segunda-feira, 12 de abril de 2010

Como se fala um amor [ou o que (des)aprendemos com o cinema ou o maior problema do cinema]


Já faz um tempo que eu queria te escrever um som. Mentira. Já faz um tempo que não durmo, isso é mais verdade. Já faz um tempo que queria escrever sobre isso no blog, talvez uma de minhas postagens mais pessoais e catárticas - e justamente hoje, que eu sequer esperava ou queria escrever isso, é que me vi sentado aqui, em mais uma noite insone. Seja como for, a mensagem não tem destinatário além de mim.

Mentira, de novo.

Clementine entra completamente insegura no apartamento de Joel e é obrigada a levar facadas ruidosas dos motivos que o levaram a apagá-la de sua memória. Dentre tantas, seu charme vulgar de sexo blasé e inseguro, e ela tenta pedir uma bebida pra dizer que estava tudo bem. Não estava. Ela sai, enfim, andando pelo corredor - ir embora - ao que Joel finalmente percebe que não pode deixar aquilo se repetir. Ele já não sabia mais dele, apagou; ela sabia um pouco mais dela por uma fita de memórias retorcidas pelo ressentimento. Apagar é mesmo bem difícil. A segura cambaleante no meio do corredor, ao que Clementine é obrigada a lembrá-lo como ele a odiava, os motivos, e como nada deveria dar certo. Ela precisava dizer isso para si, na realidade. E a resposta que se obtém é um sorriso confuso mas honesto com o valor de 'tudo bem, eu não ligo'.

Cedo ou tarde nos pegamos pensando na morte de Winslet, Kaufman, Gondry e Brion.

Luisa quebra, por fim, o resto de esperança que tinha ao ver que um de seus momentos mais queridos e íntimos com seu incorrigível marido não passava de uma arma de sedução dele, usada repetidamente com fins outros e baratos. Como o contido é sua obrigação, ela solta uma lágrima sobre como sua vida ganhava ares de mentira. Mas os musicais irrompem a realidade quando ela, por si, não permitiria. Que bom. Vemos uma luva surgir por entre uma cortina. Luisa, a contida, surge de espartilho em um show de strip, num cabaré imaginário ao qual nos submetemos por algumas vezes. Você quer meu amor? Tome tudo. Não restará nada de mim. Explodimos.

Também queremos matar Marion.

E então, Hoje não vai ter treino não. Nem treino, nem ensaio. E Antônio, pobre moço que sufocava a sonhadora Karina, resolve buscar o mundo para ela, por todos os caminhos que se poderia imaginar. Devo confessar que Adriana e João são um casal dos mais cruéis: ela fez seu belo crime em livro, ele o transformou em peça; não contentes, fez-se o filme. E Antônio termina num hospício para, um dia, viajar no tempo de novo. Antônio do passado encontra Antônio louco, que o ensina enfim como driblar seu destino. Ah, Autran. Antônio volta ao passado e consegue mudar seu destino: guarda sua vida a escrever por e para Karina. Eita moça difícil essa. O tempo de Antônio já não é longe pra trás, longe só que a gota. Distância, o que quer que ela signifique, é sempre mais longe que a gota, ainda que ali.

Prendam os Falcãos, por favor.

Deprimido há tempos pelo fim de seu casamento, Paul volta a casa de seu pai, dividida com seu irmão mais novo, por não ter muito onde ir. Tenta o suicídio e tudo. Uma noite e o resto é mais forte, Paul não resiste e liga para Anna. O que surge aí é simplesmente um dos momentos mais belos que já vi no cinema. Ele, deitado de cueca na cama, a encontra também de roupas íntimas, maquiagem borrada - e nunca sabemos a razão das lágrimas. Encaixe aqui o que quiser, querendo ou não fugir do óbvio. Saiba minha linda, que os amores mais brilhantes são apagados pelo sol do dia a dia; tive uma idéia que pode parecer absurda, mas acho melhor terminarmos antes da raiva. Não, eu te beijo e isso passa, você sabe bem. Eu prefiro as tempestades do inevitável à sua idéia destrutiva. Antes do ódio, antes dos golpes, você diz para terminarmos; mas eu te abraço, e isso passa, você sabe bem. Não se livre de mim assim. Os singelos refrões alternados entre um e outro transforma a música simples em um diálogo profundo e inconclusivo.

Adicionemos Honoré à lista de morte.

Não se fala o amor; se sente. Isso sempre foi óbvio, ainda que se relute. Nada é mais encantador que uma paixão, aquela que nos faz acordar e dormir e acordar de novo e dormir de novo por querer que os dias passem mais rápido graças ao desejo que o dia não acabe nunca. O tempo se suspende do óbvio, vira pessoal, fazemos o que queremos. Estamos ao lado. Entregamos a graça do cotidiano ao outro, que nos invade a vida - uma invasão permitida, desejada, secreta. Se a paixão é correspondida, vira o estar junto. Veja bem, não é nem o relacionamento nem o amor ainda. Estar junto na noite de frio, no cinema, na rua. Arrepiamos pelo efêmero e etéreo roçar de braços e coxas, assim sem querer, com um mínimo contato. Como se os beijos não existissem. Se se segue, aí vai virando o resto. E se forma o amor, sem nunca sabermos quando ou como, e onde ele vai. Ele vai, e perdemos o controle que nunca tivemos.

