quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Não se compra, se vive.


Caros amigos,

Vivi está finalmente em merecidas férias, e creio que foi aproveitar e recarregar as baterias. O Arthur está no blog, mas ainda não resolvemos nossos problemas tecnológicos hehehehehe. Eu também estou aproveitando merecidas férias, mas isso implica em ter mais tempo para fazer coisas que gosto, como atualizar o blog. No final do ano passado deixei uma mensagem de ano novo um tanto pessimista, que combinava com o tom daquele ano para mim, seguindo o filme Stanno Tutti Bene. Achei que era questão de justiça com 2009 pensar em algo mais otimista.

Creio que não foi um ano fácil para nenhum de nós 3. Para mim foi um ano de muito esforço e muita luta, me formei em Psicologia e já engatilhei um mestrado. Vivi também caminhava para os finalmentes de seu curso, com bastante estágios. Arthur, teve de tomar algumas decisões importantes, mas creio - e desejo - que ele respira melhores ares também. Acho que 2009 vai deixar um tanto de saudades. Algumas despedias, amigos com caixas de mudança, alguns tropeços pelo caminho - espero ter consertado -, mas especialmente, a noção de que posso me esforçar, me torturar e exigir o melhor de mim.

Por outro lado, estou cada vez mais forte em minha fé no homem comum, no homem de erros, na gente. E a crença na noção de que podemos, em pequenas ações, melhorar a vida. Não, não é maravilhosa, mas acontece, se sucede, e a gente aprende a se virar. Precisamos nos aprimorar na arte de "virar os outros", não de maneira intrusiva, normativa, superior. Mas que ajude, dê a mão, e esteja lá para.

Não é só Clarence que precisa ganhar suas asas.


Um grande abraço, e o desejo de um 2010 nada óbvio, positivamente. Sucesso, paz e muito a se festejar!

domingo, 27 de dezembro de 2009

Especial: 2009 em notas do Cinefilando!


Pois bem, está terminando o ano, a década, estamos submersos naquelas épocas de sentimento aflorados, crianças correndo e as filas de estacionamento provando que ainda dominarão o mundo.

Vivi tirou uma breve férias, mais que merecida. Eu estou de férias, o que implica em estar com tempo livre de sobra para atualizar o blog - tarefa que agora faço.

Começaremos a partir de agora uma série especial sobre os melhores filmes do ano, da década, de tudo. Quero deixar claro, que esta primeira lista não se trata, necessariamente, da lista dos melhores de 2009. Nós do Cinefilando temos a política de que cada filme é comentado apenas uma vez, por um dos editores. As notas dadas são de acordo com aquele que escreveu a crítica - alguns filmes eu amo e Vivi não gosta, alguns filmes ela ama e eu detesto, e calha de ser a nota de quem escreveu. Vide Benjamin Button, no topo da lista, que comigo receberia nota bem inferior. Daqui há alguns dias publicaremos a lista dos melhores do ano, na qual é considerada a nota média. Também será publicada a lista dos melhores do ano individuais, e, daqui há muito tempo (porque os ânimos precisam se acalmar e os filmes precisam ser vistos), pensaremos nos melhores da década.

Este post é exclusivamente para mostrar qual nota cada filme recebeu em nosso blog, como expliquei anteriormente. É um bom termômetro para se ter uma idéia de quais serão considerados os melhores do ano - mas garanto que surpresas aparecerão. Está em ordem de notas, e, em caso de empate, em ordem alfabética.


Coco Antes de Chanel - 10,0
O Curioso Caso de Benjamin Button - 10,0
O Leitor - 10,0
Inimigos Públicos - 10,0
Piratas do Rock - 10,0
A Criança - 9,5
O Fantástico Sr. Raposo - 9,5
Milk - A Voz da Igualdade - 9,5
Bastardos Inglórios - 9,0
Os Fantasmas de Scrooge - 9,0
A Partida - 9,0
Quem Quer Ser Um Milionário? - 9,0
Se Beber, Não Case - 9,0
Uma Noite de Amor e Música - 9,0
Dúvida - 8,75
Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada - 8,5
Guerra ao Terror - 8,5
Pagando Bem, Que Mal Tem? 8,5
Anticristo - 8,0
Férias Frustradas de Verão - 8,0
Há Tanto Tempo que te Amo - 8,0
Julie e Julia - 8,0
A Onda - 8,0
A Princesa e o Sapo - 8,0
Surpresas de Amor - 8,0
A Troca - 8,0
Avatar - 7,5
Distrito 9 - 7,5
O Lutador - 7,5
This is It - 7,5
X-Men Origens: Wolverine - 7,5
Aconteceu em Woodstock - 7,0
Anjos e Demônios - 7,0
O Casamento de Rachel - 7,0
Do Começo ao Fim - 7,0
Lua Nova - 7,0
A Proposta - 7,0
Rede de Mentiras - 7,0
Austrália - 6,5
A Festa da Menina Morta - 6,5
Foi Apenas Um Sonho - 6,5
UP! - Altas Aventuras - 6,5
2012 - 6,0
(500) Dias com Ela - 6,0
Os Abraços Partidos - 6,0
Divã - 6,0
A Era do Gelo 3 - A Era dos Dinossauros - 6,0
Harry Potter e o Enigma do Príncipe - 6,0
Noivas em Guerra - 6,0
Amantes - 5,5 (Tiago, Agora nos Cinemas) e 8,0 (Vivi, Agora em DVD)
O Desinformante - 5,5
Transformers 2: A Vingança dos Derrotados - 5,0
9 - A Salvação - 4,0
Atividade Paranormal - 4,0
Watchmen - 3,0

Ufa! Algumas notas estão com pequenas modificações do que foi publicado, porque são notas minhas sobre as quais mudei de opinião. Creio que há notas que a Vivi gostaria de atualizar, mas enfim, fica como um resumo do ano. 55 filmes, pulando os comentários de filmes de outros anos... Uma média legal, mas que pretendemos aumentar ano que vem. Ah, e tenho a leve sensação de que fomos bonzinhos demais com diversos filmes, especialmente em um ano fraquinho como este... Por outro lado, talvez por ser fraco, o que surgia de bom era lucro, então dávamos uma nota boa... Vai saber rs...


Por enquanto, feliz 2010!


Abraços!

Cinefilando

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Agoras nos cinemas: O encanto e beleza de "A princesa e o sapo"




Primeiramente peço desculpas pela demora desta resenha...o fato é que eu moro no interior de Santa Catarina e os filmes por aqui que saem nos cinemas são na maioria blockbusters quando estes não demoram a vir. Foi o que ocorreu com "A princesa e o sapo" longa que, pela minha grande emoção volta com a animação 2-d no bom e velho estilo da Disney (musical, com personagens carismáticos e uma princesa no papel principal). Pois bem, vamos aos fatos.


