sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Avatar


De volta para 1993, quando eu tinha apenas seis anos, ainda não sabia - nem tinha como - muito sobre cinema. O que sabia, na época, eram propagandas e propagandas de um filme chamado O Parque dos Dinossauros, com o qual eu ficaria cara a cara com tiranossauros, apatossauros, enfim, algumas de minhas paixões infantis. Logo na estréia, lá estavam eu, meu pai, meu tio e meus primos no cine Bristol, o maior até então de Ribeirão Preto. Quando eles chegam no parque e se deparam com os brontossauros comendo a copa das árvores talvez tenha sido um dos momentos mais encantadores que já tive no cinema. Quando o tiranossauro persegue alucinadamente o carro, certamente foi um dos momentos mais intensos que já vivi em um cinema. Não se enganem, 16 anos depois, é este o espírito que o filme Avatar reencontra, não se fazendo necessárias - nem lógicas - as tentativas de comparação do filme com Star Wars, Matrix, 2001 ou até mesmo Titanic, último trabalho do diretor. No entanto, encantar-se com um novo mundo, sem ter mais aquele espírito infantil, é algo que exige certo trabalho e suspensão da crítica.

Jake Sully (Sam Worthington) é um ex-fuzileiro americano, paraplégico, que perde o irmão gêmeo pouco tempo antes que este embarcasse para Pandora - uma lua. O avatar de seu irmão - um clone híbrido de humano e Na'vi (humanóides habitantes de Pandora) - que exigiu altos investimentos - poderia ser usado pelo seu irmão devido ao fato de que ambos dividem o mesmo genoma. Para não desperdiçar o dinheiro investido no tal clone, resolvem que Jake entrará para a missão em Pandora. Missão esta desenvolvida pela cientista (Sigourney Weaver), que estuda dedicadamente a cultura dos Na'vis. Por outro lado, Jake é comandado a entregar todos os detalhes sobre os Na'vis para Parker (Giovanni Ribisi) e Coronel Miles (Stephen Lang, um dos meus maiores problemas com o filme), pois estes pretendem dominar um riquíssimo mineral do solo de Pandora. O conflito de Jake se inicia quando ele é adotado por uma tribo Na'vi para aprender seus costumes, e cada vez mais apaixonado por Pandora e pela Na'vi Neytiri (Zoe Saldana), Jake se vê diante uma guerra entre humanos e Na'vis por Pandora.

A trama é uma mistura de Pocahontas com Dança com Lobos em uma versão alienígena. Sim, toda e qualquer comparação feita entre os Na'vis e os povos indígenas não são em vão, é a estrutura que Cameron adota para falar de questões como o desenvolvimento irracional da civilização humana e a necessidade de atenção para a natureza. Sendo assim, Avatar se transforma em uma ágil alegoria tanto para o passado - a luta entre povos brancos e indígenas - quanto para o presente e suas questões ambientais. Já deu para imaginar que sutileza não é o forte do filme. Ainda assim, seu roteiro está longe de ser ruim como falaram alguns críticos. Falha em diversos momentos, especialmente na construção de seus vilões - nada críveis ou interessantes - e falha especialmente no ritmo em sua primeira uma hora e meia de exibição. Eu sei que isso diante a longa duração de quase três horas do filme pode não parecer nada, mas o grande tempo gasto com a apresentação de todo um novo mundo é um tanto cansativo, apesar de visualmente fascinante.

Mas não era exatamente a trama que todos aguardavam neste filme. Vem sendo divulgado há quase dois anos que Avatar seria uma revolução na indústria cinematográfica, pois seria feito com tecnologia tal que nunca ninguém teria visto nada igual. Sejamos justos, o ponto que James Cameron chega com sua tecnologia de captura de movimentos de fato jamais foi vista no cinema. Recentemente me encantei em como esta tecnologia estava avançando no filme Os Fantasmas de Scrooge, mas em Avatar ela chega em um ponto inimaginável: é mais fácil tentar crer que os Na'vis são atores maquiados do que seres digitalizados. A captura de expressões faciais e até mesmo dos movimentos dos olhos é impressionante. Parece que a única pedra no sapato ainda para a tecnologia é domar os cabelos, algo que não chega a chamar tanto a atenção neste filme. Já o tão comentado 3D do filme é interessante, encanta, mas não se faz completamente necessário: a tecnologia de Avatar me pareceu estar muito além do 3D, e perceptível ainda que em 2D. Mas não vi o filme em 2D para dar meu veredito final. O som do filme, assim como sua fotografia, seguem de maneira perfeita na ambientação deste novo mundo: apesar de saber que era tudo digital, é impossível não acreditar na realidade de Pandora. Inclusive, creio que a direção de arte do filme deveria ser reconhecida.

