
Fiquei um tempo pensando sobre como falaria deste filme. Poderia tomar diversas visões, pessoal, política, cinéfila, defendendo ou acusando determinados pontos. Como o Cinefilando é um blog sobre cinema, e Milk - A Voz da Igualdade é um de nossos últimos posts sobre os filmes do Oscar 2009, resolvi por falar da obra como cinema. Mas claro, vou ter que dar meus palpites políticos, especialmente porque o filme não tinha como ser mais atual.
A vida de Harvey Milk já havia virado um documentário, em 84 (vencedor do Oscar de melhor documentário, inclusive), antes de virar este filme político nas mãos de Gus Van Sant. O diretor está longe de ser um dos meus favoritos, possui uma cinematografia bastante característica, com alguns filmes experimentais como Elefante e Paranoid Park. Não me agrada. Mas em Milk, Van Sant dá abertura ao seu lado engajado. Dustin Lance Black cria um roteiro extremamente denso e político, pouco abordando do passado de Harvey ou a história de diversos personagens. O que ele centra é o momento histórico de meados dos anos 70, a briga pela possibilidade de existir freqüentadores gays na rua Castro, e como Harvey Milk abre mão de sua vida particular, de seu armário, para virar um ativista.
O caráter político do filme é ainda mais acentuado pelo tom documental da obra, que mistura imagens reais do período (inclusive daquela mulher que se une aos pastores ao agredir oralmente os homossexuais). Mas este ar documental torna-se ainda mais incrível se pensarmos que Milk - A Voz da Igualdade conta com o mais excelente elenco de 2008. Sean Penn brilha na melhor atuação de sua carreira (sim, melhor ainda do que I am Sam, e estou totalmente de acordo com o seu Oscar) como Harvey Milk, enquanto Jos Brolin (que está no segundo ano mais significativo de sua carreira) transforma Dan White em um personagem complexo, tridimensional, ao contrário de cair na simples vilania. E todo o elenco secundário segue com competência exemplar, entre eles James Franco, extremamente sensível, Emile Hirsch e Diego Luna.
Mas agora a discussão política. Não levantarei acusações (que eu bem poderia fazer, e baseado em provas), mas alguém aqui já ouviu falar na PLC 122 ou na Proposition 8??? Vamos por partes.
A PLC 122 é um projeto de lei proposto por Iara Bernadi, em 2001, que de acordo com o qual a discriminação contra homossexuais será considerado crime. Não vou falar da posição que determinados partidos ou políticos importantes têm em relação ao projeto, agora cada um - se se interessar - que pesquise sobre o assunto. Mas resumindo uma parte interessante da trama, a câmara dos deputados e o senado pegaram fogo. O projeto só foi aprovado pela câmara em 2006, e agora causa escândalo no Senado. Um dos maiores motivos são os representantes evangélicos, que se sentem agredidos pela lei, uma vez que em seus cultos eles não poderiam se manifestar contra a homossexualidade. A guerra ainda está em andamento e o projeto vem se postergando. Obviedade em questão? Tanto o público gls quanto o público evangélico são grandes demais para serem contrariados. Perde-se muitos votos. Solução? Sim, o exato meio fio do muro. Todos fingem que nem viram, isso quando não tomam uma posição para voltar atrás em seguida (né, senhor presidente?).
Já a Proposition 8 ocorreu nas eleições de 2008 na Califórnia. A pergunta é se se deveria limitar o conceito de "casamento" à casais de sexos diferentes ou se o termo legal seria abrangente para casais do mesmo sexo. O final todos já sabem, ganhou que o casamento só pode ocorrer entre casais formados por um homem e uma mulher, assim como Adão e Eva, claro.
É nisso que Milk - A Voz da Igualdade atinge em cheio. Uma trama dos anos 70 que serve como uma ferramenta política pesadíssima para o presente. Que o discurso de Sean Penn e do roteirista Dustin Lance Black no Oscar não deixem dúvidas. E será que já houve alguma reação? Na entrada do Academy Awards 2009 havia protestantes religiosos que atacavam o filme e os envolvidos com ele, inclusive havia uma placa HEATH LEDGER BURN IN HELL (referência óbvia ao seu papel gay em O Segredo de Brokeback Mountain). Aqui, o dublador corriqueiro de Sean Penn se recusou a dublar o filme Milk, por ser evangélico.
Em épocas de Yes we can! o filme faz uma pergunta pesada. Can we?
E a resposta atual é negativa.
Nota: 9,5
10 comentários:
Bela crítica, Tiago.
Sabia que tinha rolado umas tretas com o papel do Heath Ledger quando fez Brokeback Mountain, mas não sabia que esses xaropes foram na porta do Kodak Theater fazer isso. Cambada de desocupados.
Quanto à dublagem do personagem, também achei ridícula a atitude do dublador, mostrando abertamente o seu preconceito. Porém, por comentários que li por aí, o filme do Gus Van Sant instigou diversos gays para saírem fazendo passeatas e protestos. Ainda não vi o filme, mas quero muito ver, principalmente pelo elenco e pelo oscar do não menos brilhante Sean Penn.
Que bom ver que vc gostou bastante de Milk. Gostei muito também e não entendo pq algumas pessoas criticaram severamente o filme.
O filme é maravilhoso mesmo, um dos melhores do ano. Fiquei extremamente chateado com esses protestos no Oscar, realmente esse povo não tem o que fazer... (e o dublador segue a mesma linha).
Cara, sou fã do Penn e do Van Sant, e da safra do Oscar Milk é o filme que mais quero ver ...
Sobre as discussões políticas envolvendo os direitos dos homossexuais, confesso que às vezes me assusto com o mundo preconceituoso em que vivemos. Para citar um exemplo, no ano passado na minha cidade, nas eleições para a prefeitura, a candidata que tava liderando as pesquisas, que tava fazendo a melhor campanha e que tinha tudo para ganhar, foi derrotada pq seu adversário abraçou o público evangélico com o discurso de que ela era lésbica, que não tinha uma família constituída e tal ... ela foi colocada como uma candidata demoníaca, cheguei a ouvir pessoas dizendo que ela transformaria nossa cidade em Sodoma e Gomorra ... rsrsrs. Bizarro! Por isso a atualidade de filmes como Milk e Brokeback Mountain ...
Gostei de ler a ponte que você faz entre o filme e alguns dos assuntos importantes relacionados à questão gay, especialmente nos Estados Unidos. É muito chato ver que Harvey Milk abriu todo um precedente e que, hoje em dia, teve toda uma regressão no que diz respeito aos direitos dos gays, à voz que eles têm, o direito que eles têm de ser ouvidos.
É justamente por isso que "Milk" tem uma mensagem que se torna importante de ser passada!
Bom final de semana
Ótimo texto, e ainda levantou estas desnorteantes questões atuais que são desconcertantes. Pretendo ver o filme em breve.
Ciao!
a crítica ficou boa.
e o assunto do filme é bastante relevante nos dias atuais.
abs, pessoal.
:P
Ti, apesar de discordar de quase tudo, acerca do filme, seu texto é brilhante!!!!!!!!!!!!!!!
Abs!
ADOREI o filme, não tenho absolutamente nada a criticar - é um conjunto forte de direção, roteiro e elenco (e com isso em sintonia, o que pode dar errado?).
Um abraço!!!
E nem me fale que fizeram isto com o Ledger! Jesus meu, que absurdo! E sobre este homem que não quis dublar o Penn (ai!), acho que alguns evangélicos deveriam deixar de ser tão preconceituosos!
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