Diz Lars von Trier que Anticristo foi feito a partir de imagens e sensações derivadas de pesadelos oníricos ou lúcidos que o roteirista e diretor teve ao enfrentar uma severa depressão. Evidentemente, qualquer um que assistiu ao filme anterior não duvida disso. Contudo, se Anticristo era em estrutura fruto de uma depressão, é Melancolia a obra que carrega o fardo de discutir tal experiência psicológica em seu aspecto mais solitário e triste.
Dividido em dois capítulos, cujos títulos dedicam-se aos nomes de suas personagens principais, Justine (capítulo primeiro) se dedica nos festejos graças ao matrimônio da personagem homônima (Dunst), que parece viver um inferno particular. Esforçada ao esboçar alguma felicidade diante do grande momento de sua vida pessoal, Justine é visivelmente deslocada naquele contexto, sendo chocada, aos poucos, às ruínas de seu próprio universo: seu noivo é um companheiro compreensível, ainda que omisso; sua mãe lhe define, a todo instante, a palavra amargura, com posições e falas impertinentes à situação; seu pai parece possuir especial descaso para com todas as mulheres, inclusive as de sua vida, mostrando-se sempre autofocado; seu chefe é especialmente sem tato ao fazer do casamento um teste profissional e sua irmã, Claire (Gainsbourg) é quem carrega o fardo de sustentar as dores da irmã, ainda que, para isso, não hesite em demonstrar seu cansaço e irritabilidade.
Por outro lado, Claire trará o pano de fundo de toda a obra. A aproximação do planeta Melancolia (sensível falta de sutileza do diretor, que perdoamos com inquestionável facilidade ante a obra apresentada) torna-se, aos poucos, uma ameaça para Claire, a personagem, que recusa-se a acreditar na possibilidade do apocalipse – apesar de muito se assustar com a tal – mas que, aos poucos encontra o fim de sua vida pessoal: tudo aquilo que Claire conta para se manter como uma pessoa equilibrada começa a desmoronar: todos os contratos sociais a sustentar sua vida desaparecem ante o iminente fim do mundo. Neste momento, von Trier nos traz sua crueza tão característica: a desgraça da humanidade, ainda que definhe Claire aos poucos é, ao mesmo tempo, um acalento para Justine.
E aos dois capítulos é acrescido um impressionante prólogo – ainda melhor que o estonteante de Anticristo – no qual o apocalipse é retratado como em um pesadelo, antecipando que aquele evento não deve ser encarado pelo espectador como um suspense com possibilidade de final menos infeliz: o mundo acabará, não há esperança.
Enquanto a primeira parte do filme nos remete a algumas características do Dogma 95, dentre eles a crueza visual e a câmera insistentemente em mãos e livremente movimentada, Claire é realizado através de planos mais comportados e contemplativos, sem grande movimento. O roteiro de von Trier é enxuto, direto e cinicamente honesto, ao passo que, novamente, as escolhas são ainda mais elogiáveis ao papel de diretor. Não há como não destacar a beleza do fim do mundo acompanhada pela ópera Tristão e Isolda, de Wagner (encontrando aqui uma acidental e bela rima com o pífio A Árvore da Vida, cujo único momento de honesto impacto se deve ao Gênesis – o Big Bang – acompanhado por Lacrimosa, de Preisner).
Kristen Dunst condensa com merecimento todos os elogios ao elenco da obra, entregando-se integralmente àquele que é, por ora, o melhor papel de sua carreira. A Gainsbourg coube um papel menos histriônico do que visto na obra anterior do diretor, enquanto, no elenco secundário, destacam-se Charlotte Rampling, a mãe, e Stellan Skarsgard. É gratificante a oportunidade de ver Kiefer Sutherland parado e sem armas na mão, enquanto, de fato, gostaria de ver Alexandre Skarsgard em um papel dramático um pouco mais destacável – algo que o ator não encontrou por aqui.
No final das contas, Melancolia deve ser a obra mais comportada e comum de von Trier desde Dançando no Escuro (destaco que não tive a chance nem o interesse de conferir O Grande Chefe), no entanto, não encontra nenhum demérito por isso, sendo, ao mesmo tempo, um de seus melhores filmes. E, novamente, me vejo obrigado a dizer que apesar de nos dar uma experiência única a cada nova obra, ainda sonho com o dia que o diretor retome a ideia de concluir sua trilogia iniciada por Dogville. Também sou obrigado a dizer que é uma lástima o fato de que, num dos melhores momentos de sua carreira, o diretor se manche tanto e roube a atenção para suas impensadas e ignorantes palavras no festival de Cannes sobre sua identificação com Hitler. Ainda que não tenha sido uma fala tão devastadora quanto a reação causada, não deixou de ser apontável ignorância desnecessária por parte do diretor.
Nota: 9,0

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