sábado, 24 de janeiro de 2009

Mas ele não tinha dito que ia encerrar sua fase "cortina vermelha"? Austrália.



Sete anos atrás Baz Luhrmann ressucitava um gênero que estava há trinta anos no limbo: os musicais. Quando ninguém achava plausível um ser começar a cantar seus sentimentos, Luhrmann surge histérico, hiperativo, berrante. Uma injeção de adrenalina em algo praticamente morto. Como "musical" já é um gênero que por si só quebra a realidade (sem ser fantasia), os exageros, o campy e o kitsch eram muito bem vindos. Foi um auê. E o filme Moulin Rouge! virou, em questão de dias, um dos meus favoritos de todos os tempos. Dá para se entender a expectativa de tantos anos quando Baz voltaria em cena, novamente com Nicole Kidman, "homenageando" outro gênero tão querido de Hollywood (que até então seria apenas o romance de guerra).


Independente das minhas expectativas, é inegável que Austrália é, no mínimo, bagunçado. Começamos o filme de uma maneira desastrosa, que em questão de 15 minutos me fez acreditar que seria um dos piores do ano: personagens estereotipados, Kidman dando berrinhos, uma narração insuportável. Eu me recusava que Austrália, que eu tanto aguardei, era aquilo. Mas aí tudo muda, e entramos em uma inferior versão de Entre Dois Amores, com praticamente todos os grandes pontos daquela trama: a mulher deslocada tocando a fazenda, o bruto "nativo" solitário e sedutor, o marido ausente (ou inexistente), a amizade que vai se transformando. Aqui foi um dos únicos momentos que o filme parecia seguir um rumo mais sóbrio. Mas então tudo se transforma de novo, e começa a guerra. E aí surge um bizarro Pearl Harbor australiano.


Mas indo por pontos, tudo neste filme parece ser afetado pelas escolhas de Luhrmann. Só há uma pessoa que é ruim por si só: o incompetente David Wenham (o Faramir de O Senhor dos Anéis) que simplesmente não convence por um minuto sequer. E o roteiro que força a situação ao torná-lo pai de Nullah, também não coopera.


Kidman tem uma performance inconstante. Começa com o caricato, aos poucos se torna uma mulher forte, e no final volta ao melodramático. Jackman, por outro lado, se favorece com sua pouca obrigação. Um ator extremamente talentoso no teatro, ele sempre é abusado no cinema por sua beleza física. Aqui ele é o macho sedutor, então tudo que faz é alguns olhares desconcertantes e um banho logo no começo do filme. Mas pelo menos tem carisma para segurar seu personagem.


Inconstância na trama, inconstância nas atuações. Isso se deve a Luhrmann. Ele tentou criar em Austrália um espetáculo visto em seus filmes anteriores. Mas aqui era o lugar errado. Ele teve grandes chances nas mãos de fazer aquilo que poderia ser um dos melhores filmes deste ano, se soubesse ser contido, exato, sensível, abandonando seu lado "cortina vermelha" que ele disse que tinha encerrado. Entendam, não há nada de errado com essa abordagem, desde que dedicada ao filme certo. Foi certo com Moulin Rouge!, mas foi errado aqui.


Mas que também fique claro, que Austrália tem sim suas qualidades, especialmente as estéticas (uma tremenda injustiça a direção de arte não ser indicada), e só Jackman já me faz ter vontade de ver o filme de novo e tê-lo em dvd. Também achei uma sacada inteligente, e linda, a utilização da canção Somewhere Over the Rainbow ao longo do filme.


Resultado? Para a turminha adolescente, a partir de uns 14 anos, que estão acostumadas com o cinema pipoca, Austrália sem dúvidas terá uma legião de fãs, assim como Pearl Harbor teve. Mas aqueles que já assistiram a Entre Dois Amores, ...E O Vento Levou, Casablanca, entre outros, saberá que Austrália poderia ter sido uma obra-prima. Mas passou bem longe.


Nota: 6,5

8 comentários:

Vinícius P. disse...

É uma pena que "Austrália" não conquistou quase nenhum dos blogueiros, foram raros os comentários positivos. Espero que seja um bom filme pelo menos quanto à técnica.

Kau Oliveira disse...

Ti, acho o roteiro pior que a direção. Me senti num filme infantil com aquela narração inicial, juro! Nicole? Achei hilário os gritinhos e ataques dela. Gostei da sua atuação, mas naaaada de incrível (daria um 6,0 pra moça rsrsrs). Hugh? Bem legal =p

Me irritou bastante a menção à O Mágico de Oz quase que o tempo todo a partir da metade. No geral, o filme é gostoso de assistir vai... rsrsrsrsrs

Queria conversar com vc depois...

Abraços!

Sérgio Déda disse...

Ia assistir sexta, mas como não estou tão animado assim, nem fui conferir, talvez amanhã.

Abraços!

Kamila disse...

Tiago, assim como Kau, achei também o roteiro pior que a direção. O filme mais me deu sono do que despertou interesse na história. Você foi perfeito ao dizer que "Austrália" tem inconstância na história e nas atuações. O único que se salvou, para mim, foi o David Wenham!

Wally disse...

Quase ninguém gostou do filme, e mesmo quem gostou, como você, reconhece que é cheio de falhas. Quero ver ele em breve, mas já com o pé atrás.

Ciao!

Alyson Xyzyx disse...

Em alguns filmes a divulgação ajuda, mas já em outros aumenta ainda mais a decepção com algum trabalho. Parece que isso ocorre em Austrália. Parece ser daqueles que vendem ouro, mas na verdade é bronze. Ou nem isso?

Abraços, Tiago.

Yuri Dias disse...

Até agora não vi comentários positivos do filme, mas ainda assim quero ver.

Uma pena, já que o filme parecia vir forte para os prêmios e público.

Ibertson Medeiros disse...

Quero ver esse filme, sem muita espectativa. Gostei do trailer.