quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A Serbian Film - Terror Sem Limites e reflexões livres sobre censura


É inútil começar escrevendo que nenhum filme este ano (e, sei lá, nos últimos 10, talvez) causou mais polêmica que o terror do estreante diretor Srdjan Spasojevic "Terror Sem Limites" - censurado num incontável número de países, dentre eles, o Brasil. E como onde há fumaça, há fogo, e sou movido pela curiosidade, evidentemente acreditei que assistir ao filme faria com que eu tivesse uma opinião mais centrada sobre o assunto.

Mea culpa. Mea maxima culpa. 

Entretanto, de fato, agora posso me expressar melhor sobre a obra. Num estilo narrativo que não deixa de ter certos ecos de Anticristo, por aqui, perdemos a noção do que é pesadelo e do que é real na narrativa, e embarcamos em um doentio mergulho pela proposta do diretor. Acontece que, verdade seja dita, parte da violência física do filme - excluindo-se aí suas considerações sobre a violência sexual - fica aquém dos explícitos gores-blockbusters como a série Jogos Mortais ou O Albergue. Mas, como polêmica pouca é bobagem, entramos nos tabus sexuais. Acerta o diretor em esfregar na cara de seu público que há um profundo caráter sexual no sadomasoquismo e que, uma vez sentado num cinema para assistir pessoas esquartejando seus corpos em armadilhas, há um aspecto perverso de nossos espíritos em jogo.

A parte "coerente" do filme pára por aí. Caso alguém realmente se importe com spoilers por desejar ver a obra, sugiro que pulem o seguinte parágrafo, e sigam direto para o outro. Contudo, sugiro também que poupem seus estômagos e se contentem apenas com o resumo da ópera:

A violência sexual do filme é gradual, e já começa bem apelativa. Milos, ex-ator pornô é convidado por um diretor para estrelar um filme cujo conteúdo seus realizadores não sabem se é mera pornografia ou aspira à arte. Há um jogo de resistência sobre quais limites do ator poderão ser quebrados no desenvolver de tal obra. Inicialmente, ele parece ter repulsa por qualquer traço de violência na gravação do filme, mas rende-se a um violento jogo psicológico começando atrocidades cada vez maiores. No primeiro sinal de que algo não vai bem, Milos transa com uma mulher enquanto lhe são expostas imagens de uma garota, menor de idade, chupando um sorvete. Isso se desenrolará na seguinte maneira: em outra cena ele se verá obrigado a bater na mulher com quem transa, passa para a mulher "morta" com a qual ele também transará. Para lhe provar que a ambição do filme é válida e inovadora, o diretor lhe apresenta um vídeo no qual um médico, ao fazer o parto de um recém-nascido, sodomiza a criança. No fim, chegar-se-á ao ponto de Milos estuprar - sem saber - sua própria família (inclusive seu filho menor de idade), para, no fim, toda a família se suicidar e dar-se a entender que um novo diretor filmará um novo maníaco transando com a família morta.

Além da trama explicitamente visual a embrulhar o estômago, A Serbian Film é simplesmente doente por, ao contrário do que foi apregoado aos quatro ventos, não ter nenhuma outra intenção em mãos para seu material. Que não me venham com as alegações de metáforas sobre a barbárie humana, muito menos sobre as críticas políticas. Talvez o que exista mesmo, de leve, são moralistas considerações sobre a indústria pornô - uma vez que, mesmo não sendo bem vista socialmente, não merece tal analogia. Como disse, o máximo que  aceito como proposta do filme seria uma crítica da indústria de filmes gore e seus espectadores. Contudo A Serbian Film reproduz com maestria aquilo que talvez ele critique: seu roteiro é, em última análise, uma metalinguagem do que a obra se torna: uma pornografia doente, masoquista - e sádica - que infelizmente encontrará algum público que sinta prazer em vê-la.

Dito isso, sou obrigado a concluir o texto defendendo, ainda assim, a não-censura de filmes no país. Apesar da violência, seria ainda mais doentio ver no filme qualquer traço de apologia a qualquer coisa e, bem ou mal, todas as suas cenas foram gravadas respeitando ao máximo às leis que lhe convém (ou seja, é estranhamente necessário ressaltar o fato de que nenhuma criança ou recém-nascido foi abusada sexualmente para sua realização, assim como nenhum assassinato ocorreu). Talvez fosse o momento de se refletir se é necessário a criação de uma nova classificação etária - 21 anos (e as classificações etárias eu defendo, uma vez que ajuda os exibidores a legitimarem sua proibição na venda dos ingressos) ou algo do tipo... Acontece que, em última análise, repulsivo ou não, se estamos em um país onde a democracia vigora, que cada exibidor e espectador tenha o direito de resolver aquilo com o que se envolverá ou não. E, verdade seja dita, não fosse tal polêmica, dificilmente o filme sobreviveria mais do que uma semana nas salas de exibição - assim como não viraria um alvo tão óbvio para downloads virtuais, por toda e qualquer faixa etária.

No entanto, também não há como se fazer de cego para uma situação como essas. Ainda que contra qualquer tipo de censura, devo admitir que há evidentemente como compreender um filme causar tamanho mal estar. Que o público fique feliz com o fato de que não está perdendo grande coisa - e que, além disso, é uma obra de fácil acesso na internet. Contudo, precisamos ficar de olho. Qualquer iniciativa que pontualize uma intenção de se definir o que é o bom senso do arbítrio de outrem é igualmente um grande incômodo.

Se ainda for necessário a nota do filme... Que fique... 1,0

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(Infelizmente este filme quase estragou minhas últimas excelentes experiências cinematográficas, a saber: Incêndios, Contracorrente e A Rosa Púrpura do Cairo. Fico devendo crítica dos dois primeiros, assim como a de Melancolia, próxima que devo escrever. Devido a nossos acordos e divisões de filme, me comprometi com a Vivi para não dar meu destrutivo parecer sobre o embuste A Árvore da Vida). 

2 comentários:

Dr Johnny Strangelove disse...

Já vi filmes piores ... Não existe choque ... não existe nada ... o que existe infelizmente e no Brasil se chama sociedade criada a leite com pera e ovomaltino que só quer tentar recriar um falso moralismo que não existe.

Abraços.

Dr Johnny Strangelove disse...

"Que não me venham com as alegações de metáforas sobre a barbárie humana, muito menos sobre as críticas políticas"

E o pior é que existe mas o problema é que é tão pobre o filme que isso se vai pro ralo em instantes ...