
Começar este post com uma possível apresentação da série Glee não se faz necessário. É um dos maiores sucessos da televisão americana, e os leitores do Cinefilando pode não ser unânime em relação ao seriado, mas certamente sabem do que se trata. Pulando as partes das contextualizações, e finalmente terminada a primeira temporada, o nosso blog resolveu fazer um especial sobre a série, comentando seus altos e baixos.
Infelizmente, contrariando diversos fãs da série (e acreditem, eu tenho dificuldades em assumir, mas vou tomar como meu guilty pleasure: eu também sou um), Glee não é uma série homogênea – pelo menos de acordo com o que vimos em sua primeira temporada.
Eu acho fascinante como os musicais encontraram no público jovem um alvo. No cinema, além da versão do chatíssimo High School Musical, o filme Hairspray foi o primeiro a sacar o potencial deste público. Na Broadway, alguns musicais com apelo maior aos jovens também encontraram uma maneira de mostrar que a qualidade neste contexto é possível, como a peça Hairspray, Spring Awakening, In the Heights e um mais ‘antigo’, Rent!. E eis que o Disney Channel, em um apelo mais infantil, apostou em alguns seriados como High School Musical e Hannah Montana, encontrando facilmente um público. No entanto, estes dois seriados encontram-se muito mais contextualizado aos americanos, com uma rotina escolar muito típica, com um hábito musical em escolas bem grande, e com algumas coisas absurdamente distantes de nós como o hábito de corais, competições musicais e cheerleaders em suas escolas.
E, então, Glee.
O que diferencia Glee dos outros seriados citados é apostar com honestidade no lado problemático da adolescência – e não no mundinho faz de conta. Chega com temas não tão leves, como gravidez, racismo, homossexualidade, xenofobia, e escala um time de fracassados, cada um com seu estereótipo. Entra aqui uma característica marcante do diretor e roteirista Ryan Murphy: relevar o que há de mais grosseiro e desagradável nas relações humanas. E então um grupo de pessoas que não estão ao certo sequer se se gostam ou não, encontra nesta diversidade um acolhimento.
Junto com isso, o trabalho musical de Glee é extremamente competente e agradável. Apostar em um seriado um tanto mais maduro e musical ao mesmo tempo não é uma tarefa fácil de se bancar, por mais que pareça. Os números musicais, em sua maioria, aparecem contextualizados em cenas de ensaio e apresentação do coral, no entanto, diversas cenas trazem um número musical como explosão de um sentimento do personagem, perdendo seu caráter de show e caindo em um número musical genuíno. A escolha das músicas se dá de maneira soberba, não apenas na mistura de gêneros, mas especialmente fazendo das músicas excelentes alegorias para o sentido da série e dos personagens. Basta ver como uma música tão pop e reconhecível como Poker Face ganha um sentido completamente diferente. Glee é inteligente ao, em sua miscelânea, compreender o elo que temos com determinadas músicas: elas encontram um sentido muito maior quando se encontram, de alguma maneira, com nossas experiências. Glee mostra que a vida tem trilha sonora.
Outra parte interessante são as homenagens e referências. Inicialmente, podemos citar algumas pessoas. Madonna, Lady Gaga e Olivia Newton-John. Alguns participantes da série também não deixam de ser uma clara homenagem a Broadway, como o convite a Jonathan Groff para participar da segunda parte da primeira temporada (ele era par de Lea Michele – a Rachel do elenco fixo – no musical Spring Awakening), e as participações de Kristen Chenoweth e Idina Menzel (inimigas, mas que juntas eram protagonista do elenco original de Wicked, um musical de grande sucesso ainda em cartaz, com outras atrizes). Além disso, trazer músicas – de maior ou menor fama – de musicais clássicos é interessante, pois passa para uma nova geração – ainda mais a estrangeira – a chance de ter contato com algo que eles não teriam. Nisso, já vimos versões de Defying Gravity (Wicked), Mr. Cellophane (Chicago), And I’m Telling You (Dreamgirls), Maybe This Time (Cabaret), Don’t Rain on my Parade (Funny Girl), Somewhere Over the Rainbow (O Mágico de Oz), entre outras.
Mas nem tudo é elogio.