O filme é dirigido pelos meus diretores favoritos da Disney, John Musker e Ron Clements, que pra quem não sabe são praticamente os grandes responsáveis pela volta das animações ao sucesso na década de 90 (o estopim foi com "A pequena sereia" dirigido por eles em 89). Juntamente claro de outros nomes como Jefrey Katzenberg, Glen Keane e Don Hahn. Ron e John dirigiram "As peripecias do ratinho detetive", "A pequena sereia", "Aladdin" (pra mim sua melhor obra e um dos melhores longas da disney), "Hercules" e "Planeta do Tesouro" que, embora tenha sido um fracasso na época não pode ser descontado nos diretores que estavam trabalhando de modo experimental por exigencia da direção da Disney na época. Por haver este tipo de experimentação os filmes 2-d acabaram perdendo força e sendo deixados de lado pelos filmes 3-d da Pixar. Apenas em 2007, quando "Encantada" trouxe de volta a magia das animações classicas e tornou-se grande sucesso de bilheteria, é que o foco voltou para as animações tradicionais novamente.


"A princesa e o sapo" é um longa que vem sendo desenvolvido há um bom tempo, se não me engano desde 2003 e passou algumas transformações tanto no seu roteiro como na produção...por exemplo- o longa inicialmente iria se chamar "A princesa-sapo" e depois acabaram sendo incluidos "e" "o" devido mudanças no roteiro. Mudou-se o vilão pelas criticas referentes ao uso de voodoo na trama. Mudou-se o compositor- antes era Alan Menken (responsavel pelos maiores sucessos da Disney como "A bela e a Fera", "Pequena Sereia" entre outros e vencedor de 8 oscars) que foi substituido por Randy Newman (queridinho de John Lasseter, compositor de "Toy Story" e afins) o que causou certo burburinho inicialmente (mas que depois foi justificado já que Alan foi chamado para compor a trilha de "Rapunzel" e Randy tem formação de Jazz) e até mesmo a cor do principe Naveen noto que foi um pouco escurecida (inicialmente ele era mais branco mas devido reclamações deixaram-o mais moreno). O filme é o primeiro longa a ter uma princesa negra, o que é algo muito bacana, mas segue a mesma formula de um conto de fadas. Mocinha com objetivos + romance + vilão + musicas.


Agora o que eu achei extremamente positivo foi a superação de algumas barreiras que a Disney sempre criou para si mesma nos longas- lembro-me da polemica da morte de um personagem em Pocahontas, houve grande discussão sobre o assunto. No longa, há sim a morte de um dos personagens principais e de modo bem dramático, certeiro, e isso me deixou feliz...a historia basicamente se passa no inicio do século XX em Nova Orleans que era o berço do jazz...Tiana a protagonista é uma jovem que trabalha muito duro e sonha em ter seu próprio restaurante. Ela acaba transformando-se em uma sapinha quando beija Naveen um principe da Maldonia que vem para Nova Orleans para aplicar o golpe do baú (já que ele está falido) e é abordado por um feiticeiro de voodoo que o transforma em sapo (e o assistente dele em principe) para ganhar o dinheiro. Tiana é confundida por uma princesa e acaba se metendo na enrrascada e juntos eles partem para o pantano à procura de Mama Oddie, uma feiticeira voodoo que pode desfazer o feitiço. No meio do caminho eles conheceram personagens bacanérrimos como Louis, um jacaré que sonha em se tornar humano para ficar tocando jazz e Ray um vagalume adorável que é apaixonado por uma estrela. O problema é que Dr Facilier (o feiticeiro) vai atras deles pois precisa do sangue do principe transformado em sapo para continuar seu plano- e a partir daí o longa toma um rumo parecido com a historia de "Anastasia" animação 2-d da fox de 1997.


O filme é um show, divertido, inteligente, com bons personagens, mas não encanta como os outros classicos e penso que isso se deve muito ao fato de que as musicas não são tão marcantes. O que é uma vergonha. Randy um compositor bacanérrimo que já compos hits como "You can leave you hat on" (de Nove semana e meia de Amor) não conseguir fazer musicas que grudem nos ouvidos? Ey percebo muita dificuldade dele conseguir compos uma balada (o mais proximo que ele se aproxima de uma é em "My belle evangeline" mas ainda esta longe de ser um classico) por isso a canção de maior destaque é "When we´re human" por ter a melodia mais redondinha. E o pior de tudo é o score dele, que mais parece uma compilação de suas trilhas anteriores como "Toy story" e "O amor não tem regras" e sdoa nada original. Acredito que, infelizmente houve um pouco de preguiça por parte dele.


No final das contas é um filme muito bacana, que merece ser visto pelo menos pela sua arte, e principalmente pela volta da tradição da animação. Comparando com outros longas que vi no ano, é melhor que "Ponyo", "Tá chovendo hamburguer" e "Up" mas não tão bom quanto "Coraline" e "Fantastico Sr Raposo". De certo modo, viva a volta dos desenhos musicais!!!!


Nota: 8,0



Gente, eu Vivi vou estar me ausentando porque vou passar o Reveillon na praia então desde já eu desejo um feliz natal e ano novo para todos, e acredito que daqui uma ou duas semanas o Tiaguito vai estar revelando a nossa lista de melhores do ano.


Mil bjokas a todos,


Vivi Ferreira



segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Agora nos Cinemas: Aconteceu em Woodstock


Se você não viveu os anos de 68 e 69, e nunca se interessou a fundo pela contracultura ou ao menos pelo rock, de fato não tem muita obrigação de saber a fundo sobre o que foi o festival de Woodstock. Mas é sim uma vergonha não ter nem vaga idéia do que se trata. Pois bem, essas informações documentais, por tópico, sobre quantas pessoas, quais bandas, quais dias, você acha em qualquer Wikipedia da vida. Já uma análise histórica sobre a importância do festival requer uma pesquisa pouco mais atenciosa - mas o belo documentário Woodstock, de 1970 já fez isso para você. Agora, 40 anos depois do festival, o audacioso diretor Ang Lee vem com uma visão bem singular sobre o festival: para além de tudo aquilo que sabemos, havia a pacata vida de uma comunidade, de uma família e de um garoto que foram completamente transformadas com o tal festival. Perde-se os dados alardeados, a grandiosidade, e caímos em um cotidiano sóbrio e monótono. Aqui mora o charme de Aconteceu em Woodstock, mesmo que para isso, more aqui também seu túmulo.

Esta é a primeira empreitada americana de Lee após o grande sucesso de O Segredo de Brokeback Mountain, em um delicado e impactante estudo sobre a repressão ao amor homossexual entre dois vaqueiros americanos. O filme se baseia na auto-biografia de Elliot Tiber (Demetri Martin), jovem que vivia com seus pais na cidade interiorana de Bethel, comandando um falido hotel de estrada. Diretor de uma pequena associação dos comerciantes da cidade, Elliot se preocupava muito com a falta de movimento para aquelas bandas, e resolveu tentar acolher um show musical que acabara de ser expulso e cancelado na cidade de Woodstock. Como esta trama termina quase todo mundo sabe. Ang Lee traz aquilo que ninguém sabe: este rapaz foi hostilizado por toda a cidade por enchê-la com hippies que 'roubariam tudo', foi hostilizado também por sua família - de início - que acreditou que ele estava virando hippie, e por fim foi um dos responsáveis pelo show mais famoso e importante da história - mesmo sendo um garoto tímido, quadrado e extremamente reprimido.

