domingo, 14 de junho de 2009

Agora nos Cinemas: A Festa da Menina Morta


Os colegas que me conhecem do blog, ou de comunidades, sabem que eu raramente participo de um coro - enorme - de brasileiros que se lamentam ad eternum que o cinema brasileiro só mostra pobreza. No entanto, a certa altura deste filme (na verdade, logo em sua primeira parte) eu me questionava se, no final das contas, não existe mesmo tal fetiche. Mas não pretendo entrar nesta discussão; só a apresentei porque ela foi o ponto inicial para um questionamento que me permeou ao longo de todo o filme: por que isso está sendo mostrado? E destaco que, de certa forma, não sei se entendi bem o que estava sendo mostrado.

A Festa da Menina Morta narra sobre uma comunidade ribeirinha no Amazonas que comemora, todos os anos, o dia da menina morta, representada na terra por Santinho. O que se passa é que, ainda enquanto criança, Santinho (Daniel de Oliveira) "reviveu" sua mãe (de um suposto e não explicado suicídio). Mais ou menos neste tempo, a morte de uma criança lhe foi revelada, as roupas da tal menina foram trazidas por um cachorro até ele. Em suma, ele é tido como santo do local, faz milagres, abençôa.

É sensato dizer que o filme tem, dentre tantas possibilidades, um objetivo de se argumentar sobre crença e fé, cegas, na religião. Ali é uma religião inespecífica, mistura candomblé com cristianismo e até mesmo algo mais indígena (Matheus Nachtegaele foi eficiente aqui). E para provar a quão dúbio era aquele Santinho, sua personalidade é irritante, mimada. Santinho desenvolve-se a espelho da imagem de sua mãe, é afeminado, birrento, rebelde. Gosta da atenção, e sabe do poder que exerce sobre os outros. Em determinado momento, vemos que, apesar de santo, o garoto não liga para o que ocorre ali, ao seu lado, quando ele poderia ajudar. Não bastasse isso, o diretor (primeiro filme do Nachtegaele) optou por uma relação incestuosa sem grandes expliações: Santinho dá-se ao pai, este tido como mulherengo. Mas, aparentemente, a relação mais intensa do pai é com o filho.

O roteiro extremamente confuso poderia ser melhor caso não buscasse tanto o choque. Chocar é a palavra de ordem no filme. Isso não é ruim, mas aqui ficou evidente demais. Fosse um estudo mais quieto, mais calmo, menos superlativo, seria um tiro certeiro. Mas, devo concordar, de uma maneira estranha o filme nos fixa atenção. Mesmo a partir do momento que eu achei que ele se perdera de vez (SPOILER) no também inexplicado retorno da mãe de Santinho (/SPOILER), não conseguimos desgrudar os olhos e a mente do que ali se passa. Parte disso devemos ao espetacular desempenho do elenco, profissional ou não. Destaca-se Daniel de Oliveira, no papel de Santinho, Juliano Cazarré (Tadeu, o único personagem descrente do filme é, ao mesmo tempo, o que soa mais psicótico) e Jackson Antunes (Pai).

Então, sem querer jogar lenha na fogueira, A Festa da Menina Morta me fez pensar se este tal fetiche da pobreza não é, no final das contas, um fetiche pelo choque. Pelo menos, neste exemplo, o tom de denúncia se dilui perigosamente entre as provocações, mostrando-se de uma moral dúbia. Mas um bom filme.

Nota: 6,5

6 comentários:

Wally disse...

Belo texto. Fiquei bem intrigado pelo filme.

altieres bruno machado junior disse...

Olá

Os filmes brasileiros têm muito disso: mostrar o social e nos chocar com as diferenças. Eu acho isso bacana, já tivemos muitos exemplos de filme bons assim, como Central do Brasil e Cidade de Deus. QUERO MUITO VER!

até mais...

Antonio disse...

Já estreou aqui em Belém?? Tô curioso pra ver.

Roberto Queiroz disse...

Estou na espreita por esse filme. Eu sou meio estranho com filmes nacionais. Estou sempre procurando produções que fujam do óbvio - como Nome Próprio, do Murilo Salles, e Feliz Natal, do Selton Mello - e me parece ser esse o caso de A Festa da Menina Morta.

Vinícius P. disse...

Esse tipo de tema pode facilmente cair no ridículo. "Baixio das Bestas" não apenas é o pior filme nacional que já vi, como um dos piores em todos os tempos. Espero que "A Festa da Menina Morta" não siga esse caminho.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Não acho que o cinema brasileiro tenha um fetiche pela pobreza - a pobreza me parece um tema simplesmente incontornável, e ela gera choque. No entanto, alguns diretores, como Cláudio Assis (especialmente me BAIXIO DAS BESTAS), realmente costumam apelar para cenas gratuitas, com o intuito puro e simples de chocar. Às vezes funciona, outras vezes não. E A FESTA DA MENINA MORTA me parece um filme muito ligado ao cinema do Assis. Apesar de não ter cenas verdadeiramente chocantes... enfim, o que importa é que esperava bem mais do filme, e saí um tanto frustrado do cinema, apesar de impressionado com o Daniel de Oliveira.
Também escrevi sobre o filme lá no blog.
Abraço!