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É tanto a se falar deste filme, que creio preferir ir direto aos fatos (se há como fazer isso). Assistir a Anticristo no cinema é uma experiência ímpar, que duvido alguém já ter passado por sensações semelhantes em um filme. Imagino que muitos já ouviram falar sobre sua polêmica, mas vamos inicialmente à trama. Um casal perde o filho em um triste acidente doméstico enquanto faz sexo. Este evento decorrerá em um difícil processo de luto por ambos, encarado por Ele (os personagens não têm nome) de uma maneira mais racional e fria, enquanto por Ela em um verdadeiro abismo de emoções. Ele é terapeuta, e quer ajudar sua mulher em sua superação enquanto tal, acreditando que a melhor maneira para isso é que ela encare seus medos para se fortificar. É nesse contexto que o casal vai para Éden, uma espécie de casa na floresta que eles possuíam, encarar os demônios do passado.
Já digo, sem pensar duas vezes, o prólogo do filme (dividido em capítulos), que narra o trágico acidente familiar é o melhor momento de Von Trier até aqui. Sim, estou considerando a inenarrável cena I've Seen It All do soberbo Dançando no Escuro e a intensa e também indescritível cena que Grace resolve o destino do pequeno vilarejo de Dogville. Filmado em preto e branco, em câmera lenta, este Prólogo é uma orquestra de cenas, rimas visuais e edição espetacular entre o sexo do casal e as inocentes brincadeiras da criança - de mais ou menos um ou dois anos - que terminará de maneira cruel. É tão orquestrado que faz do trágico, poético; e a sensação final é de embasbacamento e desconforto.
Os dois primeiros capítulos, cuja finalidade é começar a trabalhar tal luto, comandam o espectador para um rumo para, a seguir, nos dois capítulos finais, inverter todo este rumo. Isso para, no fim, um Epílogo vir e tentar subverter tudo novamente.
Mora aqui o segredo do filme: devemos compreender ou sentir uma obra? Ao tentar compreender (algo que inevitavelmente fazemos), buscamos significados em todos os cantos. E Von Trier brinca com isso, recheando o filme com inacabáveis simbologias que permitem infinitas interpretações. Busquei uma racionalização psicológica, psicanalítica, mitológica, religiosa. Se for necessário seguir este caminho, que fique claro: não há - assim como em Dogville - uma única leitura possível e correta. Dentro das inúmeras possibilidades, a tão falada misoginia é mesmo uma - mas não a única nem a principal. Há cenas, e parte do conjunto, que podemos entender como uma apologia anti-feminista. Mas, como compreender então o Epílogo? Pensem na mitologia cristã do Éden, e veja como o Epílogo parece inverter uma situação importante. E, sendo assim, como classificá-lo como misógino? A busca de significado pode, no final das contas, empobrecer o impacto da obra, classificando-a de maneiras reduzidas e marcadas, quadradas. Ainda assim muito mais que uma misoginia, podemos pensar aqui um dos pontos máximos da misantropia de Von Trier, e isso sim me parece mais convincente.
Já a maneira de sentir o filme é mais difícil, e duvido que não menos perturbadora. Sem compreender exatamente muitas coisas, simplesmente absorver as seqüências de Anticristo nos joga no meio de um pesadelo. Aqui entra a tão famosa história de que Von Trier fez este filme enquanto enfrentava uma grave depressão (convenhamos, sem depressão o cara já não é fácil). Aqui entra um parênteses meu: pensem o que sentimos com a atitude de Selma para recuperar seu dinheiro, e com a atitude de Grace em relação à vila. O que Von Trier parece fazer em Anticristo é justamente nos manipular em diferentes graus, para que nós tomamos - enquanto espectadores sofrentes - posições severas e graves em relação aos personagens, para em seguida elas se tornarem insustentáveis, precipitadas, confusas. Não há um momento catártico neste filme. O que há é um constante mal estar e confusão.
Contando ainda com duas atuações memoráveis do casal que carrega sozinho todo o filme nas costas (Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg, que se expõem sem o menor medo), o filme justifica a palma de ouro de melhor atriz em Cannes, parte de sua polêmica, mas não a aversão que ele criou. Sim, ele é de extrema violência - provavelmente uma das mais pesadas que já experimentei em um drama, fazendo dele não recomendável para quase ninguém -, mas o filme não merece ser reduzido a isso. Quem conseguir suportar ao filme verá que Von Trier já teve momentos mais inspirados enquanto roteirista (Dançando no Escuro, Dogville, Manderlay), mas este não deixa de ser mais um trabalho fabuloso dele enquanto diretor. Se o cinema pode ser considerado a fábrica de sonhos, Lars questiona, então, os pesadelos. E o resultado final é sufocante.
Nota: 8,0





