que se complementam, e que conseguem voar pela colaboração mútua que ocorre no elenco. Outro grande destaque do filme é o roteiro, muito dinamico, e a direção de David O. Russell, muito inteligente e com cara de filme antigo.
É um dos favoritos ao Oscar (sempre digo que, depois de "O discurso do rei" e "A rede social"- the fighter é o terceiro da lista), que consegue dismistificar a história de um lutador fugindo dos clichês do gênero por sua narrativa dinâmica e perspicaz. Mas, se você não gostar deste tipo de filme, não tem problema- assista-o apenas para constatar atuações ferozes, o que está dificil de se ver hoje em dia.
Um grande filme.

Nota: 9,5

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Agora nos cinemas: "O discurso do rei"

Neste ano de 2010 que passou, apenas dois filmes me fizeram ficar com um nó na garganta durante toda a projeção: "Como treinar o seu dragão", por causa da amizade verdadeira de Soluço e Banguela, e "O discurso do rei" pela humanidade e sensibilidade empregadas, pela primeira vez na história do cinema, à um rei.
O longa conta a história real do rei George VI (Colin Firth), pai da atual rainha Elizabeth, que era gago e que conseguiu enfrentar o seu problema através da ajuda do terapeuta da voz Lionel Logue (Geoffrey Rush), com quem estabeleceu uma surpreendente e verdadeira amizade. Bertie (apelido para os íntimos do rei) conta ainda com a ajuda da esposa, Elizabeth, ou rainha mãe como é conhecida por todos (Helena Bonham Carter, em uma atuação inusitada e inteligente), mas tem como o inimigo Adolph Hitler, e uma invenção que mudou a história da comunicação: o rádio.
Favorito ao Oscar, o filme é um triunfo, porque mostra todas as fraquezas e dificuldades enfrentadas por uma pessoa tão importante em um dos momentos chave da história mundial. O fato é que, quando o pai de Bertie, o rei George V (Michael Gambon, numa ótima ponta) faleceu, quem o sucedeu foi Edward (vivido aqui com excelencia por Guy Pearce), o irmão mais velho que logo depois abdicou por amar uma plebéia duas vezes divorciada Wallis Simpson (Eve Best). E em uma das cenas mais bem elaboradas do longa, quando Edward assume o reinado, a unica coisa que resta à ele é desabar em lágrimas (de desespero, não de felicidade), caindo como um derrotado nos braços da mãe (vivida pela magnifica Claire Bloom, de Luzes da Ribalta), mostrando a fraqueza que iria resultar na renúncia. Logo após esta cena, Bertie vai até o "consultório" de Lionel e, com os olhos marejados de lágrimas, conta todas as angustias de toda uma vida que o deixaram tão sensivel mas ao mesmo tempo tão explosivo. Nenhum outro longa expos um rei como este, e com o roteiro fantastico de David Seidler (que com certeza tem os melhores diálogos do ano) temos aqui uma história que tinha tudo para cair no clichê, mas graças a sua realização extremamente bem focada, passa longe de armadilhas do gênero.
O filme tem ainda uma direção ótima de Tom Hooper (queridinho nos EUA por causa da série John Adams), e uma parte técnica impecável, que é incrivel justamente por ser extremamente minimalista (desde a direção de arte de Eve Stewart até a trilha estupenda de Desplat, tudo é proposital para que o filme se alinhe do jeito que é).
Mas mais importante do que qualquer coisa aqui, é o elenco. Que elenco! Derek Jacobi (como arcebispo), Timothy Spall (como Winston Churchill), Eve Best (Wallis Simpson), Anthony Andrews (como primeiro ministro), Jennifer Ehle (como esposa de Logue), Claire Bloom (como rainha Mary), Michael Gambon (como rei George V), Guy Pearce (como Edward) e principalmente Helena Bonham Carter, Geofrey Rush e Colin Firth, são triunfais. Helena, na sua atuação contida, consegue transpor todo o carinho que o próprio publico gostaria de dar ao protagonista, Geoffrey, tão preparado e inteligente, consegue aqui mostrar porque é um dos melhores atores vivos do mundo, fazendo de seu Lionel um verdadeiro amigo, incentivador, mas que também poe os pés pelas mãos de vez em quando, mas que assume seus erros. E Colin? Pensar que este papel foi oferecido primeiramente ao querido Paul Betthany, que recusou para passar mais tempo com a família e acabou dando a Colin a atuação de sua vida, seu Bertie é explosivo, vulnerável, sensível, sofredor, também erra e assume seu erros, mas acima de tudo, é uma pessoa correta, um homem de verdade, que enfrentou seus medos e conseguiu enxergar em Lionel um amigo verdadeiro que o poderia ajudar a enfrentar um país inimigo.
Talvez toda essa humanidade seja o segredo do sucesso estrondoroso que o filme anda fazendo pelas terras inglesas (nunca nenhum filme de reis ingleses fez tanto sucesso de bilheteria por lá), e comovendo vários dos votantes da academia (já que Discurso levou o PGA, o DGA e o SAG), além de ter sido indicado à 12 estatuetas.
Em meio à tanta ambição, inveja e poder, eis aqui um pequeno grande filme, que consegue expor tudo que uma pessoa deve ser: íntegra, que enfrente seus medos, e que, reconheça no outro todo o seu progresso. Independente desta ser um rei ou um plebeu. E por isso mesmo, este filme é uma verdadeira jóia.