Esta visão micro é o que define o filme de Lee. Prova máxima disso é o fato de vermos o palco do show apenas duas ou três vezes ao longo da projeção - todas elas há uma grande distância. Também ouvimos pouco das músicas. Lee está interessado em retratar a vida das pessoas que ali estavam, o que faziam para além do festival - centrando-se, claro, em Elliot que encontrará no festival uma das maneiras de assumir pro mundo quem ele era e o que queria para seu futuro. Esta abordagem do filme me agradou imensamente - ainda mais com a coragem de mostrar que Woodstock foi, acima de tudo, um negócio - arquitetado, arranjado e extremamente calculado por um ou dois hippies-não-tão-hippies e alguns vários colarinhos brancos. No entanto esta mesma abordagem afastou a crítica do filme, fazendo com que ele fosse extremamente mal recebido.

Outro motivo de reclamações - com as quais devo concordar - é o fato dos personagens serem unidimensionais. Verdade seja dita, o personagem bem trabalhado é mesmo Elliot - o resto ou é um bando de caipira ignorante, ou são hippies ou são os não-hippies-não-caipiras, como os policiais. Isso faz com que o elenco, algumas vezes, tenha mesmo pouco a fazer. O maior exemplo disso é o personagem Billy, que nada é além do jovem que retorna surtado do Vietnã, um desperdício imenso de um dos atores mais talentosos da leva mais 'nova' de Hollywood: Emile Hirsh. Paul Dano, outro exemplo da mesma safra, não chega a ser um desperdício, uma vez que faz apenas uma participação especial. Demetri Martin é uma revelação agradável, defende bem seu Billy, assim como a um tanto misteriosa personagem Vilma - uma travesti masculinizada e séria - revela uma precisa atuação de Liev Schreiber. Mas o filme mesmo tem dois donos: Imelda Staunton e especialmente Henry Goodman brilham no papel dos pais de Billy, em dois típicos caipiras de meia idade extremamente perdidos diante dos fatos que são construídos em suas frentes.

Contando com uma execução técnica de extremo bom gosto, ressalto ainda a bela fotografia de Eric Gautier (responsável pela fantástica fotografia de Na Natureza Selvagem) e a interessante direção de arte de Peter Rogness - e de como ele usa os figurantes do filme para esta finalidade - algo que de fato me conquistou.

Aconteceu em Woodstock não é, nem pretende ser, algum estudo ou filme documental sobre o evento. Ele revela que para além disso, havia inúmeras vidas que seriam mudadas de maneira intensa graças ao evento - e tenta narrar pelo menos uma delas. É como o próprio Elliot diz, em certo momento do filme "meus problemas são tão menores diante disso tudo", sem ter noção de quão interessante é. Afinal, que não reste dúvidas: nossos problemas também são menores diante tantas coisas que nos cercam. Nem por isso são irrelevantes. Ang Lee foi muito mais divertido, e muito mais humano do que eu esperava - e do que ele mostrou no seu recente Desejo e Perigo. Mas, de fato, não se revela o mestre que apresentou em Brokeback.

Nota: 7,0

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Avatar


De volta para 1993, quando eu tinha apenas seis anos, ainda não sabia - nem tinha como - muito sobre cinema. O que sabia, na época, eram propagandas e propagandas de um filme chamado O Parque dos Dinossauros, com o qual eu ficaria cara a cara com tiranossauros, apatossauros, enfim, algumas de minhas paixões infantis. Logo na estréia, lá estavam eu, meu pai, meu tio e meus primos no cine Bristol, o maior até então de Ribeirão Preto. Quando eles chegam no parque e se deparam com os brontossauros comendo a copa das árvores talvez tenha sido um dos momentos mais encantadores que já tive no cinema. Quando o tiranossauro persegue alucinadamente o carro, certamente foi um dos momentos mais intensos que já vivi em um cinema. Não se enganem, 16 anos depois, é este o espírito que o filme Avatar reencontra, não se fazendo necessárias - nem lógicas - as tentativas de comparação do filme com Star Wars, Matrix, 2001 ou até mesmo Titanic, último trabalho do diretor. No entanto, encantar-se com um novo mundo, sem ter mais aquele espírito infantil, é algo que exige certo trabalho e suspensão da crítica.

Jake Sully (Sam Worthington) é um ex-fuzileiro americano, paraplégico, que perde o irmão gêmeo pouco tempo antes que este embarcasse para Pandora - uma lua. O avatar de seu irmão - um clone híbrido de humano e Na'vi (humanóides habitantes de Pandora) - que exigiu altos investimentos - poderia ser usado pelo seu irmão devido ao fato de que ambos dividem o mesmo genoma. Para não desperdiçar o dinheiro investido no tal clone, resolvem que Jake entrará para a missão em Pandora. Missão esta desenvolvida pela cientista (Sigourney Weaver), que estuda dedicadamente a cultura dos Na'vis. Por outro lado, Jake é comandado a entregar todos os detalhes sobre os Na'vis para Parker (Giovanni Ribisi) e Coronel Miles (Stephen Lang, um dos meus maiores problemas com o filme), pois estes pretendem dominar um riquíssimo mineral do solo de Pandora. O conflito de Jake se inicia quando ele é adotado por uma tribo Na'vi para aprender seus costumes, e cada vez mais apaixonado por Pandora e pela Na'vi Neytiri (Zoe Saldana), Jake se vê diante uma guerra entre humanos e Na'vis por Pandora.

A trama é uma mistura de Pocahontas com Dança com Lobos em uma versão alienígena. Sim, toda e qualquer comparação feita entre os Na'vis e os povos indígenas não são em vão, é a estrutura que Cameron adota para falar de questões como o desenvolvimento irracional da civilização humana e a necessidade de atenção para a natureza. Sendo assim, Avatar se transforma em uma ágil alegoria tanto para o passado - a luta entre povos brancos e indígenas - quanto para o presente e suas questões ambientais. Já deu para imaginar que sutileza não é o forte do filme. Ainda assim, seu roteiro está longe de ser ruim como falaram alguns críticos. Falha em diversos momentos, especialmente na construção de seus vilões - nada críveis ou interessantes - e falha especialmente no ritmo em sua primeira uma hora e meia de exibição. Eu sei que isso diante a longa duração de quase três horas do filme pode não parecer nada, mas o grande tempo gasto com a apresentação de todo um novo mundo é um tanto cansativo, apesar de visualmente fascinante.