O sol do dia a dia é sujo? Qual é? Compartilhar, dividir, construir. Não é sujeira. Há limites, há dificuldades, há cansaço. É sujeira quando vira banal, é sujeira quando se quer sempre o inatingível mais só por ser inatingível e mais. Torne-se atingível, pega-se o mais; e perde-se o que havia antes. Que bica. A monotonia vai de cada um, de seus secretos desejos e expectativas. Só sabemos que isso também não foi compartilhado quando nos vemos dando tchau. Aí é fato, a guerra de ilusões e desilusões seguem às estrelas e ao asfalto, o tempo que for necessário, para dizer que não é assim. Não? É sim. Não depende de um. Nunca dependeu. E aí o que se diz do egoísmo? Ah, como as grandes lições ficam para o fim. A piada é nunca saber quando e o que acabou ou não. Acabam algumas coisas, mas a vida segue, e o dom do homem é de ser fluxo por falta de escolha.

Enfia-se o carinho onde? Em si. É seu. É meu, devo assumir primeira pessoa novamente. Não se muda o que viveu. Se muda o que vive, e é do presente ser efêmero. O ruim disso é ser só uma ilusão, o presente pode se arrastar interminavelmente. E o futuro só existe para aqueles que ousam querer pensar nele. Merda, sou um desses. É sem ponto, vive-se melhor ignorando o futuro. Ele não existe por si, de num jocoso cansaço ele também só existe por si. Não é necessário o jogo de críticas e acusações - belamente pulamos esta parte. Já fazemos suficiente contra nós. E aí isso vira um pequeno muro que se tenta construir, orgulhando e debochando de nosso egoísmo, de nossa entrega, de nossos sonhos. Somos ricos ao sermos complexos, somos belos ao sermos nós. Cada um na sua própria bolha de ar, diria a menina. Que saco.

O problema do cinema não é sua discussão sobre o que é arte ou não. Isso é insuportável é só tem mínima graça quando argumentado por quem entende muito. Esqueçam a briga alternativo ou blockbuster. O problema do cinema é quando ele consegue seu maior trunfo: ser extremamente humano. Ele se dá o direito a isso, enquanto nos damos o direito de entendermos como pessoal, afinal, também somos humanos e achamos isso como justificativa sensata para nos entregarmos às outras humanidades. O que é de outrém vira nosso, o que é além torna-se aqui, o que é francês agora é só meu. Nos pegamos agradecendo secretamente aos outros quando nos vemos chorando no cinema. Como ele é lindo. Não. A beleza está em nós. E são poucas as coisas que atingem nossa beleza. Isso é sensualidade. A sensualidade do óbvio que foge de si, de um ato qualquer que nos atinge. A sensualidade de Duris e Preiss, ao piano.

O verdadeiro nome deste post deveria ser a você. Melhor. A você que não lerá isso. Deixamos de nos ler - em grandes partes. Mas algumas coisas nunca nos lemos. Não é agora que isso muda. É agora que isso intensifica. A vida é sarcástica. Somos fortes quando dobramos isso. Esse sarcasmo me doeu. Não é só seu, é meu também. Problemas e culpas só minhas. Que fique cada um com que é de si, e se segue.


Sais-tu ma belle que les amours
Les plus brillantes ternissent
Le sale soleil du jour le jour
Les soumet au suplice

J'ai une idée inattaquable
Pour éviter l'insupportable

Avant la haine, avant les coups
De sifflet ou de fouet
Avant la peine et le dégout
Brisons-là s'il te plait

Mais je t'embrasse et ça passe
Tu vois bien
On s'débarrasse pas de moi comme ça

Tu croyais pouvoir t'en sortir,
En me quittant sur l'air
Du grand amour qui doit mourir
Mais vois-tu je préfère
Les tempêtes de l'inéluctable
A ta petite idée minable

Avant la haine, avant les coups
De sifflet ou de fouet
Avant la peine et le dégout
Brisons-là dis-tu

Mais tu m'embrasses et ça passe
Je vois bien
On s'débarrasse pas de toi comme ça

Je pourrais t'éviter le pire

Mais le meilleur est à venir

Avant la haine, avant les coups
De sifflet ou de fouet
Avant la peine et le dégout

Brisons-là s'il te plait

Mais je t'embrasse et ça passe
Tu vois bien

Avant la haine, avant les coups
De sifflet ou de fouet
Avant la peine et le dégout

Brisons-là dis-tu

Mais tu m'embrasses et ça passe
Je vois bien

On s'débarrasse pas de toi comme ça

On s'débarrasse pas de toi comme ça


Assinado eu.

4 comentários:

Alyson Xyzyx disse...

Ah! Também acho que o cinema nos cativa primeiro por aquilo que mais nos torna semelhante a ele: Ser Humano. Bacana o texto! Eu Li sim, viu! rs! Abraços!

diasdechuva disse...

lindo tiaguitoooooooo
me emocionei total:D

otxjunior disse...

Eu aaaamo Dans Paris!!!

Alex Pizziolo disse...

Simplesmente o melhor texto que eu já li num blog.
Estava aqui sem ter o que fazer e o Cinefilando me veio à cabeça, há tempos que não vinha aqui.
Li tudinho e compreendi cada palavra dita, acho.

Até logo, Ti, espero que retorne um dia para a blogsfera.