
Para contextualisar meu comentário sobre o filme, que evidentemente é pessoal, devo lançar um curto histórico sobre Harry Potter e eu. Tinha sei lá, creio que 11 ou 12 anos quando ganhei de presente o primeiro livro da minha mãe. Ele havia acabado de ser lançado no Brasil, o título Harry Potter em verde brilhoso ainda vinha naquela letra simples. Comecei o livro não gostando tanto, mas chegou em Hogwarts eu surtei. Nada mais fazia sentido além de Harry Potter, ou algo assim. A cada novo livro eu ficava ainda mais fascinado, freqüentava fóruns de discussões. Até aí, tinha lá meus 14 anos. Até que lançaram o quinto livro. Afundo na cadeira. Nunca sonhei que leria algo insuportável. A autora ignorou todo o mundo fantasioso que me deliciava para se render em tramas de suspense irritantes e repetitivas. O sexto livro melhorou um pouco do meu humor, mas deu para entender que a série não voltaria a ser o que era antes. O sétimo, para ser bem honesto, sequer li. No meu terceiro ou quarto ano de faculdade não consegui arrumar tempo para ler estripulias do menino bruxo que, nessas alturas, já se tornara insuportável. Chego assim à sessão de O Enigma do Príncipe, junto com dois sobrinhos, um de oito e um de doze anos. E começa o filme.
A crítica enlouqueceu. Harry Potter no cinema continua sendo uma série lucrativa que respeita o material de origem, e O Enigma do Príncipe acerta ao quebrar certas correntes e tentar seguir um rumo próprio. O problema não está em querer certa liberdade para o filme. O problema está nas soluções encontradas. Passamos quase duas horas intermináveis e infernais acompanhando os relacionamentos adolescentes dos personagens principais. Nada contra romances, desde que tenham razão de ser em um filme, e que ela não seja sustentar toda a trama que se perdeu. Apostaram o tempo todo nos romances, briguinhas, coisas típicas adolescentes. Mas lembramos aqui que estamos no sexto ano, ou seja, Harry tem lá seus 16 ou 17 anos. Qual é. Tudo bem, podemos tentar supor que a Europa é mais acatada que o Brasil, mas ainda assim.
Tendo isso como base para aquilo que deveria ser só um apêndice do filme, o roteiro gasta a meia hora final para desenrolar a trama que deveria ser o foco. Nisso já estava irritado, cansado e extremamente decepcionado com o que via. Se esta meia hora final ainda fosse madura e enérgica o suficiente para perdoar o restante. Mas não. Yates e Klove resolveram pular um acontecimento importantíssimo e relacioná-lo com o sétimo filme. O filme que já não tinha um começo bem definido, ficou sem ter fim. O que se teve foram trinta minutos de uma ação corrida, simplificada e sem impacto algum. Uma prévia interminável para o que deverá ser os dois filmes finais.
Este gravíssimo erro de roteiro compromete todas as demais qualidades do filme. De fatos temos uma fotografia e uma direção de arte muito mais sóbrias, tensas e coerentes com o rumo que a série está tomando. O elenco está realmente bem, inclusive o Daniel Radcliff, sobre quem tantos reclamam. Tento muito, mas não consigo entender o que a crítica tanto elogia neste novo capítulo da série cinematográfica. O terceiro, quarto e quinto filmes são extremamente superiores, o primeiro e o segundo são mais mágicos. O sexto é só um prólogo imenso e cansativo. Maduro? Não. Compará-lo a O Senhor dos Anéis só se fosse pela referência óbvia de fazer Dumbledore lembrar o máximo possível Gandalf na meia hora final do filme (o que não havia acontecido até agora em toda a série), e os monstros da caverna realmente lembrarem Gollum. Enfim, toda esta cena de fato é uma cópia de mal gosto de A Sociedade do Anel e as Minas.
Por fim, Harry Potter está extremamente fixo em um público alvo. Sem mais a magia que prendia os menores na sala, e sem algum atrativo para quem já saiu daquela adolescência boba pregada no filme (até Crepúsculo consegue ser mais interessante para jovens de 16 anos de idade), Harry Potter encontra-se voltado a uma fatia bem pequena: os pré-adolescentes que não conseguem achar a trama romântica ridícula, o pouco de magia o suficiente, e as resoluções simples coerentes.
Uma pena.
6,0
3 comentários:
Olá Tiago
Concordo plenamente com você. Esse filme ficou a desejar. O livro não é o melhor, mas pelo menos os últimos 5 capítulos são espetaculares. O que quase não se vê no filme. Eles (roteirista/diretor) focaram nos romances adolescentes, se esquecendo que muitas pessoas morriam pelo mundo e os comensais ficando cada vez mais fortes, enquando isso Harry, Rony e Hermione se preocupando com beijos. LAMENTÁVEL.
Abraços e até mais.
"Harry Potter encontra-se voltado a uma fatia bem pequena: os pré-adolescentes que não conseguem achar a trama romântica ridícula, o pouco de magia o suficiente, e as resoluções simples coerentes."
O filme tem tudo pra passar da marca de 1 bilhão de dólares ao redor do mundo. Não, não são só os pré-adolescentes que adoram essa franquia.
Olha eu sou aquele que ainda é fã e não perdi o interesse nos livros e nem os ultimos inferiores aos primeiros, mas claro o filme em questão de adaptação deixa muito a desejar, as cenas de romance realmente são infernais parecem que nunca vão terminar, mas acima de tudo eu gostei, não sei porque, apenas gostei. Mas realmente não é o melhor.
Apesar que o necessário do livro estava ali, mal feito mas estava ali, e o romance infernal? bom ele também está presente nas paginas de Rowling, aqui mais evidente claro com os personagens se atirando, o que achei bacana, porque isso serve para os non-readers saberem já, quem vai ficar com quem para depois não ficarem enrolando cenas como essa no sétimo livro mesmo sendo dividido em duas partes.
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