Mas não era exatamente a trama que todos aguardavam neste filme. Vem sendo divulgado há quase dois anos que Avatar seria uma revolução na indústria cinematográfica, pois seria feito com tecnologia tal que nunca ninguém teria visto nada igual. Sejamos justos, o ponto que James Cameron chega com sua tecnologia de captura de movimentos de fato jamais foi vista no cinema. Recentemente me encantei em como esta tecnologia estava avançando no filme Os Fantasmas de Scrooge, mas em Avatar ela chega em um ponto inimaginável: é mais fácil tentar crer que os Na'vis são atores maquiados do que seres digitalizados. A captura de expressões faciais e até mesmo dos movimentos dos olhos é impressionante. Parece que a única pedra no sapato ainda para a tecnologia é domar os cabelos, algo que não chega a chamar tanto a atenção neste filme. Já o tão comentado 3D do filme é interessante, encanta, mas não se faz completamente necessário: a tecnologia de Avatar me pareceu estar muito além do 3D, e perceptível ainda que em 2D. Mas não vi o filme em 2D para dar meu veredito final. O som do filme, assim como sua fotografia, seguem de maneira perfeita na ambientação deste novo mundo: apesar de saber que era tudo digital, é impossível não acreditar na realidade de Pandora. Inclusive, creio que a direção de arte do filme deveria ser reconhecida.

É até curioso que, ainda com este espetáculo visual, a trilha sonora de James Horner consiga chamar tanto a atenção para si. Ela até começa tímida, com temas de aventura na descoberta de Pandora. Mas Horner compôs um tema para a guerra sci-fi que chega a impressionar. Realmente considero o melhor trabalho do ano. O elenco está no geral muito bem, melhor do que eu esperava. O único que deixa a desejar é mesmo Stephen Lang, com seu vilão Maxteel.

Ainda que com todo este vislumbre visual e tecnológico, Avatar sofre com uma falta que não consigo nomear. Gostei de sua trama, me envolvi com seus personagens, me impressionei com sua tecnologia, mas não saí do cinema arrebatado. Saí em busca de algo que não me agradara, que ficara no ar. Partes um roteiro que enfraquece em alguns momentos cruciais, parte de vilões absurdamente chatos e mal construídos que fizeram parte da guerra parecer sem sentido ou chata. Partes por constatar que Avatar foi o grande filme-evento do ano, mas pouco tinha a dizer. Sim, estão lá as alegorias e os avisos sociais, incluindo até uma deselegante menção ao detestável presidente Bush ('vamos combater o terror com o terror') mas tudo é um tanto simplista demais.

Talvez, fosse eu com meus seis anos de idade, Avatar faria por mim o que O Parque dos Dinossauros fez, por isso foi encantador ver uma criança desconhecida do meu lado saltar toda vez que um bicho voador pulava na tela. Mas passado boa parte do encantamento por bichos gigantescos, fica-se a certeza que Avatar mostra muito e diz pouco, não tendo em momento algum o impacto dramático que as tramas de O Senhor dos Anéis ou Star Wars tinham, sem ter também nenhuma filosofia tecnológica como presente em Matrix ou (como alguém pôde citá-lo em uma linha que terminaria em Avatar?) 2001 - Uma Odisséia No Espaço. Avatar é um grande passo - e ambicioso - na história do cinema, jamais será esquecido, mesmo quando for superado em sua tecnologia. James Cameron revoluciona aquilo que ele se propôs a revolucionar. Mas na arte de enganar e manipular os sentimentos de sua platéia, Avatar ainda está uns bons passos atrás de Titanic, que por sinal ainda se mantém impressionante em seus efeitos visuais, 12 anos depois.

Inclusive, creio que Avatar só bate o recorde de bilheteria de Titanic se a diferença de preço dos cinemas em 3D ajudar muito, pois é um filme que não tem apelo para todo e qualquer público. Já nas premiações, Avatar seguirá de forma mais tímida, mas muito mais devido à sua temática e seu estilo do que por merecimento. Esperem uma carreira de Oscars técnicos, que ele merece sem sombra de dúvidas, e ainda torço por sua trilha sonora. Mas não sei se é algo que a Academia escolheria para coroar com melhor filme - ainda que seja indicado a filme e direção.

Nota: 7,5

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

E então os indicados ao Globo de Ouro 2010.


Novamente estávamos todos lá reunidos, rezando para nossa senhora da conexão permitir que a manhã seguisse como esperado. Novamente o site da CNN internacional deu show, sendo melhor que um dos links oficiais. Vamos direto para os indicados e depois para nossos comentários pessoais.

Melhor Filme, Drama
Avatar
The Hurt Locker
Inglourious Basterds
Precious
Up in the Air

Melhor Filme Comédia ou Musical
500 Days of Summer
The Hangover
It’s Complicated
Julie & Julia
Nine

Atriz, Drama
Emily Blunt, The Young Victoria
Sandra Bullock, The Blind Side
Helen Mirren, The Last Station
Carey Mulligan, An Education
Gabby Sidibe, Precious

Ator, Drama
Jeff Bridges, Crazy Heart
George Clooney, Up in the Air
Colin Firth, A Single Man
Morgan Freeman, Invictus
Tobey Maguire, Brothers


Ator, Comédia
Matt Damon, The Informant
Daniel Day Lewis, Nine
Robert Downey Jr., Sherlock Holmes
Joe Gordon Levitt, 500 Days of Summer
Michael Stuhlbarg, A Serious Man

Atriz, Comédia
Sandra Bullock, The Proposal
Marion Cotillard, Nine
Julia Roberts, Duplicity
Meryl Streep, Julie & Julia
Meryl Streep, It’s Complicated

Diretor
Kathryn Bigelow, The Hurt Locker
James Cameron, Avatar
Clint Eastwood, Invictus
Jason Reitman, Up in the Air
Quentin Tarantino, Inglourious Basterds

Ator Coadjuvante
Woody Harrelson, The Messenger
Christoph Waltz, Inglorious Basterds
Matt Damon, Invictus
Christopher Plummer, The Last Station
Stanley Tucci, The Lovely Bones

Atriz Coadjuvante
Penélope Cruz, Nine
Mo'Nique, Precious
Julianne Moore, A Single Man
Vera Farmiga, Up in the Air
Anna Kendrick, Up in the Air


Roteiro
Neill Blomkampt & Terri Tatchell, District 9
Mark Boal, The Hurt Locker
Nancy Meyers, It’s Complicated
Jason Reitman & Sheldon Turner, Up in the Air
Quentin Tarantino, Inglourious Basterds

Trilha Sonora Original
Michael Giacchino, Up
Marvin Hamlisch, The Informant
James Horner, Avatar
Abel Krozeniowski, A Single Man
Karen O. and Carter Burwell, Where the Wild Things Are

Filme Estrangeiro
Baria
Broken Embraces
The Maid
Un Prophete
The White Ribbon

Canção Original
“Cinema Italiano,” Nine
“I Want To Come Home,” Everybody’s Fine
“I See You,” Avatar
“The Weary Kind,” Crazy Heart
“Winter,” Brothers

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Comentários do Tiago:

A lista deste ano do Globo de Ouro se seguiu menos absurda e mais óbvia do que foi no ano passado. Engraçado, em um ano fraco, sem grandes favoritos, o Globo de Ouro ganhou uma importância maior do que costuma ter, sendo mais do que um termômetro, desta vez é quase um álibi para se indicar ou se excluir alguns filmes.