É até curioso que, ainda com este espetáculo visual, a trilha sonora de James Horner consiga chamar tanto a atenção para si. Ela até começa tímida, com temas de aventura na descoberta de Pandora. Mas Horner compôs um tema para a guerra sci-fi que chega a impressionar. Realmente considero o melhor trabalho do ano. O elenco está no geral muito bem, melhor do que eu esperava. O único que deixa a desejar é mesmo Stephen Lang, com seu vilão Maxteel.

Ainda que com todo este vislumbre visual e tecnológico, Avatar sofre com uma falta que não consigo nomear. Gostei de sua trama, me envolvi com seus personagens, me impressionei com sua tecnologia, mas não saí do cinema arrebatado. Saí em busca de algo que não me agradara, que ficara no ar. Partes um roteiro que enfraquece em alguns momentos cruciais, parte de vilões absurdamente chatos e mal construídos que fizeram parte da guerra parecer sem sentido ou chata. Partes por constatar que Avatar foi o grande filme-evento do ano, mas pouco tinha a dizer. Sim, estão lá as alegorias e os avisos sociais, incluindo até uma deselegante menção ao detestável presidente Bush ('vamos combater o terror com o terror') mas tudo é um tanto simplista demais.

Talvez, fosse eu com meus seis anos de idade, Avatar faria por mim o que O Parque dos Dinossauros fez, por isso foi encantador ver uma criança desconhecida do meu lado saltar toda vez que um bicho voador pulava na tela. Mas passado boa parte do encantamento por bichos gigantescos, fica-se a certeza que Avatar mostra muito e diz pouco, não tendo em momento algum o impacto dramático que as tramas de O Senhor dos Anéis ou Star Wars tinham, sem ter também nenhuma filosofia tecnológica como presente em Matrix ou (como alguém pôde citá-lo em uma linha que terminaria em Avatar?) 2001 - Uma Odisséia No Espaço. Avatar é um grande passo - e ambicioso - na história do cinema, jamais será esquecido, mesmo quando for superado em sua tecnologia. James Cameron revoluciona aquilo que ele se propôs a revolucionar. Mas na arte de enganar e manipular os sentimentos de sua platéia, Avatar ainda está uns bons passos atrás de Titanic, que por sinal ainda se mantém impressionante em seus efeitos visuais, 12 anos depois.

Inclusive, creio que Avatar só bate o recorde de bilheteria de Titanic se a diferença de preço dos cinemas em 3D ajudar muito, pois é um filme que não tem apelo para todo e qualquer público. Já nas premiações, Avatar seguirá de forma mais tímida, mas muito mais devido à sua temática e seu estilo do que por merecimento. Esperem uma carreira de Oscars técnicos, que ele merece sem sombra de dúvidas, e ainda torço por sua trilha sonora. Mas não sei se é algo que a Academia escolheria para coroar com melhor filme - ainda que seja indicado a filme e direção.

Nota: 7,5

7 comentários:

Fabio Rockenbach disse...

Prefiro a alusão a SW e SDA do que a Pocahontas, principalmente pela forma como Cameron trabalha osprincípios básicos estipulados por Joseph Campbell acerca de mitos, como SW fez em 77. E nesses princípios básicos - alguns chamariam pura e simplesmente de clichês - estão o bem e o mal claramente definidos, o aprendiz, o mestre, a força superior - a "Força" para o Lucas, Eywa para o Cameron.
Reside num pouco de nostalgia essa coisa de querer diminuir Avatar em comparação ao "sagrado" Star Wars, mas não acho que você entenda, porque você não viveu o fim dos anos 70, então também não compreende que, naquela época, Star Wars também mostrava muito e dizia pouco, e tudo era muito dúbio, e todos ainda esperavam saber muito sobre o que era tudo aquilo.
Chapa, você nasceu numa geraçao em que tudo aquilo já estava explicado. Nós não, nós recebemos aquilo dose a dose, com esse mesmo tipo de pensamento, o de que "dizia muito" e era apenas visual.
Passado esse tempo todo, eu reconheci o mesmo sentimento, a mesma aproximação e os mesmos questionamentos.
Acho que só quem viveu aquele tempo e recebeu a mesma carga que a geração de agora recebe "Avatar" pode entender porque ocorre essa comparação. A geração posterior recebeu star wars mastigado ao extremo e explicado por completo.
Nós recebemos Star Wars como todos hoje recebem Avatar...

Apenas pra esclarecer esse ponto, já que você acha tolice comparar Avatar com Star Wars ou Senhor dos Anéis, o que eu acho muito mais apropriado para tentar explicar porque o filme mexe com tanta gente - e é ignorado por tantos outros. Quando se trata de novas mitologias, a reação costuma ser essa mesma - e depende do Cameron manter uma nova mitologia ou parar por aqui. Pelo que sei, ele vai ampliar isso em mais dois filmes, e sabe-se lá quantos produtos paralelos.
Só por trazer a segunda mitologia genuinamente e puramente cinemtográfica, Avatar já teria um lugar na história. Mas não dá para explicar isso nos termos de comparação a quem não viveu AQUELE tempo de criação de uma mitologia e um universo inteiro...

