segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Agora nos Cinemas: Inverno da Alma


Não me lembro se no filme a idade de Ree (Jennifer Lawrance) é revelada em algum momento, seja como for, sabemos que ela é uma garota não muito longe de sua adolescência, responsabilizada pelos cuidados de sua casa, seus irmãos e sua mãe, com alguma doença cognitiva jamais explicada. Seu pai, ex-presidiário, coloca a casa na qual sua família vive como garantia de que obedeceria as regras de sua liberdade condicional, entretanto, desaparece dias antes de ter como obrigação de se apresentar à polícia, fazendo com que a família perca sua casa. A partir disso - apresentado logo nos minutos iniciais da projeção - Ree embarca em uma jornada em busca de seu pai - fabricante de drogas ilícitas no gelado interior do Missori - para que eles não percam sua casa. Após alguns incidentes, ela passa a contar com a ajuda de seu tio Teardrop (John Hawkes).

Debra Granik é uma diretora consideravelmente novata, tendo apenas mais um curta e outro longa em seu currículo. Ainda assim, não deixa de ser interessante o tom que ela imprime em seu filme, dando-lhe diferentes camadas. Há, na somatória total, um drama humano extremamente pesado e depressivo, sem apelar para o sentimentalismo dramalhóide. Não somos manipulados para chorar neste ou naquele momento, mas sentimos um mal estar ao longo de todo o filme, como algo que vai nos incomodando progressivamente, culminando num ápice que dificilmente sairá rápido da cabeça daqueles que assistiram ao filme. Paralelo a este drama, há - ainda que involuntário ou amenizado - um clima western inegável. Não no estilo de Bravura Indômita ou os tradicionais bangs, mas não foram poucos os momentos que o clima sombrio de perseguição e fugra presentes neste filme me lembraram de Onde Os Fracos Não Têm Vez. Por fim, o filme ainda tem o acabamento bem característico do cinema independente americano, dando-lhe uma pincelada final de filme para um círculo alternativo. Creio que se encontra nesta soma parte da riqueza final da obra.

Que se destaca, além da direção precisa, por seu elenco e, especialmente, por Jennifer Lawrance e John Hawkes - ambos indicados ao Oscar de atriz e ator coadjuvante, merecidamente. Apesar de um elenco secundário extremamente correto, são os dois que sustentam o filme nas costas, especialmente a novata atriz que havia me chamado atenção desde que a conheci, no fraco Vidas que se Cruzam. Tendo um personagem extremamente complexo em mãos, uma garota que passa por todas as dificuldades imagináveis para alguém com muito mais idade do que ela e, ao mesmo tempo, parece incapaz de expressar muitas emoções - tendo sempre uma visão prática das coisas. 

E aquilo que eu tomo como o defeito do filme é, de alguma maneira, intencional em sua abordagem, mas não funcionou comigo: exatamente sua frieza. Acho louvável que seu roteiro não caia em um sentimentalismo piegas para provocar uma explosão de choro e pronto. Mas somando-se diversos detalhes de roteiro, direção e atuação, o filme não deixa de causar certo distanciamento de seu público - talvez até como uma defesa deste para os sofrimentos apresentados em tela. Somos extremamente incomodados por aquilo que vemos, mas, ao mesmo tempo, não se mergulha de cabeça naquela intensidade mostrada. Que bom, poderia ser traumático. 

7,0

3 comentários:

Alyson Xyzyx disse...

Concordo com seu texto. Infelizmente nao consegui abstrair muita coisa de "Inverno da Alma" e nem essa essência que o filme tenta transparecer chegou até a mim. Só restou mesmo admirar a atuação da protagonista e ver um filme com outros quesítos tecnicos decentes, mas nada além do correto.

Abraço!

Teca disse...

Ainda não vi.... mas gostei de sua resenha!
bjo

@JuniorAd disse...

Todo ano tem aquele filme independente ovacionado pela crítica e premiações. 2010/2011 foi a vez deste. É bonito, tem ótimas caras, mas definitivamente, não é um filmão.