segunda-feira, 9 de março de 2009

Hem? Que? Hã? Watchmen. E viva a assassínio em massa!

As adaptações de quadrinhos seguiram rumos interessantes nesta década. Tudo começou com Sam Raimi e seu Spiderman, cujo conteúdo optava por trazer situações fictícias para o mundo real de adolescentes e jovens. Então o herói sofria por um amor platônico, brigava na escola, se ligava diretamente aos adolescentes (algo que a própria HQ sugeria). Em uma outra vertente vemos Nolan e seus Batmans. Já não é uma mera ligação direta com um subgrupo social, mas sim uma metáfora generalizada de toda a sociedade contemporânea. O Cavaleiro das Trevas não deixa de ser um interessante ensaio sobre crime e justiça. A terceira e última vertente dá as costas para essa necessidade de ligação com o real, e se atenta somente à graphic novel em si. Aqui se encontram Frank Miller, James Mc Teigue e Zack Snyder. E filmes muito interessantes já apareceram, como Sin City e V de Vingança. Até memso 300 é um ótimo pipoca. Pena que Watchmen não consiga ser nada além de um enfadonho teste de paciência.

Iniciamos sua [incoerente] trama com o assassinato do [psicopata] Comediante, um herói [?] "aposentado". Rorschach (único personagem realmente interessante da trama) acredita que este não é um mero assassinato, mas o início de uma perseguição ao seu grupo de heróis. Unidos novamente para investigar o crime, os heróis se envolverão em uma ilógica trama para a salvação do mundo ante seu apocalipse pela terceira guerra mundial.


Sem lógica o resumo que fiz? Pois bem, agradeçam ao filme. Fato é que não conheco a graphic novel original, não duvido que talvez ela me agrade. Mas o filme tem seu roteiro extremamente mal trabalhado. Eu, por exemplo, fiquei metade da projeção sem entender se eles eram super heróis, se tinham poderes sobrenaturais (Spiderman) ou se os poderes eram desenvolvidos por treinamento (Batman), ou se era apenas um grupo de loucos que usavam máscaras e eram idiotas (acreditei muito tempo nisso). Em seguida, devo admitir minha dificuldade em aceitar uma fantasia brincando com a história. Logo nos primeiros 60 segundos de projeção, a imagem do Comediante assassinando Kennedy me incomodou demais.


O roteiro continua sua série de catástrofes ao elaborar cada personagem em individual, em diferentes momentos do filme. Cada um tinha um momento para ser acompanhado (algo que vimos recentemente em Sex and the City). Possui umas gags que afunda o filme, de tamanha deselegância. Aliás, é um filme definitivamente problemático com o seu sexo. Há apenas duas cenas, e as duas são catastróficas. Primeiramente vemos uma mulher tentando transar com um boneco azul gigantesco (tido como Deus, se vocês preferirem), e termos que levar a sério eles não conseguindo, e ela tentando discutir relação porque ele trabalha enquanto transa. Com um boneco azul gigante de cgi. É foda. E outra cena, quando outros dois personagens finalmente transam, a música de fundo é Halellujah e, ao gozarem, a nave espacial também o faz, soltando fogo de sua turbina. Resumindo, deixa qualquer O Primo Basílio no chinelo no quesito deselegância (isso sem nem comentar no pênis de cgi azul brilhante).


O elenco segue desconfortável no carnaval que lhes propuseram. O único a se sentir em casa é Jackie Earle Haley, em mais um tipo problemático e estranho. O visual e os efeitos visuais até são interessantes, mas nunca marcantes como os de 300. Nem mesmo aquela nave-relógio de Marte me arrancou imensos suspiros pela sua existência. A trilha sonora é uma das poucas coisas destacáveis. Apesar do terrível mal gosto com a cena de sexo citada, opções como Bob Dylan, The Sound of Silence e Unforggetable (hilária em uma cena de luta) são muito bem vindas. Outro ponto muito forçado por Zack Snyder é o abuso irritante de câmera lenta nas cenas de ação, para vermos caco a caco de vidro voando, socos arrancando gotas de sangue. Enfim, o maior clichê possível no ramo de ação nos dias atuais. Em Matrix era bem legal. 10 anos depois? Deu né.


Mas meu maior problema com o filme reside em sua ideologia. Ele é ambíguo, covarde e psicopata. Tenta se vender como um estudo sobre a decadente e catastrófica civilização humana, que se encontra no fundo do poço ao ser, em todas as análises, violenta e irracional. E qual a solução proposta para isso? Heróis que são ainda mais violentos e irracionais. Ver a cena do Comediante assassinando friamente vietcongs enquanto o filme tenta nos impor seu heroísmo e um luto pela sua morte é nojento. Rorschach é movido pela vingança e ódio, e também é um assassino deliberado. Até os dois heróis que pareciam mais centrados (Nite Owl II e Silk II) não hesitam em sua psicopatia ao assassinar deliberadamente uma gangue de beco na rua. É o que, nas entrelinhas, o filme vende: o assassínio em massa como a solução possível ao mundo. Sabe o Capitão Nascimento, do tão criticado Tropa de Elite? Então, só que agora são 4 assassinos, que quanto mais matar no mundo, melhor. Tudo por uma boa causa.


