
Sabe aqueles poucos momentos da sua vida que você não sabe explicar? Pois é. Já não se trata de ser a melhor peça do ano ou não (mas pelo jeito não tem como não ser). Aconteceu aquelas raras sensações de ser tocado de maneira absoluta, e de sentir que talvez isso nunca se repita com outro texto. Na verdade, é mesmo a sensação de não ter clara noção do que se passa. In On It, até eu ter um pouco mais de clareza sobre meus sentimentos, provavelmente se transformou na peça teatral mais marcante, visceral e bela que eu já vi.
Falando em texto, jamais vi algo tão brilhante escrito para o teatro. Não é apenas uma trama bela ou triste, simplesmente não tem como explicar. São três situações diferentes (uma peça de teatro sendo ensaiada, divagações dos dois atores - um deles autor da peça - sobre o que é encenado e uma crise conjugal entre ambos, que são um casal) que são absurdamente ligadas em cada detalhe. Não há um ponto ou outro em que as coisas se encontram e mostram-se misturadas. É a estranha sensação de se ver inúmeras histórias vendo apenas uma, ver dois atores fazendo diversos personagens que, na realidade, não passam de apenas um ou dois. Quando ouvia falar sobre In On It os comentários giravam em torno de "Inexplicável!" "Impressionante!" "Difícil de traduzir em palavras." "Ela se propõe a algo que cada um entende como lhe convém". Pois bem, concordo. É o que tenta passar vaga idéia do que vemos.
É uma peça que, por incrível que pareça, andava em falta: um excelente texto sustentado por atuações soberbas e cenografia simples que serve como complementar, e não como algo em si. Ainda que existam mais exemplos assim, In On It faz isso de uma maneira que eu jamais vi antes: ela é uma peça desconstruída, pede para o espectador invadi-la e fazer com ela o que bem entender. E nisso ela se transforma no que poderia haver de mais invasivo. O canadense Daniel MacIvor cria um texto incriável, por mais que esta palavra não exista. Enrique Diaz dirige a peça da maneira que mais parece coerente: sem excessos, nada pode desviar a atenção daquele texto e das brilhantes atuações de Emílio de Mello e Fernando Eiras (esqueçam de perguntar quem se sai melhor, não há como definir).
Eu estava com vergonha do Louis, quem me convidou indiretamente para vê-la, e escondi que queria me manter chorando desde a sublime cena na qual eles refletem um acidente de carro. Segurei a onda e deixei tudo cair de novo no impressionante final. Fiquei tentando me distrair quando saí do teatro, tentando reduzir a peça em coisas óbvias como texto e atuação. Cheguei em casa e desmoronei.
Fiquei horas pensando sem saber o que me tocara. Não era só a belíssima trama principal. Não era só aquilo que me identifiquei com a peça. De alguma maneira estranha era desconforto, pois parte do que me provocou imensamente da proposta da peça é algo que podemos pensar em nossa vida e nosso cotidiano: pegue o que já existe, o que é ou foi fato, o que é imutável, e faça com isso o que bem entender. Quem disse que é fixo? Viaje em seus tempos e sua realidade, não enquanto memória, mas enquanto construção. Mas é possível?
Estou com essa sensação de mal estar até agora. Um dos sentimentos mais complexos e belos que algo vindo da arte já me proporcionou. Sem falar em momentos poéticos puros, passagens e passagens. Como aquilo me fez querer dizer tantas coisas. Mas não cabe aqui entrar neste assunto.
E, pra terminar, uma frase de assombroso poder que vai me torturar até algum dia eu entender o que ela pode significar pra mim. Aliás, já assombrou a tentativa de entender o que ela pode significar para aquela trama. "Algumas coisas terminam, outras simplesmente param."
In On It se transforma, assim, em uma experiência ativa, que nós fazemos. Esquisitíssimo. O canadense MacIvor só pode ser louco, surreal, esquizofrênico provavelmente. É isso que seu texto é. E isso lhe dá uma beleza inatingível.
In On It
Teatro Teatro Eva Herz, Livraria Cultura - Conjunto Nacional
De sexta à domingo, até 27 de Junho
www.inonit.wordpress.com
6 comentários:
Nooooooooossa! Já não basta eu ter inveja de quem tem cinema na sua cidade, agora tbm tenho que invejar quem tem teatro dessa qualidade?! rs!
Texto extremamente animador, Tiago. Um dia, quem sabe, tenho o prazer de confirmar suas palavras.
abraços!
De que cidade você é?
Esta é a típica peça que merecia um tour nacional.
Uma pena peças assim não passarem por aqui. Lamentável.
"Eu estava com vergonha do Louis, quem me convidou indiretamente para vê-la, e escondi que queria me manter chorando desde a sublime cena na qual eles refletem um acidente de carro. Segurei a onda e deixei tudo cair de novo no impressionante final. Fiquei tentando me distrair quando saí do teatro, tentando reduzir a peça em coisas óbvias como texto e atuação. Cheguei em casa e desmoronei."
/\
Que fofo!!! ^^
"Eu estava com vergonha do Louis, quem me convidou indiretamente para vê-la, e escondi que queria me manter chorando desde a sublime cena na qual eles refletem um acidente de carro. Segurei a onda e deixei tudo cair de novo no impressionante final. Fiquei tentando me distrair quando saí do teatro, tentando reduzir a peça em coisas óbvias como texto e atuação. Cheguei em casa e desmoronei."
/\
Que fofo!!! ^^
Nha... ^^
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