sábado, 17 de outubro de 2009

Agora nos Cinemas: Distrito 9


Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. (A Metamorfose, Franz Kafka).

A violência muitas vezes ocorre nesse intervalo entre a constatação da diferença e o imperativo de ter de coexistir com ela que se impõe no convívio público. Ela se instaura ante a constatação de que o convívio com as diferenças é inevitável, e acaba por fazer parte das estratégias de que se lança mão para suprimi-lo, adiá-lo ou negá-lo. (A Violência no Coração da Cidade, Paulo Cesar Endo).

Sinto não ser nenhuma filosofia gratuita o fato destes livros (um literário e outro psicanalítico) me virem à mente logo nos dez minutos iniciais deste filme. Não, sequer estou falando do que acontece com o personagem principal. Mas ao ver os "camarões" e a reação da sociedade, a extrema segregação, esta idéia de maisvalia do corpo e maisvalia do ser foi instantânea. Isso foi logo de cara a pista essencial para sacar que não, não estamos falando de extraterrestres.

Há 20 anos uma nave extraterrestre parou sobre Johannesburg. Após certo desespero, a humanidade entra em contato, e descobre que ali estavam seres fracos, doentes, sofridos e subnutridos em busca de ajuda. A reação imediata foi trancafiá-los no Distrito 9, uma espécie de favela 'isolada'. Claro que a situação vira alvo de extrema politicagem, por outro lado, alguns grupos críticos e preocupados com os 'direitos humanos' dos extraterrestres surgem. Aqui há uma metáfora direta a duas organizações, uma que equivaleria a ONU (a MNU) caso ela fosse do mal, querendo dominar o mundo, e outra que equivale de fato à própria ONU (a OIU). Após todo este tempo, chegamos a uma situação tal que os extraterrestres só desejam voltar para a casa - e já viraram prisioneiros -, enquanto os humanos preparam uma espécie de 'campo de concentração' para eles. Tudo vai por água abaixo quando um dos principais responsáveis pela ação dos humanos se contamina.

A questão da segregação racial é tão crua e visceral que, apesar do distanciamento que a imagem bizarra dos extraterrestre nos proporciona, nos preocupamos de maneira quase que automática com a situação deles. Posso destacar, para justificar isso, o extremo desconforto que (espero que) todos sentem ao ouvir os barulhos e o comentário sobre a tal 'pipoca'. Este primeiro ato do filme (longe de ser um prólogo) é tão bem construído que a admiração pelo filme é quase imediata (daí a ovação da crítica americana por ele). Toda esta abordagem sobre divisão racial remete, de maneira quase que instantânea e automática, ao Apartheid, apesar de o diretor negar.

No entanto, o enrendo ainda se transforma. No segundo ato assistimos uma espécie de A Experiência, só que de fato inteligente. O problema com a trama é justamente com seu desfecho. Não revelarei, mas concordo com os finais dados aos personagens. O que achei ridículo e desnecessário foi a aposta em uma ação frenética e excessiva, em uma situação Transformers injustificável. Sim, isso me fez ficar um tanto desapontado, pois mostrou que o filme saiu do patamar que ele se lançou e caiu na megalomania hollywoodiana. Enfim, nada que comprometa o restante do filme.

Inteligentemente abordado em um estilo de documentário, o filme se mostra um interessante início de carreira do diretor Neil Blomkamp, também sulafricano (o que deixa ainda mais óbvio as referências do filme ao Apartheid). A técnica do filme é impressionante, seja sua edição, seu som, e até mesmo seus efeitos especiais. A única coisa que demorou a me convencer foi justamente o estilo adotado para os alienígenas. Inclusive acredito em algumas indicações técnicas ao Oscar, e não fosse este deslize do final, eu realmente torceria com minhas entranhas por uma indicação a roteiro original. Enfim, creio que se o ano não for tão forte, isso também pode acontecer. Por fim, gostaria de ressaltar o trabalho de Sharlto Copley na pele de Wikus Van De Merwe, um pesonagem ambíguo e complexo, que facilmente poderia ser pintado por uma caricatura, mas que o ator o defende de maneira extremamente honesta.

Distrito 9 pode ser um filme com um leve deslize em seu desfecho, mas ele toca em feridas tão profunda e de maneira tão alegórica e original, que acaba por transformar o filme em uma das ficções científicas mais originais e relevantes em muitos, muitos anos. Isso já é um feito e tanto a se reconhecer.

Nota: 7,5

4 comentários:

Ricardo Martins disse...

Acho um filme inovador e muito bem realizado, que pode ser assistido como um divertimento também , mas ao vê-lo por olhos da humanidade se tocamos na familiaridade com o que acontece no nosso mundo, como vemos acontecer por ai, como na África esse isolamento de pessoas, imigrantes, essa metáfora ao Apartheid! E simplesmente brilhante, sua locação e o acesso que Peter Jackson possibilitou a realização do filme!
Assisti esse filme e adorei, até sua realização espero que haja uma continuação!!!
Logo postarei sobre esse filme no meu blog!
Parabéns pela crítica e ABRAÇO

Ewerton lol disse...

Apesar de não ter gostado do filme, gostei muito da sua crítica!
Pra mim o filme se perde muito do seu início (que eu realmente achei muito interessante) e muda muito de cara no final... Não gostei muito das cenas de ação, e o final pra mim foi muito previsivel!

mas parabéns aê pela crítica, ficou muito boa! :D

Wally disse...

Estou curioso quanto à este filme. Sou fã do gênero e adoro inovações.

Ricardo Martins disse...

E se quiser trocar link do blog me avisa
http://momentocine.blogspot.com/