segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

SAG, DGA e PGA: Crítica x Indústria, Cinemão x Novidade - a temporada 2011



Num ponto decisivo para a disputa, a mesa virou completamente. Não deve ser novidade para ninguém que O Discurso do Rei venceu o sindicato de atores, de diretores e de produtores. Mais do que recomeçar toda a conversa do que achamos ou deixamos de achar de cada filme, direção e atuação - o que já fizemos nos últimos 5 posts com o intuito de comentar os indicados ao Oscar 2011 - vamos em busca dos mitos e verdades por trás de cada premiação.

Comecemos pelos números. Levarei em consideração os últimos 10 a nos de prêmios, de 2000 a 2010.

SAG Awards
Na última década, por 5 vezes o prêmio de melhor elenco não coincidiu com o Oscar de melhor filme: Traffic x Gladiador, Assassinato em Gosford Park x Uma Mente Brilhante, Sideways x Menina de Ouro, Pequena Miss Sunshine x Os Infiltrados, Bastardos Inglórios x Guerra ao Terror. Ou seja, metade.

Sobre os vencedores de melhor ator, 4: Benicio del Toro (Traffic) x Russel Crowe (Gladiador) - sendo que, no Oscar, Benício foi indicado como coadjuvante - e venceu; Russel Crowe (Uma Mente Brilhante) x Denzel Washington (Dia de Treinamento); Daniel Day-Lewis (Gangues de Nova Iorque) x Adrien Brody (O Pianista) e Johnny Depp (Piratas do Caribe) x Sean Penn (Sobre Meninos e Lobos).

Melhor atriz, 4: Annette Bening (Beleza Americana) x Hillary Swank (Meninos Não Choram); Renée Zellweger (Chicago) x Nicole Kidman (As Horas); Julie Christie (Longe Dela) x Marion Cotillard (Piaf - Um Hino ao Amor) e Meryl Streep (Dúvida) x Kate Winslet (O Leitor, indicada e vencedora do SAG como coadjuvante pelo papel).

Melhor ator coadjuvante, 5: Albert Finney (Erin Brokovich) x Benício del Toro (Trafic, indicado e vencedor do SAG como ator principal pelo filme); Ian McKellen (O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel) x Jim Broadbent (Iris); Christopher Walken (Prenda-me Se For Capaz) x Chris Cooper (Adaptação); Paul Giamatti (A Luta Pela Esperança) x George Clooney (Syriana); Eddie Murphy (Dreamgirls) x Alan Arkin (Pequena Miss Sunshine).

Melhor atriz coadjuvante, 4: Judi Dench (Chocolate) x Marcia Gay Harden (Pollock - sequer indicada ao SAG), Hellen Mirren (Assassinato em Gosford Park) x Jennifer Connely (Uma Mente Brilhante, indicada ao SAG como protagonista pelo papel); Ruby Dee (O Gângster) x Tilda Swinton (Conduta de Risco) e Kate Winslet (O Leitor, indicada e vencedora do Oscar como protagonista pelo papel) x Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona).

Veredicto: Compatibilidade mediana. Dos anos listados, não houve um único ano em que os 5 vencedores do  SAG bateram perfeitamente com os 5 vencedores do Oscar. E não dá para fincar exatamente o padrão deles, em alguns anos eles consideraram, de fato, o melhor elenco (Bastardos, Miss Sunshine), alguns anos o hype da crítica foi extremamente forte (Milionário). 

Sobre 2011: Pode haver mudanças, assim em como todos os outros. Aparentemente, a grande chance disso acontecer ainda reside na categoria de Atriz, onde a vitória de Bening é sempre uma possibilidade. Uma chance remota é de melhor atriz coadjuvante terminar com Hailee Stenfeld, mas quase impossível. E sobre melhor filme, o SAG já foi considerado o culpado (uma vez que 'responsável' é uma palavra inaplicável ao caso) pela inesperada vitória de Crash - No Limite como melhor filme. Se A Rede Social tivesse vencido, o filme ainda respirava. Mas, ao que tudo indica, o ano é do Rei, mesmo.