Nota: 10,0

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Agora nos Cinemas: Um Lugar Qualquer



Johnny Marco (Stephen Dorff) é um ator por volta de seus 35 anos, sedutor, de corpo definido, rico, fútil e completamente sem razão de existência. Tendo sua vida completamente administrada por seus assistentes, e apenas um ou dois amigos verdadeiros - com os quais joga guitar hero, e mais nada, ele vive entre seu mundo profissional e o apart hotel no qual mora. Como um dado aleatório, ele também tem uma filha, com quem se importa pouco, mas é obrigado a passar algumas semanas com a garota porque sua mãe, antigo caso do ator, resolvera viajar e não estava com vontade de ter que ficar com a menina. É assim que Cleo (Elle Fanning) aparece na trama. Trama, por sinal, inexistente. A partir deste instante acompanhamos pai e filha em algumas situações, jantares, entrevistas, programas televisivos em língua extrangeira (desta vez italiano), até que, aos poucos, Marco perceba aquilo que é evidente: ele é um completo idiota, indiferente para qualquer outra pessoa no mundo que não fosse sua filha - quem ele não dava a mínima atenção. E a epifania ainda conduzirá o filme a um dos finais mais artificiais e tosco da recente temporada.

Bom, já na sinopse eu não consegui esconder meu descontentamento com o filme. Mas acontece que, além de ser um profundo tédio que testa a paciência do espectador do início ao fim da projeção, pode-se dizer que é um assunto já tratado anteriormente, de maneira muito mais eficiente por outros cineastas. Mas a conclusão mais estranha é que Um Lugar Qualquer parece ser o primeiro rascunho do argumento de Encontros e Desencontros.  Um homem com crise em relação a sua identidade, que não encontra prazer em quase nada que o cerca, uma garota anos mais nova que compartilhará com ele desses momentos, a vida sem referências entre hotéis e viagens, a fama internacional e o deslocamento demonstrado via programas de tv em outra língua - basicamente todos os elementos do melhor filme de Coppola estão presentes neste novo. O que o torna ainda mais cansativo   e decepcionante. 

Contando com uma estrutura bem intimista mas, desta vez, completamente vazia, Sofia nos desafia com um filme que a despeito de sua ausente trama, o pouco carisma de seu protagonista, o encanto de Fanning e o final absurdamente artificial não há mais nada a ser comentado. O que é uma pena, uma vez que ela é uma diretora quase sempre interessante, com abordagens inteligentes de temas característicos - como a solidão e a busca por algum sentindo em vidas aparentemente banais. Se todos os três primeiros filmes dela eram no mínimo ótimos, Um Lugar Qualquer se mostra como seu primeiro grande erro.