Abraço

Fabio Rockenbach disse...

Tiago, então... é sobre o que a gente vem falando.
Antes de ver o filme eu tinha um pé atrás, achei tudo esquisito demais, achei o visual "poluído" demais nos trailers e vídeos de divulgação. Não fui com expectativa. Fui fisgado no filme.

Claro, nem no dia em que pessoas falaram Na'vi entre elas, como acontece na Inglaterra com doidos que falam élfico, nem no dia em que Cameron publicar um mapa de Pandora, uma história natural e etc e tal como fez Tolkien, daria para comparar a sério uma criação com outra. Tolkien é único, o cara criou línguas, depois criou um mundo pra justificar a língua e depois os personagens para justificar o mundo - e por fim uma história pra justificar tudo. A medida de comparação é que Cameron também criou um mundo e uma mitologia, apenas isso, como fez o Lucas. Ele tem potencial para desenvolver isso, e parece que vai fazer isso.

Minha opinião é apaixonada mas isenta de falta de critérios, porque fui fisgado pelo filme e não fui ver ele já buscando isso. Como você disse, é uma questão de gostos, isso diz muito sobre gostar ou não de qualquer produto. Se você não é muito fã de SW é natural que não se sinta tão atraído por Avatar - e eu conheço gente que não conseguiu terminar de olhar A Sociedade do Anel porque odeia tudo que envolve mitologia. São escolhas bem pessoais que interferem, para bem ou mal, na recepção de qualquer obra de arte, audiovisual ou não.

Em tempo, o maior mérito para mim nem foi a exuberante criação digital, mas a recuperação dessas histórias básica dentro de um novo espírito de mitologia própria e criada unicamente para o cinema. Tudo que o Campbell falava sobre mitos básicos está ali, com a mesma consistência que eu senti nos anos 70. Mais do que qualquer efeito, é isso que me pegou.

E o Cinefilando está no blogroll do Dr.Frame já há um bom tempo. Acho que vi o blog no espaço do Pedro Henrique...

Abraço!

vivi ferreira disse...

Fabio, muito bom teu ponto de vista e sua opiniao.
E Ti, gostei mto de sua critica, nao tive tempo de ver avatar ainda.

E fabio, comente mais por aqwui biu?!
Bjokas,
vivi

Wally disse...

É uma crítica mais pé no chão em termos de que coloca em pauta vários elementos. Confesso que desanimei um tiquinho.

O Cara da Locadora disse...

Acho difícil comparar a profundidade da história de um filme como Avatar com, por exemplo, o SdA que é baseado num livro muito bem escrito e profundo... Avatar é um espetáculo visual e certamente um marco na história do cinema... Bem, dei nota máxima mas sei que falta algo no filme...

PS: Não gostei do Stephen Lang no filme também ... :(

Jonathan zZZz Rodrigues disse...

não acho que avatar vá bater a bilheteria de Titanic, acho até que vai chegar perto, mas devido a 2 motivos:

- TDM, taxa de desvalorização da moeda. Titanic é um filme de 12 anos atrás, naquela época a moeda valia bem mais que hoje e alcansar quase 2 bilhões era uma coisa bem mais difícil. se TDk fez alarde por bater 1 bilhão, se ele fosse lançado na mesma época mal chegaria perto.

- preço dos ingressos 3D. por mais que falte salas 3D em muitos lugares, ainda acho que metade ou a maioria da arrecadação seja de venda de ingressos 3D, e partindo do fato que eles custam no mínimo 1,5 vezes o valor de um ingresso comum isso ajuda e muito na bilheteria.


sobre o filme em si ele me encantou sim, saí do cinema rindo à toa, uma experiência inesquecível mesmo.
ele realmente me lembrou jurassic park, a questão é que eu não vi Jurasssic Park no cinema e ver este filme foi como uma redenção pra mim.

Alex Pizziolo disse...

Como você gosta de escrever, hein?? kkkkk

Nem sei o que dizer, pois já ficou claro que discordo de você em toda a questão da temática e tal.

Creio que o seu deslumbramento com Parque dos Dinossáuros é o mesmo que tive com Avatar, pois não vi nenhum desses outros filmes citados por você no cinema, e Avatar também é o 1º 3D que vejo...
Mas nada disso atrapalha meu senso crítico e eu deixo bem claro.

Mas como você mesmo disse, Avatar não te arrebatou. Comigo aconteceu exatamente ao contrário. E acredito que com muita gente que estava na mesma sala que eu, ouvi dezenas de pessoas dizendo que é o melhor filme que elas já viram...

E concordo com você em relação ao 3D também, não acho indispensável não, mas deixa tudo mais interessante!

Bem, ufa...

Abraço!