Surpresas desagradáveis? Claro. Se ano passado a indicação de Tom Cruise por Trovão Tropical deixou todo mundo perdido, o que dizer de Julia Roberts indicada por Duplicidade? E claro, algumas surpresas surgiram, coo Emily Blunt por Young Victoria e Tobey Maguire por Brothers. O que realmente me surpreendeu foi que o massacre em cima de The Lovely Bones seguiu, e sequer Saoirse foi indicada.

Por outro lado, o massacre em cima de Nine foi muito bem maquiado: 5 indicações, o segundo melhor indicado, perdendo apenas para Up in the Air com 6. Não se iludam: a ausência de Nine em roteiro e direção indica que rumo o filme tomará no Oscar, e sua indicação ao Oscar de Melhor Filme está sim em risco, a menos que sua cotação suba um pouquinho ao final do embargo da crítica (que, por sinal, é hoje).

As categorias de Animação e Filme Estrangeiro, pelo visto, foram as mais fáceis de se prever, junto com Drama e Ator Coadjuvante e Atriz Coadjuvante. Se há duas categorias que surpreenderam, e muito, foram Roteiro - com uma inesperada e desbaratinada indicação para It's Complicated - e Trilha Sonora, que não se encabulou em retirar favoritos e indicar desconhecidos - mas como assim a trilha do péssimo O Desinformante indicada? E Invictus chegar a direção e não a filme foi mais uma prova de que votaram no Eastwood só por ele ser queridinho. E ainda não sei exatamente o que achar da esnobada em cima de A Serious Man.

Definitivamente confirmaram o sucesso de Up in the Air e The Hurt Locker, continuaram a preocupante - e recentíssima - gelada num dos queridinhos do ano, Precious. Mostraram, de vez, qual é o lugar de Nine e ajudaram - e muito - Inglorious Basterds ganhar um fôlego a mais.

Os vencedores estão ficando um pouco óbvios, mas isso fica para outro tópico.

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Comentários da Vivi:

O GG sempre tem suas supresas, e não seria neste ano que iriam faltar as suas...Julia Roberts em comedia/musical e Tobery Maguire em Brothers é um tanto inesperado, assim como as esnobadas de "An Education", Alexandre Desplat e Jim Parsons.

Em termos gerais, mais uma vez concluimos algumas coisas com estranheza, mas foi muito gostoso ver as indicações de Avatar, que incluem melhor Filme e direção. Emily Blunt também foi uma maravilhosa surpresa, e a moça cada vez se consolida mais como uma aposta a ser pensada para o Oscar de melhor atriz. E Abbie Cornish é uma aposta à ser esquecida, já que Bright Star foi simplesmente ignorado pelos votantes.

Agora, sobre as trilhas...já ouvi as 5 indicadas e posso dizer que os únicos grandes merecedores de estarem ali são James Horner e Abel Korzeniowski. Adoro Giachinno, mas acho a trilha de Star Trek muito melhor que a de Up, e o indicaria por aquela. Mas Up e o tipo de trilha que os americanos adoram, então já esperava-se por isso. Carter Burwell fez um ótimo trabalho em "Onde vivem os monstros" mas outros nomes como Nick Cave (com a trilha de "A estrada"), Hans Zimmer (com "Sherlock Holmes") e Elliot Goldenthal (com "Inimigos Publicos"), poderiam estar em seu lugar. O maior erro dos cinco, na verdade é a indicação da trilha fraquissima de Marvin Hamlisch por O desinformante". Está claro que ele só está sendo indicado por ser quem ele é, e por ter voltado depois de um longo tempo sem compor scores. No final das contas quem perdeu com tudo isso foi Alexandre Desplat, que com suas 7 lindas trilhas (principalmente a do "Fantastico Sr Raposo") não conseguiu uma indicação. Um sinal muito ruim, contando que Desplat sempre foi muito querido pelos votantes do GG.

Mas analisando friamente esta categoria, sabemos que a possibilidade de ter os cinco indicados ao gg serem indicados ao Oscar é praticamente impossivel, já que ano passado, por exemplo, dos 5 indicados à trilha, 3 dos 5 foram indicados (Desplat, Rahman e Newton Howard). E é até interessante observar que esta pra mim foi a pior lista de indicados à trilhas em anos...
resta pelo menos esperar que eles façam justiça e deem o Globo de Ouro pro James Horner.

Na parte de melhor canção, algo que já era esperado- o GG ama indicar famosos, e neste ano batem cartão U2 (com a bela "winter" de brothers), Paul Mc Cartney (com a canção titulo de everybody´s fine), juntamente com James Horner (com a maravilhosa "I will see you" cantada por Leona Lewis- de Avatar), uma das canções inéditas de Nine ("Cinema italiano") e a talvez favorita canção de Crazy Heart ("The weary kind"). Agora o fato é que, os cinco indicados à esta categoria tem que torcer para não ganharem o GG, pois há uma "maldição" na categoria há anos onde quem vence nem indicado ao oscar é heheheh. É esperar pra ver.

No geral, GG mediano, e que consolida de vez alguns filmes que ainda se tinha alguma duvida (Avatar, Bastardos Inglorios) e consagra os ja queridinhos (Up in the Air, The Hurt Locker).

Agora é esperar pra ver os vencedores.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Cinema Musical: A Trilha de "O fantastico Sr Raposo"

Já que o Tiaguito falou do filme, eu resolvi postar sobre a trilha do filme...

Não é necessário falar de novo que 2009 está sendo muito proveitoso para o rancês Alexandre Desplat - sete trilhas, um Hollywood Awards, dois World Soundtrack Awards, uma indicação ao Grammy... depois do belo score de Lua Nova, Desplat se reinventa e, voltando a fazer a música para uma animação (algo que não fazia há muito tempo) ele é o responsável pela trilha sonora mais fofa e original do ano. O CD com a trilha sonora da animação reúne uma variada seleção de canções de intérpretes como The Beach Boys, Rolling Stones e Burl Ives, além de duas composições do também francês Georges Delerue, com a partitura de Desplat - à qual se limitarão os comentários.

O Fantástico Sr. Raposo, baseado no clássico infantil de Ronld Dahl, é dirigido por Wes Anderson e conta a historia do Sr. Raposo e sua família, onde o mesmo terá de deixar de roubar os alimentos dos vizinhos humanos para viver de “modo digno”, como salienta a sua esposa. A fábula infantil, mais do que nunca destinada também a adultos, por si só necessita de um score marcante e diferente, e Desplat, mais uma vez, consegue compor uma belíssima e divertidíssima trilha.

