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Guido tranca-se no estúdio de seu novo filme, 'Itália', encarando o fato de não conseguir escrever seu roteiro. E então, ocorre a overture. O estúdio se ilumina de maneira imprecisa, e Claudia - sua grande musa - surge para lhe dar um beijo que soa a piedade. Inicia-se o coro das mulheres e, aos poucos, aparecem Luisa, Carla, Lilli, Mamma, Stephanie e Saraghina - as mulheres de sua vida que se dividem entre esposa, amante, amiga, mãe, admiradora e prostituta. Muito mais que estes óbvios papéis, as mulheres de Nine são fundamentais para se compreender o cerco no qual Guido está preso: enquanto ele não souber o que fazer com sua vida, o bloqueio criativo certamente continuará.
Muitas acusações foram feitas sobre o filme ser uma refilmagem de 8 1/2 de Fellini. Na verdade, o filme é uma adaptação do musical homônimo de Arthur Kopit e Maury Yeston, que se inspiraram no filme italiano. Linguagens e origens distintas, torna-se meio superficial tentar forçar a comparação entre o filme de Marshall com o de 8 1/2.
Marshall apresenta-se menos sóbrio se comparado com sua direção de Chicago, no entanto, algumas características do diretor seguem inabaláveis, como um apuro estético elogiável, liberdade por trabalhar como quiser o material original (ele cortou muita coisa do segundo ato de Chicago para em Nine cortar quase todo o segundo ato mesmo, criando novas músicas e novas situações, excluindo todas as intermináveis partes do musical nas quais Guido filma 'Casanova'), e sua visível influência e admiração por Bob Fosse. Inclusive, é necessário elogiar quase todas as coreografias do filme, especialmente A Call from the Vatican, Cinema Italiano, Take it All, Overture e, principalmente, Be Italian que funciona quase como um show próprio. Caso vocês queiram mais informações sobre a trama do filme, podem ler este Preview.
Do elenco, destacam-se Penélope Cruz, no papel da apaixonada, inconseqüente e destratada amante Carla; assim como Daniel Day-Lewis no papel principal. Mas o filme tem uma dona: Marion Cotillard. A francesa dona de uma das mais absurdas atuações femininas que já vi (como Edith Piaf em Piaf - Um Hino ao Amor) interpreta Luisa, esposa de Guido, de maneira sublime e extremamente comovente, fazendo com que sua canção Take it All seja facilmente o melhor momento do filme. Kate Hudson é encantadora, canta e dança de maneira surpreendente, mas seu personagem pouco tem a acrescentar, assim como o de Nicole Kidman. O mesmo pode se dizer da cantora Fergie, que defende muito bem sua breve participação. Judi Dench é apenas mais um nome a se somar na lista (e infelizmente sua canção, um dos melhores momentos do musical original, é completamente desinteressante no filme). A única vaia fica por conta de Sophia Loren em uma participação curta mas embaraçosa como a mãe de Guido.
A parte técnica do filme é espetacular. É difícil justificar a brincadeira da fotografia modificar-se entre colorido e preto-e-branco ao longo do filme (qualquer tentativa de se dizer que a monocromática fica por conta do passado ou da imaginação vai por água abaixo na seqüência de Cinema Italiano), mas ainda que não exista razões, eu achei uma brincadeira divertida. A edição é frenética e ágil, e muitos não gostaram disso. Os figurinos são belíssimos, mas sem cair no excesso. Infelizmente a mixagem de som poderia ter sido um pouco melhor, as gravações ficam evidentes.
O ponto mais questionável do filme fica por conta do roteiro. Optando pelo fluxo de consciência de Guido, os roteiristas Minghella e Tolkin criam uma trama fragmentada, que parece desconexa entre diversos personagens - criando diversas situações sem um fio condutor óbvio. Apesar de não dificultar a compreensão final, certamente atrapalha no envolvimento do público, assim como impede um caráter mais unitário do filme. Bill Condon, creio eu, faria um trabalho melhor por aqui.
No final das contas, Nine é um filme belo e que sem dúvidas merece ser visto. Passeia tranquilamente entre diferentes dramas individuais, assim como cria uma metalinguagem eficiente. Entretanto, apesar do gênero musical combinar facilmente com diversos outros gêneros, nesta década quando vimos o seu reaparecimento, ele está fadado a juntar-se com o gênero cômico (desde a deliciosa sátira de Chicago até a comédia mais banal como em Mamma Mia!) ou o romântico. Aqueles que quebraram isso normalmente encontraram maior resistência com o público, o que aparentemente também aconteceu com Nine.
8,0
6 comentários:
Gostei de Nine, mas com certeza é inferior a Chicago. Marion e Penélope dominam o filme e a performance de Day-Lewis não é grande coisa. Os números são visualmente mto bonitos e as músicas são ótimas. Vale a pena ver.
http://cinespaco.blogspot.com/
bom filme mas tbm não é nen huma brastemp...massss, vale pela dona cotillard, sublime como Luisa.
Tantas críticas detonando ele, deixei passar...você foi o primeiro que li falando bem do filme.
Abraço
Cristiano, eu realmente recomendo o filme. Nem que seja para que você tire suas próprias conclusões!
Não acho "Nine" nenhuma maravilha e sou um daqueles que sempre disse que esse filme nunca ia ser o evento do ano... Por isso, me irrita demais ver todo mundo falando mal desse filme. Para mim, a expectativa influenciou demais a opinião das pessoas. Afinal, "Nine" tem alguns atrativos - e o maior deles é a bela atuação de Marion Cotillard (essa sim que tinha que ter sido indicada ao Oscar).
Essa é uma das poucas vezes em que não concordo contigo, Tiago. Ainda bem! hehe!
Acho "Nine" sem desenvolvimento narrativo nenhum, principalmente se tratando dos personagens que são drásticamente inexistentes. O filme sobrevive de números musicais o que o torna ainda menor, pois nem esses se salvam, com raríssimas situações.
Abraços!
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