4,0

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Agora nos cinemas: Cisne Negro



Por Tiago:

Creio que todos já estão cientes da trama de Cisne Negro, mas, caso alguém ainda a desconheça, vale um breve resumo. Nina Sayers (Natalie Portman) é uma bailarina de técnica excelente que luta por conseguir destaque em sua companhia. Após a aposentadoria forçada à estrela maior, devido a sua idade, Nina é selecionada para ser a primeira bailarina na nova versão do coreógrafo Leroy (Vicent Cassell) para O Lago dos Cisnes. Entretanto, desejando sempre a perfeição de sua bailarina, o coreógrafo evidencia que Nina, apesar de todas as suas qualidades - técnicas ou humanas - para interpretar o cisne branco, é incapaz de dar veracidade ao cisne negro, o vilão do espetáculo, exigindo que a moça busque outros ares para sua dança, como sua naturalidade, sua sensualidade, e seu lado cruel. Perfeccionista, ambiciosa e cada vez mais rígida consigo (o que vai pouco a pouco evidenciando toda a sua insegurança com o papel), Nina mergulha em um mundo de fantasias e delírios para realizar a tarefa. 

Sou um grande fã do diretor Aronofsky, e é interessante ver a mistura que ele cria para realizar seus filmes. O seu último, 'O Lutador' (que eu considero o mais fraco dentre todos), abandonava o que há de artificial na narrativa e trabalhava completamente em cima da crueza de um cotidiano, tornando-se um tanto direto e nada sutil filme. Fonte da Vida, por outro lado, trazia uma fábula cheia de aspectos mágicos e fantasiosos para descrever um luto e o desespero de um amante em não aceitar a morte de sua mulher - funcionando assim quase como outro oposto, apenas 1/3 do filme dedicava-se à realidade. Em Cisne Negro, surge uma espécie de equilíbrio. O diretor não perde de sua trama a insuportável vida do balé, que leva seus profissionais a extremos que pouca gente imagina quando assiste a um espetáculo: espasmos musculares, tortura física, ambiciosas competições, distúrbios alimentares. Porém, tudo isso é salpicado em um quase thriller psicológico dos extremos emocionais vividos por nossa protagonista, de sua relação cansativa com uma mãe protetora e competidora (veja bem, ela abandonou sua vida de bailarina para cuidar da filha, desejando nela tanto o sucesso que nunca teve quanto, implicitamente, seu fracasso para que não seja ultrapassada), sua insegurança incontrolável diante outra bailarina querida por seu coreógrafo (Lily, interpretada por Mila Kunis), e etc.

O primeiro nome a se destacar, com arrepios no braço, é mesmo Darren Aronofsky, pela sua perfeição em transformar idéias e sensações em imagens. Já li muitas discussões que se atém às características psicológicas do filme que dão a ele um ar de sonho - o que não é bem assim - ou falam que tudo é o inconsciente de Nina. Eu defendo que não é preciso ir tão longe. Certamente, todos já viveram uma situação limite, extrema na vida, diante da qual sentimos que vamos fraquejar por completo. Seja um extremo profissional - como não deixa de ser no filme - ou um luto, como o diretor já trabalhou antes, ou uma desilusão extrema com algo. Precisamos nos defender, ainda que não saibamos como. Como um sonho em vigília, nosso imaginário funciona com ares de independente, imaginamos sim destruindo a alguém, espancando, dominando, ou até mesmo nos rebaixamos diante situações que condizem com o real. É o que eu defendo que se passa aqui. Ainda que seja divertido e realmente incômodo em alguns momentos, essa distinção do que é real ou não no filme não passa de uma mera tentativa inválida. Aronofsky conseguiu criar imagens das sensações extremas, apoiando-se no brilhante roteiro (e já comentei a sua não indicação) de Mark Heyman e André Heinz e John McLaughin. 

Uma trama complexa neste estilo iria pelos ares se não encontrasse apoio em um elenco competente que desse total crédito às situações. Apesar do nome que se destaca - com merecimento - é muito necessário ressaltar que Vicent Cassel, em um papel que foge completamente aos seus padrões, Barbara Hershey, Mila Kunis e até mesmo Winona Ryder estão todos excelentes e fundamentais para o filme. Todavia, e desculpem o trocadilho, o palco é mesmo de Nina e Natalie Portman. O personagem mais complexo da temporada é defendido com bravura e impressionante perfeição pela atriz, que não apenas parece dominar - pelo menos o necessário - a aura do balé, como também o drama psicológico é trabalhado em seus mínimos detalhes, da insegurança inicial à eterna sensação de que ela se sente deslocada - ainda que estando no lugar que sempre sonhara (vide a cena na qual ela é apresentada publicamente como bailarina principal da nova temporada, em uma festa de gala), culminando em um duelo triunfal dela para com ela mesma, e os atos finais que são de arrepiar a alma, marcando o filme para sempre em nossa memória.

