segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Agora nos Cinemas: Aconteceu em Woodstock


Se você não viveu os anos de 68 e 69, e nunca se interessou a fundo pela contracultura ou ao menos pelo rock, de fato não tem muita obrigação de saber a fundo sobre o que foi o festival de Woodstock. Mas é sim uma vergonha não ter nem vaga idéia do que se trata. Pois bem, essas informações documentais, por tópico, sobre quantas pessoas, quais bandas, quais dias, você acha em qualquer Wikipedia da vida. Já uma análise histórica sobre a importância do festival requer uma pesquisa pouco mais atenciosa - mas o belo documentário Woodstock, de 1970 já fez isso para você. Agora, 40 anos depois do festival, o audacioso diretor Ang Lee vem com uma visão bem singular sobre o festival: para além de tudo aquilo que sabemos, havia a pacata vida de uma comunidade, de uma família e de um garoto que foram completamente transformadas com o tal festival. Perde-se os dados alardeados, a grandiosidade, e caímos em um cotidiano sóbrio e monótono. Aqui mora o charme de Aconteceu em Woodstock, mesmo que para isso, more aqui também seu túmulo.

Esta é a primeira empreitada americana de Lee após o grande sucesso de O Segredo de Brokeback Mountain, em um delicado e impactante estudo sobre a repressão ao amor homossexual entre dois vaqueiros americanos. O filme se baseia na auto-biografia de Elliot Tiber (Demetri Martin), jovem que vivia com seus pais na cidade interiorana de Bethel, comandando um falido hotel de estrada. Diretor de uma pequena associação dos comerciantes da cidade, Elliot se preocupava muito com a falta de movimento para aquelas bandas, e resolveu tentar acolher um show musical que acabara de ser expulso e cancelado na cidade de Woodstock. Como esta trama termina quase todo mundo sabe. Ang Lee traz aquilo que ninguém sabe: este rapaz foi hostilizado por toda a cidade por enchê-la com hippies que 'roubariam tudo', foi hostilizado também por sua família - de início - que acreditou que ele estava virando hippie, e por fim foi um dos responsáveis pelo show mais famoso e importante da história - mesmo sendo um garoto tímido, quadrado e extremamente reprimido.

Esta visão micro é o que define o filme de Lee. Prova máxima disso é o fato de vermos o palco do show apenas duas ou três vezes ao longo da projeção - todas elas há uma grande distância. Também ouvimos pouco das músicas. Lee está interessado em retratar a vida das pessoas que ali estavam, o que faziam para além do festival - centrando-se, claro, em Elliot que encontrará no festival uma das maneiras de assumir pro mundo quem ele era e o que queria para seu futuro. Esta abordagem do filme me agradou imensamente - ainda mais com a coragem de mostrar que Woodstock foi, acima de tudo, um negócio - arquitetado, arranjado e extremamente calculado por um ou dois hippies-não-tão-hippies e alguns vários colarinhos brancos. No entanto esta mesma abordagem afastou a crítica do filme, fazendo com que ele fosse extremamente mal recebido.

Outro motivo de reclamações - com as quais devo concordar - é o fato dos personagens serem unidimensionais. Verdade seja dita, o personagem bem trabalhado é mesmo Elliot - o resto ou é um bando de caipira ignorante, ou são hippies ou são os não-hippies-não-caipiras, como os policiais. Isso faz com que o elenco, algumas vezes, tenha mesmo pouco a fazer. O maior exemplo disso é o personagem Billy, que nada é além do jovem que retorna surtado do Vietnã, um desperdício imenso de um dos atores mais talentosos da leva mais 'nova' de Hollywood: Emile Hirsh. Paul Dano, outro exemplo da mesma safra, não chega a ser um desperdício, uma vez que faz apenas uma participação especial. Demetri Martin é uma revelação agradável, defende bem seu Billy, assim como a um tanto misteriosa personagem Vilma - uma travesti masculinizada e séria - revela uma precisa atuação de Liev Schreiber. Mas o filme mesmo tem dois donos: Imelda Staunton e especialmente Henry Goodman brilham no papel dos pais de Billy, em dois típicos caipiras de meia idade extremamente perdidos diante dos fatos que são construídos em suas frentes.

Contando com uma execução técnica de extremo bom gosto, ressalto ainda a bela fotografia de Eric Gautier (responsável pela fantástica fotografia de Na Natureza Selvagem) e a interessante direção de arte de Peter Rogness - e de como ele usa os figurantes do filme para esta finalidade - algo que de fato me conquistou.

Aconteceu em Woodstock não é, nem pretende ser, algum estudo ou filme documental sobre o evento. Ele revela que para além disso, havia inúmeras vidas que seriam mudadas de maneira intensa graças ao evento - e tenta narrar pelo menos uma delas. É como o próprio Elliot diz, em certo momento do filme "meus problemas são tão menores diante disso tudo", sem ter noção de quão interessante é. Afinal, que não reste dúvidas: nossos problemas também são menores diante tantas coisas que nos cercam. Nem por isso são irrelevantes. Ang Lee foi muito mais divertido, e muito mais humano do que eu esperava - e do que ele mostrou no seu recente Desejo e Perigo. Mas, de fato, não se revela o mestre que apresentou em Brokeback.

Nota: 7,0

7 comentários:

Wally disse...

Eu esperava muito do filme, mas aos poucos fui me desanimando. Ainda estou esperando ele chegar por aqui...

Sérgio Déda disse...

E aí... estou voltando a atualizar o blog depois de tanto tempo hehe.

Sempre espero algo do Ang Lee... não que saia uma obra-prima, mas espero ao menos um filme regular. Não estou tão ansioso assim, mas quero ver assim que possível.

O Homem que Engarrafava Nuvens disse...

Olá, Meu nome é Thays Py e trabalho na Agência de Comunicação Núcleo da Idéia.
Gostaria de ter o seu e-mail para que possamos fazer contato para parceria.

Desde já agradeço.

Thays Py
mkt7@nucleodaideia.com.br

vivi ferreira disse...

Ti, como assim "e do que ele mostrou em desejo e perigo?"

eu penso que aconteceu em woodstock nao lambe nem os pés de desejo e perigo o qual considero uma obra magnifica, profunda e apaixonante!

Amanha eu pretendo postar a resenha da princesa e o sapo pq só chegou na minha cidade agora
bjokasssssss

Felipe Fonseca disse...

Eu gostei muito de "Desejo e Perigo". Muito mesmo! A trilha de Alexandre Desplat é maravilhosa, em especial Dinner Waltz.

Cristiano Contreiras disse...

Preciso conferir este! Há opiniões bem divididas, sabe. Alguns blogueiros adoraram, outros detonaram.

Confesso que gosto de todos os filmes que já vi do Ang Lee, por isso acho que este vai me cativar.

Bela resenha! fiquei ainda mais com vontade de conferir, abs

Patrícia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.