---
DGA
Apenas dois desencontros. Rob Marshall (Chicago) x Roman Polanski (O Pianista que, entretanto, perdeu melhor filme para Chicago) e Ang Lee (O Tigre e o Dragão, que venceu melhor filme estrangeiro no Oscar) x Steven Soderbergh (Traffic) - e o curioso: o Oscar de melhor filme não ficou com nenhum dos dois, mas sim com Gladiador.

Veredicto: Compatibilidade considerável.

Sobre 2011: Havia um consenso de se premiar Fincher este ano, e Hopper é um novato. Aqui reside a última chance de A Rede Social levar um dos filmes importantes, mas ainda assim será suado - se acontecer.

---
PGA
4 desencontros: Pequena Miss Sunshine x Os Infiltrados, O Segredo de Brokeback Mountain x Crash - No Limite, O Aviador x Menina de Ouro e Moulin Rouge! Amor em Vermelho x Uma Mente Brilhante. O único filme a vencer tanto o PGA quanto o DGA e o SAG que não manteve o mesmo resultado no Oscar foi Chicago, perdendo apenas diretor.

Veredicto: Compatibilidade mediana.

Sobre 2011: Se apenas o PGA tivesse ido ao Discurso, pouco importaria. Com a trinca principal, o caso é diferente. O ano transformou-se a favor de Hopper e George VI.

O WGA foi propositalmente excluído da lista de sindicatos importantes pois suas regras (excêntricas e estúpidas) para indicação dos roteiros são tão confusas que terminam por excluir vários nomes importantes da briga.

---
E isso tudo é absurdo?

Em partes. O que aconteceu em 2011 foi um aparente retorno de antigos valores. Inicialmente, vamos falar de campanhas. Os irmãos Weinstein são conhecidos por jogarem sujo, pegarem pesado e batalharem pelo seu prêmio a qualquer custo. Entretanto, desde 2003 - quando dois de seus filmes fizeram a limpa nas premiações (Chicago e As Horas) eles vieram amargurando derrota atrás de derrota, crise financeira atrás de crise financeira; a nossa tão querida Miramax foi vendida para e destruída pela DisneyCompany, e a Weinstein Co. não emplacou nenhum grande sucesso. Conseguiu algumas indicações e prêmios - principalmente com O Leitor - mas amargurou sua maior derrota ano passado, com a destruição de sua grande aposta do ano (Nine) e o meio-sucesso de Bastardos Inglórios (o melhor daquela disputa, por sinal). Este ano é como se fosse um grande retorno, não são poucos que estão comparando o percurso de O Destino do Rei com Chicago e, principalmente, Shakespeare Apaixonado. Surge aí a esperança de David Fincher ainda vencer melhor diretor. Entretanto, A Rede Social não é nenhum coitadinho, pois a sua campanha publicitária para os prêmios está sendo a mais cara do ano. Ao que parece, apesar do dinheiro ser menor, Harvey Weinstein ainda tem o know-how e o network necessário. Sem falar que não são poucos os profissionais que devem gratidão ao cara.

Então onde surge a surpresa com os resultados de 2011? Na cisão com a crítica. E isso é bem recente. Aconteceu a partir de Onde Os Fracos Não Têm Vez que os filmes com mais cara de oscarizáveis (Sangue Negro, Desejo e Reparação, O Curioso Caso de Benjamin Button e Avatar) decaíram em prol de filmes não tão óbvios, que foram aclamados pela crítica (o citado filme dos Coen, Quem Quer Ser Um Milionário? e Guerra ao Terror). Pode parecer piada, mas três anos seguidos de comunhão indústria-crítica foi tão exótico, que parecia o rumo definitivo da Academia. Agora percebe-se que, pelo contrário, eram apenas filmes certos em momentos certos; e eu digo mais: excluiria Guerra ao Terror tranquilamente desta lista. É o filme de baixo orçamento e de bilheteria pífia sim, entretanto, a Academia é alucinada por filmes de guerra, e a guerra no Iraque estava precisando de seu próprio Platoon. 