Não é a toa que, no final do filme, aparece de relance (quase uma mensagem subliminar) a bandeira americana com o escrito You know it's right. Watchmen se finca, finalmente, como uma grande propaganda e louvação ao poderio armamentício e militar dos EUA. Mas não era isso que ele queria criticar mesmo? E também não é à toa a metáfora esquizofrência da resolução para o maior conflito do filme: o que o homem mais inteligente da Terra arquiteta, Deus compreende sem perdoar nem acusar. É o alvará de Deus ao assassínio necessário. Que horror.


E nisso fica a violência absurda do filme. Sem ter uma beleza estética como a de Tarantino, o apelo sádico ao público como dos filmes Jogos Mortais, ou um alicerce contextual como A Paixão de Cristo ou O Lutador, a violência de Watchmen incomoda, e não parece ter razão de ser.


Cruelmente longo em duas horas e quarenta minutos, Watchmen é, em última análise, um desfile para criticar a violência social que defende a violência militar e a psicopatia dos heróis. Resumindo? Esquizofrênico.


Nota: 3,0.

13 comentários:

Jeniss Walker disse...

a graphic novel é ótima. espero que o filme tb seja.
abraço, pessoal.
:P

john disse...

arrazou na critica
algumas cenas realmente são toscas, com a do sexo coma cara azul, mas outras são encriveis, como a abertura. Mas, no fim, parece que foi tudo sem objetivo, uma estatua de gelo, linda porem fria, e que derrete com facilidade.

e eu ainda fui barrado de ver no cinema, mas dei um jeito.

abraçus

Vinícius P. disse...

É, uns gostaram bastante desse filme e outros nem tanto. Como não vi ainda, nem tenho como opinar direito, mas espero que não decepcione ao menos quanto ao visual...

Alex Gonçalves disse...

PQP, Tiago! ADOREI o teu texto. É o melhor junto com aquele que ouvi da Isabela Boscov(eu odeio ela, que fique claro). Eu ainda não vi o longa, mas acho que aqui encontro uma descrição precisa de todos os problemas que já espero enfrentar numa futura sessão do filme em DVD. Francamente, parece extremamente esquizofrênico!

Jonathan Rodrigues disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jonathan Rodrigues disse...
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Jonathan Rodrigues disse...

não entendo porque acham a cena de sexo do manhatan ruim, é quase igual na HQ, a idéia era a mesma

deve-se lembrar que Manhatan é um cara frio e objetivo, pra ele não faz diferença só transar e transar e trabalhar ao mesmo tempo, tem lógica, então não deixa de ser engraçado, mas não ridículo como voce insunua, pelo menos eu acho

alias, basta ver a frase de manhatan quando diz "um corpo morto ou vivo possui a mesma quantidade de particulas atômicas"(na cena que receba noticia que o Comediante, seu pareciro no Vietnão morreu) para ver a visão objetiva que ele tme das coisas



""Tenta se vender como um estudo sobre a decadente e catastrófica civilização humana, que se encontra no fundo do poço ao ser, em todas as análises, violenta e irracional. E qual a solução proposta para isso? Heróis que são ainda mais violentos e irracionais.""

os "heróis" eu acho ser apenas um espelho do que a sociedade se tornou, esta é a lógica da frase "quem vigia os vigilantes ?"


""Ver a cena do Comediante assassinando friamente vietcongs enquanto o filme tenta nos impor seu heroísmo e um luto pela sua morte é nojento. ""

Mas Tiago, esta é a lógica
basta ver outras cenas sobre o personagem, principalmente as ultimas que dão destaque a ele

o Comediante é assim, ele é um legitimo filha-da-puta, mas aí está a ironia, este filha-da-puta era VENDIDO PELO GOVERNO como um herói de guerra, ele e o Manhatan eram os unicos que podinham defender suas identidades de "heróis", os outros eram ilegais

esse filha-da-puta resolveu ironizar o mundo, tudo era um caos e ele se entregou a isto

acho que a sua idéia de heroismo foi justamente o que o filme quis desmascarar, o filme mostra que não há heróis, apenas seres humanos "comuns"


e é triste saber que o filme deixou estas imagens sobre os personas, mas rorcharch também é outro, o cara é de extrema direita, tem sua visão objetiva do que é justiça e é implacável nela

uma das partes que tem na HQ e não no filme é ele entrando em um bar e quebrando os dedos de um cara até alguem confessar quem matou o Blake(Comediante), é assim que funciona pra ele(literalmente)



