segunda-feira, 10 de maio de 2010

Agora nos Cinemas: Tudo Pode Dar Certo


Sem querer começar com reclamações, mas foi uma perda o sentido de qualquer coisa que sirva ter se transformado em tudo pode dar certo não apenas no título nacional do projeto mas em quase todas as legendas quando a expressão era utilizada no filme. Alguns filmes, comédias românticas bem construídas, costumam nos passar a sensação de querer se apaixonar no instante em que sair da sala. Pois bem, somando o delicioso roteiro de Woody Allen com parte da minha vida pessoal, eu saí do cinema com um sorriso de orelha a orelha com alegria de talvez encarar o "o que servir" em qualquer aspecto da minha vida.

Allen, que já deveria aparecer como sinônimo de paranóia no dicionário, surge de volta aquilo que faz de melhor: comédias desesperadas por dilacerar as ilusões humanas relacionadas a qualquer aspecto de nossas relações pessoais. Mas aqui o autor volta às antigas, sem grandes inovações como no excelente Vicky Cristina Barcelona. É bem visível que o roteiro estava escrito há mais de 30 anos. Boris Yellnikoff é um senhor, judeu, físico, quase indicado ao Nobel, divorciado que mora em uma espelunca qualquer por Nova Iorque. Com comentários sempre ácidos, sarcásticos e cruéis sobre tudo que o cerca, ele vê sua vida completamente transformada quando Melody Celestine (!) surge lhe pedindo comida e abrigo. Todos os conflitos são estabelecidos em minutos, com a obviedade visual e textual que convém: ele gênio, ela estúpida; ele velho, ela jovem; ele hipocondríaco e ela em shows de rock. Mas a aposta inesperada do autor vai em apostar na semelhança óbvia que une todos os seres humanos: estamos no mesmo barco, independente de como entendemos a viagem.

É a partir desta premissa que a relação entre os dois e os demais personagens secundários vai se estabelecendo. Inclusive, o filme aborda diferentes personagens e conflitos de maneira nunca menos deliciosa. Seguindo, claro, a premissa o que der certo todo o tempo, independente de ser citada diretamente ou não. E assim, relações absurdas se fincam de maneira natural e quase esperada - por pior choque de mentalidades que elas estabeleçam. É um flerte com o absurdo que transforma-se em uma honestidade perdida em nosso mundo atual.

O filme é uma delícia toda vez que Evan Rachel Wood e Patrícia Clarkson estão em cena. Infelizmente, Larry David exagera um pouco a mão no tratamento de seu personagem. Enquanto diretor, Woody tem sua assinatura visível e basicamente intransponível: a aposta no texto/atuação, visual básico, agilidade, e na trilha sonora usada com inteligência (veja como nas cenas do início a ópera é utilizada como um indício da prepotência e esquizofrenia de Boris: aquela música é a que ele está usando para sua própria cena).

O que marca, no final das contas, é algo não muito habitual para o autor/diretor: certo otimismo, apesar de tudo. Algo como se a conformidade pudesse, no final das contas, ser a iniciadora de uma felicidade, que ainda passageira, traz paz à existência. O filme é, o tempo todo, conformista e extremamente honesto em relação a isso. Honestamente, há tempos não vejo um tema tão bem trabalhado em um texto como aqui. O que quer que funcione, encare. Compreenda. Viva. Em tempos de ambições e frustrações, isso é uma lição considerável. Vinda daquele que deve ser um dos seres mais pessimistas do mundo.

8,0

6 comentários:

vivi ferreira disse...

acho que whatever works dá pau em vicky cristina barcelona..e ainda tem o HENRY CAVILL:P

Tiago disse...

Henry Cavill meio que desperdiçado no nada. Mas de fato, é ele surgir em cena e minha atenção também é desperdiçada no nada dele rs.


Mas ainda fico com Vicky Cristina Barcelona, que vou morrer defendendo ser um dos melhores do Allen, e na certa o melhor nos últimos 10 ~15 anos.

Wally disse...

Ainda não vi. Mas todo Woody Allen é bem-vindo. E eu adoro Evan Rachel Wood.

Marconi disse...

Woody é sempre 10!
http://cinespaco.blogspot.com/

Mayara Bastos disse...

Woody é Woody! Quero muito ver, gosto das comédias dele!!!! rsrsrs. ;)

S. disse...

Não me conformo com esse título traduzido. É praticamente uma outra moral que eles quiseram passar com isso! Além de dar uma cara de comédia romântica água com açúcar com 'Tudo pode dar certo'.. mas enfim, o filme é ótimo, Woody Allen é sempre ótimo!

cinemasemfirulas.blogspot.com