A parte técnica também segue de acordo com o que o filme precisa, uma fotografia que brinca com espelhos e iluminação, criando um clima noir mas com momentos de espetáculo. Uma edição elegante e inteligente que sustenta a trama, excelente desenho de som, efeitos especiais simples e surpreendentes (o surgimento do cisne negro é uma cena simplesmente inesquecível), até a soberba trilha de Clint Manssell. Já disse que o considero um dos melhores compositores em atividade, e suas parcerias com Aronofsky são sempre inspiradoras (não há outra palavra para definir as trilhas de Réquiem Para Um Sonho e Fonte da Vida, a não ser 'soberbas'), e desta vez o músico faz uma nova trilha trabalhando em cima da partitura consagrada de Tchaikovsky.

Infelizmente, um dos pontos que eu gostaria de discutir tratar-se-ia de um spoiler do filme, então preciso evitar. Mas leiam caso já viram o filme: o final. Inicialmente, Aronofsky foi inteligente o suficiente para lhe dar ares de fábula e realidade ao mesmo tempo, e enlouquecer o espectador. Mas, mais que isso, novamente pouco importa esta distinção, mas a metáfora foi maravilhosa. A fala da protagonista é precisa, e honestamente, é a homenagem que o próprio filme merecia - aquela fala tem por obrigação representar o resultado final do trabalho de Portman, Aronofsky e de todos os envolvidos com o filme. Na trama, ela coroa o ponto final obtido, mas mais do que isso, traz consigo o significado da transformação. Quando passamos por uma das tais fases extremas que comentei, quando a finalizamos, sabemos que não somos mais os mesmos. Segue-se a vida, a rotina, mas algo muito íntimo se transformou, há um deixar de existir, e começar a existir a partir de. Não apenas, na idéia de perfeição e perfeccionismo, há sucessos em nossas vidas que sabemos serem únicos, e que nunca acontecerão de novo. Por outro lado, mantém a fábula de Tchaikovsky até o fim. Por fim, não deixa de ser uma rima e uma referência genial a O Lutador, na diferença de um salto quando não se há outro sentido na vida desgastada e o salto que concentra em si toda a 'sensação de sentido da vida'.

Aronofsky tem que ser aplaudido de pé. Naqueles filmes visivelmente inteligente e diferente demais para se atingir todos os gostos, os votantes da academia e o público em geral tiveram a sensação que, ainda que o filme não os atinja por completo - o que não foi o caso dos dois autores do blog - é uma obra poderosa demais para ser ignorada. Foi assim que, mesmo não tendo o menor aspecto de filme para a Academia, exceto a atuação de Portman, ele acabou se fincando com mérito nos cinco indicados a filme e diretor. Não se enganem: ele é o vencedor daquela lista, só não é acessível para isso. Não importa. Foi perfeito.

10,0


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Por Vivi:

Piotr Ilitch Tchaikovsky foi provavelmente o compositor clássico romântico mais importante da história. Infeliz no amor (o compositor era homossexual não assumido e nunca teve alguma de suas paixões correspondidas), ele transpunha para seus balés, sinfonias, e concertos toda a dor que ele sentia. "O lago dos cisnes", primeiro ballet do compositor, transpõe bem sua dor, sendo este provavelmente seu balé mais trágico e que mais anunciava sua dor. Mal imaginou ele que, 133 anos depois, um cineasta apaixonado por perguntas sem resposta e uma trupe de roteiristas iria transpor seu ballet com tamanha perfeição, dor, e melancolia.

Aronofosky sempre foi conhecido em tratar nos seus filmes questionamentos e, principalmente, obsessões: em Pi a obsessão era por equações insolúveis, em Requiém para um sonho os sonhos destruídos pela obsessão às drogas, em Fonte da Vida a obsessão era a vida eterna e em Lutador a obsessão era ultrapassar os limites humanos através da luta. Mas, qual é a obsessão de Cisne Negro afinal? Simples- provavelmente a obsessão mais cruel que existe na humanidade: a perfeição.