A primeira faixa do compositor que aparece no disco, “Mr Fox in the Fields”, tem o som do banjo em uma melodia brincalhona, bem lúdica e infantil, em um tom de infância delicioso. Já “Boggis, Bunce and Bean” (nome dos vilões do filme) traz instrumentos de sopro vinculados a cordas, e tem um ritmo ágil, sendo muito interessante. “Jimmy Squirrel and Co.” é provavelmente a faixa mais adorável desta trilha, onde a viola e a flauta se misturam, dando uma sonoridade linda e meiga.

“High-Speed French Train” é linda demais, tão doce como pé de moleque, e lembra muito muito o ar lúdico infantil, uma inocência e curiosidade que soa em uma belíssima melodia! “Whack-Bat Majorette” é divertidíssima e soa como som de banda marcial, que eleva ainda mais o tom diferente que aqui existe. “Beans Secret Cider Cellar” tem um ar de guerra mas também de molecagem, onde existe uma certa referência aos spaghetti-westerns da década de 1960, uma melodia meio Ennio Morricone para crianças.
“Kristofferson's Theme” é linda, onde o piano é belíssimo e natural. E “Just Another Dead Rat in a Garbage Pail (Behind a Chinese Restaurant)” é ótima, começando com um ritmo mais ágil e vai se transformando, onde o final é um pouco mais dramático. “Great Harrowsford Square” é como uma faixa de preparação para “Stunt Expo 2004”, o grande trunfo da trilha, onde há a orquestra, o som da banda marcial e as vozes do coral, adoráveis, de uma beleza e pureza de dar gosto a qualquer um. “Canis Lupus” tem a melodia principal na bela voz de uma criança, de modo muito angelical e terno.
Quando penso que este incrível compositor francês já atingiu o patamar máximo de qualidade, eis que ele vem com mais uma surpresa. A trilha de Fantastic Mr. Fox, então, é como o filme: simplesmente fantástica!

Nota: 10,0

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Agora nos Cinemas: o delicioso 'O Fantástico Sr. Raposo'


Uma de minhas crônicas favoritas do Veríssimo é a que diz respeito do lugarzinho - um cantinho tão nosso, que temos o prazer de descobrí-lo, virarmos fregueses, e compartilhá-los apenas com aqueles que gostamos muito, para não desgastá-lo. Tenho esta sensação de lugarzinho constantemente, com diversas coisas que me despertam tremendo carinho, e que viram 'minhas'. Pois bem, acho que descobri um filminho.

Inicialmente devo dizer que não sou um grande fã do Wes Anderson. Acho o seu senso de humor válido, mas muito mal utilizado. Suas constantes odes à imbecilidade e frustração humanas são sempre honestas, mas também sempre deslocadas e exageradas. A palavra que define o diretor é mesmo 'excêntrico', mas normalmente ele me irrita e me cansa. Acho seus contextos quase sempre impraticáveis, irreais e cansativos. O símbolo máximo disso para mim é A Vida Submarina de Steve Zissou, sendo que nem tentei dar uma chance a Viagem a Darjeeling. Fui conferir O Fantástico Sr. Raposo por dois motivos: primeiro por ter sido uma das animações mais elogiadas do ano - curiosamente um dos anos mais fortes que já tivemos na categoria. Segundo porque ele entrou em um circuito mais que limitado: apenas três cinemas na cidade de São Paulo - tanto que pensei se tratar de uma pré-estreia. Algo que me soou muito estranho, pois apesar de nitidamente não ser para crianças, o sucesso de crítica e a fama de Anderson no circuito alternativo já deveriam ser motivos suficientes para um crédito maior ao filme.

Que grata surpresa! Com a quebra direta e instantânea do real promovido pela animação, e por se tratar de 'raposas', o mundo de Anderson se tornou de alguma forma mais crível, e mais acessível. Como reclamar de absurdos se estamos falando de raposas - e se são os absurdos que tornam aqueles animais tão humanos? Um mundo lúdico brilhantemente construído para falar dos fracassos humanos.

Feito em um visível stop-motion, que ao contrário do recente sucesso Coraline e o Mundo Secreto, não tenta disfarçar ou tecnologizar em momento algum sua origem, Raposo conta com um visual extremamente simples, e por isso fascinante. É uma família frustrada - e um tanto desajustada: o pai que encontra na aventura uma fuga para sua vida insossa, o filho em uma crise de identidade tremenda (que renderá uma gag visual no final do filme es-pe-ta-cu-lar), a mãe que acata incomodada as decisões do chefe da família. A trama de fundo é simples: Raposo está cansado de sua vida comum e volta à atividade que ele exercera e abandonara por 12 anos, se tornando novamente ladrão de aves das fazendas vizinhas. Ao dar o grande golpe de sua vida nos três maiores fazendeiros da vizinhança, Raposo, sua família e seus vizinhos passam a ser violentamente perseguido pelos fazendeiros.

Imagino que tenha ficado apenas o pano de fundo do livro do Dahl - que confesso não conhecer. Mas dá para saber isso por identificar muito do estilo de Anderson no filme, e também por uma espécie de bom senso em imaginar que Dahl, autor do livro A Fantástica Fábrica de Chocolates não se aprofundaria em temas como homossexualidade, frustrações, conflitos entre pais e filhos em um livro extremamente infantil. Creio que o filme se distancie muito da obra original, tornando-se verdadeira e exclusivamente adulto, mas não sei se isso foi um grande defeito.

A trama adulta encontra um contraponto fascinante com a trilha de Alexandre Desplat. O compositor tem aqui um dos melhores momentos de sua carreira até agora, e cria uma trilha que segue o lúdico do contexto do filme, criando faixas incríveis e agradáveis - destacando Boggies, Bunce and Beans, Beans Secret Cider Cellar (uma releitura lúdica e honrosa dos temas de westerns), Kristofferson's Theme e Great Harrowsford Square. Inclusive, ressalto como é interessante ver que três das melhores trilhas do ano foram feitas para animações, sendo além desta do Desplat a do Giacchino para Up! - Altas Aventuras e a de Bruno Coulais para Coraline e o Mundo Secreto.

Na parte técnica, destaco também a quente fotografia de Tristan Oliver, acostumado com animações stop-motion (fotografou também o curta e o longa Wallace e Groomit e Fuga das Galinhas), e o excelente trabalho de dublagem original que tive a chance de ver. Todos, Clooney, Streep, Schwartzman, Murray, Gambom, Dafoe e Wilson estão muito bem em seus personagens.

Contando já com a minha torcida ferrenha para que o filme tenha sucesso nas premiações de fim de ano - e força ele já ganhou, uma vez que apareceu em várias listas de melhores filmes do ano dos críticos americanos - creio ter encontrado aqui um de meus favoritos na categoria, e se tratando em um ano atipicamente fraco no cinema, encontro aqui um dos meus favoritos do ano, assim como eu disse anteriormente sobre Os Fantasmas de Scrooge. Só gostaria de saber o que houve nos bastidores do filme que fez quase toda equipe sair brigada com Anderson - conhecido por ser intragável.