e tiago, desculpe, mas você está sendo puritano demais, parece que tudo o que voce reclamava dos filmes de heróis anteriores voce está contradizendo agora

ninguem disse que os personagens do filme são certos e devem ser seguidos, eles tem cada um a sua moral, isto seria querer moldar os caras a partir do que você espera deles

e não acho que o filme louve os EUA, eles e a URSS estavam em pé de igualdade com relação a guerra e o Dr. Manhatan não mudava tanto isto(isto o filme supões quando diz que ele não poderia pegar quase nenhum dos mísseis da URSS, e se pega-se 99% deles, ainda não seria o suficiente), na HQ isto fica mais do que claro na matéria "Dr. Manhatan, Super-poderes e super-potências"


e como eu já disse, o filme foi é curto demais, se a idéia era daptar watchmen, Snyder fez o impossível com um filme de 2h 40m, e vamos dar um desconto para o cara: boa parte dos problemas do filme possivelmente seriam resolvidos com as cenas adicionais da sua versão do diretor(de 3h e 10m) que só virá com o DVD


mas cara, sério, é muito triste saber que vocÊ não deseja ler a HQ
eu recomendaria que você lâ-se pelo menos os 2 volumes iniciais(que não chegam a 80 páginas)

inclusive no fim da primeira HQ há um trecho do livro fictício "sob o capuz" escrito pelo personagem Hollis Manson(o primeiro Coruja que deu sua identidade ao segundo coruja(Patrick Wilson))

algumas as idéias do trecho do livro encontram-se no filme, mas muito distantemente, acho que quando você ler começará a se conectar emocionalmente com a obra

é triste pois o filme teoricamente deveria despertar o interesse das pessoas pela obra original e no seu caso acabou sendo propaganda negativa, se eu chega-se te dissesse: "cara, lê essa HQ aqui, é considerada a melhor de todos os tempos" seria bem mais eficiente

Wallace Andrioli Guedes disse...

Cara, a história de Watchmen (revistas e filme) não é esquizofrênica, mas ambígua, complexa, e cheia de dilemas morais.
E em nenhum momento as revistas ou o filme vangloriam os personagens, especialmente o Comediante. Muito pelo contrário.
Os heróis do filme são assassinos em massa? Sim! E isso é mostrado como algo bom? Não, é uma grande crítica às figuras mascaradas das HQ`s e, recentemente, de suas adaptações. Fascistas, assassinos frios, violentos, responsáveis por massacres. Esses são os heróis que aprendemos a vangloriar, os Batmans, Supermans por quem aprendemos a torcer.
Já que não te despertou vontade de ler a HQ, veja o filme de novo.
Abraço!

Kamila disse...

Não sou familiarizada com o universo de "Watchmen", mas o filme tem uma grande qualidade: o visual. O roteiro, no entanto, é uma bagunça só. Está claro que eles têm muito material interessante, mas o filme peca por perder o foco em vários momentos.

O Cara da Locadora disse...

Eu ainda não li a HQ, então minha opinião é puramente de um espectador do filme... Mas eu discordo em gênero, número e grau com você, rs. Na verdade uma dúvida que tivemos juntos é se eles são apenas idiotas mascarados ou têm super poderes, isso realmente me incomodou. Fora isso gostei muito, e discordo com sua interpretação sobre o "legado" do filme, que pra mim não quer MESMO dizer que aquilo ali é o correto e o que deve ser feito, na verdade acredito que é extremamente o contrário... Mas sei lá, podemos estar todos errados, rs...

Jonathan Rodrigues disse...

Tiago, tenta dar uma olhada na minha critica lá no BLOGANIMAZONANDO pra ovcê ver o que eu achei do filme puramente como filme(e que sei que ele tem muitas falahas também)

minha nota pra ele é um 7,0

Otavio Almeida disse...

O problema do filme é a diferença de linguagem entre quadrinhos e cinema. São completamente diferentes. Mas Zack Snyder não é um autor. Ele é fã. É capaz de fazer filmes que os nerds pediram a Deus sem os caprichos de um diretor de verdade, que estaria preocupado, antes de mais nada, em entregar um filme. Não uma HQ filmada. Então, WATCHMEN, o filme, é bom ou ruim? Depende de como você vê o cinema, a arte em si. E, para mim, isso não é cinema.

Abs!

moviesearch disse...

Eu vi o trailer uns 5 meses antes do filme estrear e não gostei nada, mas quando vi o trailer definitivo e a história e os personagens fiquei em pulgas para ir ver o filme, e também tinha ouvido críticas mito boas. Eu vou ao cinema todas as sextas feiras com os meus amigos e disselhes que quería ir ver o filme (porque um filme destes tem que ser visto no cinema), mas eles disseram que devia ser uma porcaria e não quere ir ver. Mas já me obrigaram ir ver o "Sexta-feira 13" que eu odiei e eles também. Mas quero muito ver o filme. (grande post, bom trabalho)
abraço ;)