Junte então um ballet incansável e eterno, à um diretor obcecado por obsessões e o resultado é o melhor filme do ano de 2010, um dos maiores do gênero e a maior atuação da carreira de Natalie Portman. Aqui, Natalie vive Nina, uma bailarina obcecada pela dança que ao ser escolhida para protagonizar o balé do "Lago dos Cisnes" começa um tormento e calvário pessoal, que culminam em uma veracidade impressionante com a história que está sendo adaptada.

O grande problema de Nina é que ela quer ser perfeita e, a grande parte das pessoas que vivem em volta dela não colaboram para a sua lucidez: enquanto sua mãe é controladora ao extremo (vivida por Barbara Hershey), jogando sempre na cara da filha que ela deixou a carreira de bailarina por causa de sua gravidez (e aqui temos uma situação muito parecida com Rapunzel de "Enrolados"- ambas as mães são controladoras, e incentivam as filhas a fazerem coisas apenas para prazer delas mesmas e não para felicidade das filhas), seu "chefe", o renomado coreógrafo Thomas Leroy (Vincent Cassel) concorda que perfeição existe sim, e tem a ver com "se entregar ao papel" sempre criticando a garota, dizendo que ela não conseguiria interpretar o cisne negro, além da ex prima ballerina Beth (Winona Ryder) que odeia Nina por achar que ela "roubou" o seu lugar. Além disto temos Lily (Mila Kunis) a "Odile" da história, o qual tem um personagem dificílimo- ao mesmo tempo que é querida é ameaçadora, que é amiga é inimiga, e mais do que isso- causa estranheza em Nina tanto quanto atração na mesma. Com todos estes personagens em volta da protagonista, é impossível que a mesma se sinta confortável consigo mesma.

E esse desconforto e tristeza não conseguir atingir o seus objetivos, vai fazendo com que a moça tenha mais e mais alucinações, não conseguindo diferenciar o real do imaginário, a personagem da personificadora, a luta e a morte, fazendo do filme uma espécie de transposição de "O lago..." para os dias atuais. A ambiguidade das situações surge desde o primeiro instante, com espelhos por todo o lado, e alucinações inexistentes. Até a tão comentada cena de sexo entre Nina e Lilly, não passa de um sonho da protagonista (o que se observa desde o primeiro momento, já que se Lilly estivesse na casa de Nina, sua mãe claramente teria percebido a presença da garota, além de Nina e Lilly falarem a mesma frase no diálogo com Erica).

Impecável em todos os sentidos, "Cisne Negro" é um triunfo. A trilha sonora, absurdamente perfeita de Clint Mansell, moldura as cenas partindo das composições de Tchaikovsky e criando uma sonoridade totalmente nova que combina inteiramente com a composição original. A fotografia, de Matthew Libattique, também é fabulosa- fazendo com que cada cena pareça uma cena de ballet e sonho, misturando o real e o imaginário. Já os figurinos de Amy Wescott, em parceria com a Rodarte, conseguem captar a alma da personagem, ao fazer com que seus tons de roupa mudem de acordo com a mudança da personalidade da protagonista. E a mixagem de som também é grande colaboradora, ao fazer ecoar os sons de um público aclamando Nina, no meio de uma boate.

Mas o show mesmo aqui é de Natalie, que se entrega ao papel tanto quanto Nina, doando-se fisicamente e psicologicamente à personagem. Sentimos paixão, pena e tristeza por Nina, acompanhamos ela em cada passo, cada alucinação, cada dor que se revela inexistente, e todo seu sucesso e tragédia. Trata-se aqui de uma história de bastidores, de pressão, de entrega, sendo que grande parte da potencia do filme não seria possível se Natalie não fosse tão convincente e assustadora (acredito em sua vitória no Oscar e, se não ganhar, será a maior injustiça da história).

Por fim posso dizer que Aronofosky conseguiu aqui uma obra prima, que cai tão a fundo no tema do filme quanto Nina- em sua obsessão pela perfeição, criou-se uma obra perfeita, um quebra cabeça soberbo, sob o qual Tchaikovsky com certeza se orgulharia, e se enxergaria na protagonista. Nunca uma biografia de algum compositor foi tão fiel quanto "Cisne Negro". Ironicamente, é o retrato mais fiel do compositor russo.

Nota: 10,0