Chegamos, então, ao terceiro choque - o tradicional contra o inovador. Os Coen, Boyle e Bigelow não eram tão óbvios e além de seu apoio da crítica, traziam consigo certos ares de inovação para o tão convencional esquema da Academia. Este caráter de inovação não pode ser extremo, há regras. Comédias, dramas intimistas, filmes com cérebro em excesso não podem entrar na lista. Quem encontrava este meio termo de novidade-pero-no-mucho em 2011 era mesmo A Rede Social (visto que Cisne Negro já é excessivo). Por isso acreditava-se mais ainda no filme do Fincher. E então a Academia se rende ao velho estilo. Ah, como eles adoram reconstrução de época, história de superação, trilha sonora que tem seu volume indiscretamente aumentado no momento em que o público deve chorar, certo discurso maniqueísta de vitória e bons constumes que te enchem o peito de orgulho por aquele personagem e o te faz esquecer dele daí 5 minutos. Isso sim é Hollywood em seu melhor estilo. 2008, 2009 e 2010 é que foram exceções.

O que eu acho disso tudo? Veja bem, meus últimos dois favoritos pessoais a vencerem melhor filme foram Chicago e Milionário (isso porque todo ano eu tenho dois favoritos e me satisfaço com ele, no caso, eles partilhavam o posto com As Horas e O Leitor; ano passado, para quem não se lembra, eram Bastardos Inglórios e Amor sem Escalas; e este ano, Cisne Negro e Bravura Indômita), então pouco me importa esta briga entre Fincher e Hopper. O que eu posso dizer é que apesar das inovações, 2008, 2009 e 2010 também foram os anos mais chatos das últimas décadas, pois surpresas eram impossíveis. Não deixa de ser um tanto hilário - pelo fator 'wow', ver a trupe do criador do Facebook chupar os inglesses do período entreguerras. 

2 comentários:

Kahlil Affonso disse...

EXCELENTE TEXTO! Muito bom! Eu adorei 'The King's Speech' e acho o acho merecedor da estatueta de Melhor Filme. Particularmente, meu voto seria em 'Black Swan ou talvez em 'Toy Story 3'. Mas seria bastante divertido ver 'The King's Speech' sair vencedor! Não só pelo filme ser excelente, mas sim por toda essa revira-volta que está acontecendo na corrida. Faz tempo que não vejo algo do tipo. 'The Social Network' merece todos os prêmios que ganhou, é um excelente filme! Mas não o considero O MELHOR DO ANO. E infelizmente é o Oscar que tem a última palavrano que é dito sobre qual filme é o melhor do ano, mesmo que em muitas vezes eu não concorde. Mas independente de quem saía vencedor, ainda fico esperando a Academia honrar a Pixar com a estatueta de Melhor Filme. 'Ratatouille', 'Wall-e' eram filmes que mereciam e nem sequer foram indicados n categoria. Agora com 'Toy Story 3' a Academia tem a chance de remediar isso, mas tenho certeza que (novamente!) não será dessa vez.

http://filme-do-dia.blogspot.com/

vivi ferreira disse...

Kahlil tens toda razao, e tbm amei seu texto tiaguito amoreeee
gente essa reviravolta tá muito bacan é bom ficarmos no suspense. Mas o que temos que prestar atenção é que embora a rede social tenha vencido vários premios- ela venceu os da CRITICA. Enquanto todos os premios importantes que the kings levou até agora sao de VOTANTES da academia. Por isso, esse filme é o franco favorito, e merece.
Pessoalmente tbm prefiro Cisne Negro, uma obra prima avassaladora, mas sou apaixonada por the kings speech e o acho merecedor do oscar de melhor filme sim!