O elenco de Glee é irregular. Por um lado, o elenco feminino dá show, inclusive as jovens, sendo encabeçado por Lea Michelle, Jane Lynch, Dianna Agron, Jassalyn Gilsig (mal aproveitada) e Jayma Mays. Por outro lado, o elenco masculino é um tanto perdido. Só consigo destacar Chris Colfer e Kevin McHaley; o restante se divide em evidência entre aqueles que sabem cantar, aqueles que sabem dançar e aqueles que atuam. Calhou do protagonista adolescente da série, Cory Monteith, não saber nem atuar, nem dançar e cantar de maneira muito limitada. Matthew Morrison, como o professor Will (principal ‘adulto’ do seriado) também se destaca apenas enquanto cantor.
O texto é outro ponto delicado, e aqui surge algo muito característico de Ryan Murphy. Enquanto o mote principal da série é ousado e interessante, os episódios não são regulares. Há alguns marcantes e de texto realmente inspirado (especialmente o season finale Journey), assim como há alguns completamente avulsos e desinteressantes. Ryan Murphy sofre um tanto com a perda de foco e de linearidade, a sua série de maior sucesso até então, Nip/Tuck, padeceu muito com isso: cada personagem era um outro, completamente diferente, se comparado à temporada ou até mesmo à alguns episódios anteriores. Em Glee isso já aconteceu algumas vezes; alguns episódios são completamente sem trama (destaco o famigerado The Power of Madonna, que por homenagear a diva pop foi sua maior audiência), enquanto em diversos outros os personagens simplesmente agem de maneira incoerente com aquilo que são. O uso excessivo de estereótipos para os personagens também não cai bem algumas vezes, e dos dramas individuais, creio que apenas Finn, Artie e Kurt seguiram com suas subtramas de maneira interessante. O resto é um tanto distante e inconstante demais.
Apesar de gostar muito de Idina Menzel, o rumo que seu personagem toma também demonstra um tanto do que disse anteriormente. A reviravolta que envolve seu personagem foi completamente absurda, injustificável e sem sentido... Dispensável mesmo. Aliás, todas as tramas dos professores precisam ser repensadas. Começou bem com a crise do casamento de Will e Terri, o TOC de Jemma e a vilania de Sue. Mas as tramas amorosas que se seguiram não são nada interessantes, Terri e Jemma ficaram completamente deslocadas no final da primeira temporada e Sue, apesar de bem caricata, é a única que seguiu em um nível interessante.
Quando eu já tinha me conformado com o texto da série, e entendido que ele nunca seria surpreendente, somos presenteados com o final da temporada, especialmente o episódio 20 (Theatricality) e 22 (Journey), com textos sensacionais e extremamente tocantes.
O Globo de Ouro de melhor comédia para Glee pode não ter sido completamente justo, mas levava em consideração a ousadia, inovação e aceitação da série. Não pode ser considerado um prêmio errado. Já o SAG de melhor elenco foi absurdo, especialmente quando concorria com Modern Family. Mas os fãs podem torcer, pois Glee é presença certa nas próximas premiações, inclusive o Emmy. E tanto Lea Michele quanto Jane Lynch merecem ser lembradas.
Em minha última análise, assumo Glee – pelo menos nesta sua primeira temporada – como meu guilty pleasure mesmo. É muito fácil de localizar os momentos mais piegas e burocráticos de sua trama. No entanto, a honestidade da sinopse, a ousadia da estrutura e a delícia de sua trilha sonora (apreciada por diversos não-fãs da série, que acabam gostando das ‘versões alternativas’) me deixam vidrado diante da tela. A identificação com algumas situações ou personagens também não é difícil. Honestamente? Apesar de ser uma delícia, a adolescência de todo mundo é ou foi problemática em algum momento.
Melhores episódios: Pilot (01), Preggers (04), Sectionals (13), Hell-O (14), Laryngitis (18) Theatricality (20) e Journey (22, season finale).
Piores episódios: The Rhodes Not Taken (05), Ballad (10), The Power of Madonna (15), Home (16) e Bad Reputation (17).
Nota geral do seriado: 7,0.
5 comentários:
infelizmente não acompanhei glee, mas falam muito bem, deve ser interessante pelo menos!
olha ti,eu amo glee, e nao o considero um guilty pleasure...acho a serie SENSACIONAL e sou apaixonada por mathew morrison e cory monteith...
pra mim, ao lado de mad men e the tudors, é o melhor que há em séries
bjusssssss
Nossa, Vivi, não consegui gostar desse seriado, sério!
ah então Dani, depende muito de cada um né? Mas amei, achei ótima:D
Meu episódio preferido, de todos, foi "Dream On", que demonstrou um amadurecimento incrível. Também adorei "Wheels". São eles os meus prediletos da temporada.
Acho uma série bem falha mesmo, mas que me agradou bastante no salgo geral. Daria 7.5 (ou talvez 8.0)
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