
Quem mora em SP já deve ter sacado que conseguir assistir à peça Viver Sem Tempos Mortos, monólogo de Fernanda Montenegro, dirigida por Felipe Hirsch (um dos melhores diretores em atividade) é quase uma honra. Ingressos venderam em questão de horas, e os lugares pingados que sobraram esgotaram em uma semana, mais ou menos. Todo mundo queria ver Fernanda, aos 80, fazer sua primeira peça em 8 anos. Era um dos meus sonhos... Ver Fernandona nos palcos. Em uma peça sobre Simone de Beauvoir e seu relacionamento com Jean-Paul Sartre, cujo existencialismo eu estudara um ano antes. Era muita coisa para um único momento.
Quando as luzes se apagaram e eu ouvi os passos de Fernanda no piso de madeira do palco, meu peito revirou, era um verdadeiro frio na barriga. E ela, com um brilho imensurável, senta-se na cadeira e começa o monólogo de apenas uma hora, mas que por mim tinha o valor de uma eternidade. O texto, baseadas nas cartas de Simone, é belíssimo, sensível e até mesmo didático em alguns momentos. Fernanda nos comanda apenas com seu tom de voz, ora confidencial ora certeiro. Sua presença parece expandir do palco e torna-se uma névoa delicada a pairar sobre todo o teatro. A peça termina e a ovação é automática. As pessoas derramam-se em palmas, numa tentativa de retribuir o que fora dado.
Eu estava sem jeito, saí e perguntei para a menina que distribui os programas (que já virou o ponto alto da minha coleção) se Fernanda saía por ali, se havia algum jeito de falar com ela. Ela me mostrou um caderno, onde as pessoas escreviam comentários para Fernanda, e me disse que daria um jeito. Escrevi, me senti até bobo, mas com toda honestidade do mundo (que precisava), escrevi parabenizando pela peça, e agradeci, mesmo que tardiamente, por Central do Brasil. E então a garota surgiu para mim e disse "volta à platéia, ela vai sair lá para conversar com um pessoal".
Voltamos nós para a platéia, o ministro da cultura e o elenco de uma peça estavam lá, e ela sai para agradecer a presença destas pessoas. Conversou, deu para sacar seu tom imponente ao falar com o ministro, de maneira muito educada. A surtada de sua assistente não nos deu tempo, disse que estavam muito atrasados mas que Fernanda não iria embora sem nos dar uma atenção, então pediu a máquina, mandou a gente chegar e abraçá-la. Eu tremia de estar por perto, não conseguia falar. Vi ela e queria falar tanto, mas ela nos abraçou e posou para a foto. Agradecemos, e ela se foi.
Eu não dormi à noite.
4 comentários:
Inveja de você... Viu Fernanda Montenegro no palco. Essa tá minha lista que eu tenho que ver antes que morra. Deixei passar o Paulo Autran e o Raul Cortes. Vi a Bibi Ferreira. Corro atrás da Fernanda e da Marília Pêra!
Nossa Tiago
Que emoção deve ter sido. Pena que não sou de SP. Fernanda Montenegro é sem dúvida a melhor atriz de nosso país, ver ela interpretando é sempre uma aula.
Abraços e até mais.
Sem dúvida é nossa maior atriz!
Fiquei com um pouco de inveja agora ;-)
Olá Tiago,
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(11) 2925-0700
patricia@ichimps.com.br
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