Vejam, ainda que para isso vocês precisem baixar o filme!

Nota: 9,0

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Mega Preview Especial: Nine


Pois é, as indicações do Satelitte, do NBR, e tantas listas de críticos dos EUA deram a largada oficial à corrida ao Ouro 2010. O Cinefilando, como já disse anteriormente, fará cobertura de tudo na medida do possível, inclusive terça que vem terá as indicações ao Globo de Ouro. Junto com isso, claro, um dos filmes que está se tornando um dos assuntos do ano - por bem ou por mal.


Nine é a nova adaptação cinematográfica para um musical da Broadway feita pelo diretor Rob Marshall, responsável pelo premiado e oscarizado Chicago. No elenco, nada menos do que 7 Oscars e muito mais que uma dúzia de indicações quando juntamos os nomes Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Nicole Kidman, Penélope Cruz, Sophia Loren, Judi Dench, Kate Hudson e uma inesperada participação (elogiada) de Stacy Ferguson - a - neste filme sedutoramente corpulenta - Fergie, do grupo Black Eyed Peas. Mas, obviamente, tudo isso vocês já sabiam.

Neste elenco de ouro, localizando quem é quem: Guido Contini (Daniel Day-Lewis) é um diretor de cinema atormentado com seu novo filme. Nessas tormentas, é recordado que a primeira vez que ele entrou em contato com o universo feminino foi com Saraghine (Fergie), uma prostituta italiana, aos nove anos. Não entendendo as mulheres desde então, esta é a idade que sua maturidade atingiu (daí o título Nine), sob a super proteção de sua mãe (Sophia Loren). Hoje é casado com Louisa (Marion Cotillard), sua ressentida esposa que sabe ser abandonada, seja por causa dos filmes ou de outras mulheres. Claudia (Nicole Kidman) é sua musa extrema, estrela de seus filmes, que se envolve de maneira inesperada com o diretor. Também trabalha em seus filmes Lilane (Judi Dench), sua figurinista. Carla (Penélope Cruz) é sua amante, um tanto sem classe; e, por fim, Stephanie (Kate Hudson) é uma jornalista de moda admiradora do diretor.



Muitos devem saber minha paixão por musicais, e minha admiração profunda para quem tenta tocar neste desafio nos dias atuais. Sim, Moulin Rouge, Chicago, e por que não Dançando no Escuro (ah... já sei porque não: von Trier não é Hollywood) abriram as portas, anos atrás. Mas os musicais não tem o apelo comercial e muitas vezes também não tem o apelo dramático para serem filmes fáceis de realizarem. Mas parece que adaptar obras da Broadway está em alta. Nesta década, Nine é curiosamente o décimo filme da safra, sendo que alguns foram grandes sucesso de bilheteria (Mamma Mia! bateu Titanic em vendas de ingresso no Reino Unido, e foi um dos dvds mais vendidos do ano passado), outros conquistaram novos públicos, como os adolescentes que amaram Hairspray. Alguns misturaram seu estilo original com o estilo autoral de alguns diretores - vide o que Tim Burton fez com Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet. Um foi um sucesso nas premiações - Chicago. E alguns tantos ficaram no meio do caminho exclusivo ao público que lhe convém (Os Produtores, O Fantasma da Ópera, Dreamgirls, Rent! - Os Boêmios). Se você está cansado desta safra, sugiro que não vá ao cinema vê-los, pois não pára por aí. Já anunciaram a realização de Miss Saigon, Spring Awakening, Follies, Company, um distante mas confirmado Wicked e as fofocas sempre nebulosas em torno de Sunset Boulevard e Les Miserables.


Mas, falando de Nine, ele é um musical que estreou em 1982 na Broadway, cujo texto é responsabilidade de Arthur Kopit e Mario Fratti, músicas e letras de Maury Yeston, inspirado no filme 8 1/2 de Federico Fellini. Esta última informação é que normalmente dá arrepio nos outros, porém esta não é aprimeira obra de Fellini a resultar num musical da Broadway: Sweet Charity foi inspirado em Noites de Cabíria, virou peça e posteriormente filme dirigido pelo gênio Bob Fosse (em um de seus trabalhos mais fracos, assumo).


Para quem não sabe, tanto 8 1/2 quanto Nine narram um momento específico na vida de Guido Contini (Marcelo Mastroianni no filme de Fellini, Raul Julia na versão de 82, Antonio Banderas na de 2003 e Daniel Day-Lewis no filme), diretor de cinema em colapso criativo que não consegue fazer seu filme. Neste contexto, há a o vai-e-vêm emocional e imaginativo acerca das mulheres de sua vida, sua mãe, sua amante, sua musa, sua mulher, sua confidente, e claro, a prostituta de sua infância. Nesta versão de Rob Marshall, o roteiro ficou a cargo de Michael Kopit e do recentemente falecido Anthony Mighella, diretor dos premiados O Paciente Inglês e Cold Mountain.

Sobre a playlist do filme, todas as canções estão disponíveis no site oficial. No filme as músicas aparecerão na ordem abaixo citada, no cd está previsto ainda uma faixa com o remix de Cinema Italiano, uma nova versão de Unusual Way e uma nova canção de Fergie para o filme.

Overture - Elenco
Guido's Song - Daniel Day-Lewis
A Call from the Vatican - Penélope Cruz
Follies Bergères - Judi Dench
Be Italian - Fergie
My Husband Makes Movies - Marion Cotillard
Cinema Italiano - Kate Hudson
Guarda la Luna - Sophia Loren
Unusual Way - Nicole Kidman
Take it All - Marion Cotillard
I Can't Make this Movie - Daniel Day-Lewis
Finale - Elenco


Lamento informar, mas a peça original, apesar de interessante, é pouco memorável. Há algumas boas canções - mas há tantas outras insuportáveis. Isso parecia contar contra o filme. Engano. Rob Marshall simplesmente cortou mais da metade da peça, deixando apenas 8 canções de um total de 19. Cortou inclusive a música-título do musical. É claro que isso condiz com o estilo do diretor, de fazer musicais mais curtos - que não afastam o grande público. Estamos falando da mente por trás de um filme Chicago que cortou canções como Class, Me and My Baby, I'm My Own Best Friend, fazendo do filme um sucesso alcançável ao público e aos críticos. Ao meu ver, Chicago, o filme, é excelente, mas apenas uma amostra daquilo que o musical é de verdade. Por outro lado, realmente acho que várias canções de Nine mereceram o fim que tiveram. Inclusive a canção-título. Saem tantas, entram 3: Take it All, uma nova canção para Louisa (Marion Cotillard0), mulher de Guido, que resultou num dos momentos mais elogiados do filme. Outra nova canção é Cinema Italiano, para Stephanie, personagem de Kate Hudson, numa vibe um pouco mais pop. Por fim, Guarda la Luna é uma canção de ninar cantada pela Mamma Sophia Loren.



O filme já fez exibições para os votantes de diversas premiações. Recebeu aplausos calorosos da Hollywood Foreign Press Association, dos sócios do sindicato dos atores e do sindicato dos diretores de Hollywood. Após isso o filme recebeu algumas críticas negativas - que furaram o embargo imposto pela Weinstein Co. que exigiu aos críticos que publicassem textos apenas a partir do dia 15 de Dezembro, quando teremos noção de como a crítica o recebeu de fato. E agora o filme começou passando em branco nas listas de melhores do ano dos críticos ao redor do mundo. Parece que num ano pós-crise, filmes mais sóbrios e baratos como Precious, The Hurt Locker, Up in the Air e An Education foram melhores recebidos. Emannuel Lévy já levantou a bola: o filme será bem recebido por um público específico, acostumado com outras linguagens e com o material original.

Mas nunca se sabe. O que garanto é que Nine deve ter considerável sucesso no Globo de Ouro, e nas categorias técnicas do Oscar. Como vocês viram pelas fotos, a beleza plástica do filme é indiscutível.


Volto a falar dele em janeiro, com uma crítica - e torço, de coração, para que ela seja positiva. Grandes expectativas podem trazer grandes sustos, eu sei, mas prefiro ficar na torcida.

Se se interessarem, o site oficial contém trailers e todas as faixas do filme para serem ouvidas:


E há no Orkut uma comunidade sobre o filme que sim, sou o dono rs... Mas o pessoal que lá conversa é muito interessante e educado. Com atualizações constantes:


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Agora nos Cinemas: Os Abraços Partidos


Eu tenho uma relação meio estranha com Almodóvar: apesar de ser indiscutivelmente fã de seus textos - achando que esta é sempre a melhor parte em seus filmes; eu sempre tive dificuldades com ele como diretor. Algumas de suas características principais e mais fortes, tidas como 'assinaturas' normalmente me desagradam, como a sensação de que seus filmes são sempre invasivos, a trilha sonora sempre forte, invasiva e impertinente. Outra coisa curiosa é que alguns de seus filmes mais elogiados (Tudo Sobre Minha Mãe, Volver) não me agradam tanto quanto alguns que são mais rejeitados pela crítica (Má Educação, principalmente). Mas concordo que, de fato, Fale com Ela é sua obra-prima. Foi assim que acreditei que gostaria muito deste novo Os Abraços Partidos, por ele ter sido um tanto mal recebido. Engano meu, o filme fez por merecer a recepção fria.

No entanto, preciso ressaltar que a má qualidade neste filme encontra-se justamente no seu texto, que se perde e se torna extremamente pobre em determinado momento - enquanto que, como diretor, Almodóvar mostra aqui um de seus melhores momentos. Estranho, não? Ele opta por uma direção mais sutil, que constrói belas imagens e diversos ótimos momentos, como a cena bem difundida pelo trailer na qual Lena (Penélope Cruz) narra uma cena para Ernesto (José Luis Gomes), e a cena final. No entanto, a trama que começa de maneira boba se conduz de maneira interessante, fazendo diversas referências e homenagens à arte de se fazer um filme. O enredo gira em torno de Harry Caine (Lluís Homar), um ex-diretor de cinema que após um grave acidente fica cego. É ele quem narra seu romance com Lena, ex garota de programa e mulher de um poderoso empresário, anos antes. O triângulo amoroso não é tão interessante quanto os momentos metalinguísticos.

No entanto, de maneira assustadora, Almodóvar se perde por completo no terceiro ato de seu filme, tornando seu texto não apenas insosso, mas completamente pobre e vexatório. Sem revelar muito da trama, há uma cena que se passa em um restaurante, uma conversa entre Harry, Diego (Tamar Novas, uma agradável descoberta) e Judit (Blanca Portillo) tão desnecessária e tão ruim, na qual tudo que já era óbvio na trama é revelado, se desdobrando ainda em uma conversa no dia seguinte entre Diego e Judit mais vergonhosa que a anterior. Diria que foi digno de Manoel Carlos alguns momentos. Isso, num filme vindo de uma das cabeças mais originais do cinema atual é inaceitável.

O elenco está bem, quem se destaca é mesmo Penélope Cruz, mas que também não justifica nenhuma comoção maior. Tamar Novas é agradável, Blanca Portillo está um pouco over (mas talvez isso se deva muito mais ao roteiro do que a sua atuação). Lluis Homar e José Luis Gomes é o que o filme tem de melhor, depois de Penélope. A fotografia do filme é belíssima, acho que uma das melhores do Almodóvar.

De resto é um filme decepcionante, mas não verdadeiramente ruim - afinal, ser um dos mais fracos de Almodóvar não quer dizer muito. Há diversos bons momentos espalhados pelo filme, mas que num geral não se sustenta. Agora é esperar pelo próximo do diretor.

Nota: 6,0

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Agora em dvd: Amantes

Hoje o cinema está cheio de romances melosos e sem formula, que deixam o espectador sem animo devida a falta de empatia nas histórias contadas. “Amantes” novo filme de James Gray é uma luz no fim do túnel em termos de criatividade, e com um bom elenco, nos traz uma historia inteligente Que remete à celebre frase “Não troque o certo pelo duvidoso”.
O filme começa com o personagem principal Leonard (Joaquin Phoenix, fantástico) tentando o suicídio mais uma vez, desta vez tentando se afogar (mas ele desiste). Chegando em casa, Leonard, o qual descobrimos que é Bipolar, encontra sua mãe (que é interpretada por Isabela Rosselini) que pede que ele se arrume pois os Cohen, amigos da família estão chegando para jantar. No jantar ele conhece Sandra (Vinessa Shaw) jovem que se interessa por ele instantaneamente, embora ele não demonstre tanto interesse por ela. Um pouco depois de conhecer Sandra, ele conhece sua vizinha Michelle (Gwineth Paltrow) que é Hiperativa, e logo já se vê envolvido pela mesma que é problemática e tem caso com um advogado. Assim, Leonard se vê confuso com a entrada de duas mulheres completamente diferentes em sua vida, se auto transformando e descobrindo a força que ele terá de ter para ultrapassar um amor não correspondido, a perda e a redenção.
É inquestionável o grande roteiro escrito por James Gray (“Os donos da noite”) onde ele consegue elaborar aquele que talvez seja o melhor filme de sua carreira até agora. Ambos os três protagonistas são personagens complexos, onde enxergamos desde a sensibilidade de Sandra, até a confusão mental de Michelle, passando pela dor interior de Leonard. É um filme triste, bem feito, e com a capacidade incrível de tocar quem o assiste, onde uma história de amor ( na verdade duas) pode comover de modo sincero sem precisar utilizar-se de clichês para isso.
Grande filme, um dos melhores do ano, que por sua bela história não pode, e nem deve, ser esquecido.


Nota: 8,0