terça-feira, 22 de julho de 2008

A coragem de pisar em brasas e jogar lenha na fogueira: Chicago

Continuando com nossa nova sessão Cine Review, para filmes que não são lançamentos mas que nos marcaram e gostaríamos de falar sobre, escolhi Chicago para levantar alguns pontos importantes desta obra subestimada pelo público. Apesar da minha inegável preferência por As Horas naquele ano, sempre digo aos quatro ventos que Chicago é um dos melhores filmes a ganhar o Oscar principal nos últimos anos. E agora pretendo explicar a razão.

Rob Marshall recebeu um desafio. Não, não quero apenas enaltecer a obra original e sua complexidade (o que também é fato), mas se analisarmos o cenário do cinema americano no início dos anos 2000, fazer um musical era quase um suicídio. Moulin Rouge abrira sim as portas, servindo quase como um alvará para a realização de Chicago, mas ainda assim não era garantia de sucesso para o gênero, afinal, uma única obra poderia ser exceção à regra. Rob Marshall lidava com inúmeros desafios em sua mão, e a maneira que ele conseguiu vencer todos eles é louvável.

O primeiro desafio já expliquei, é o pânico preconceituoso que havia em cima do gênero. Mas não é só isso. Marshall sabia que Chicago remetia instantaneamente ao imortalizado diretor e coreógrafo Bob Fosse. Apesar de não ser o autor das músicas ou letras, não há dúvida que é Bob Fosse quem dá vida a qualquer obra que ele põe a mão. Marshall, em uma feliz escolha, compromete-se mais com o já falecido diretor do que com a obra em si, e Chicago transforma-se, então, em uma bela homenagem.

Qualquer um que assistir Cabaret, All That Jazz - O Show Deve Continuar e Chicago em um curto intervalo de tempo, percebe que o terceiro é diferente dos dois primeiros, mas há uma nítida impressão de "influência". Certas escolhas de Marshall, inclusive algumas muito criticadas, resultam disso. Muitos compreendem que a opção por limitar todos os números musicais a um palco teatral invisível foi um grande erro e uma incapacidade de Marshall. Bobeira, como disse, aluguem estes dois filmes (conceituadíssimos, o primeiro ganhou 8 Oscars, enquanto o segundo foi palma de ouro em Cannes) e vejam que os números musicais são sim em palcos. Outros inúmeros detalhes como coreografias, leques, danças atrás de uma cortina, enfim, tudo referências àquele gênio dos musicais.

Seguindo com nosso filme, Marshall sabe da improbabilidade de um musical moderno, e toma atitudes quase emergenciais. Corta personagens, canções, compacta e dá dinâmica ao enredo, e justifica os números musicais, numa tentativa de diminuir as estranhezas, como imaginação de Roxie Hart. Pensar no tanto que ele pisou em brasas e o patamar que o filme conseguiu atingir, é compreender que seu trabalho, no final das contas, não foi em vão.

O elenco nunca atinge um nível baixo, mas Renée Zellweger de fato possui pouco carisma para seu personagem, assim como visíveis limitações vocais. O mesmo pode se dizer sobre Richard Gere, mas ambos se esforçam. Mas, em uma elevação considerável de qualidade, o elenco estraçalha quando entram em cena os outros atores principais. O apagadinho John C. Reilly brilha num papel de... apagadinho! Tendo a única canção verdadeiramente triste do musical, ele sustenta muito bem seu personagem. Queen Latifah faz uma deliciosa Morton, e com uma voz arrebatadora (pudera, ela era cantora profissional)! Há, inclusive, uma pequena participação de uma grande dama dos palcos musicais: Chita Rivera. Mas o destaque mesmo do elenco fica para esta exuberante mulher da foto acima. Catherine Zeta-Jones tem sua melhor atuação (até agora) neste filme. Extremamente sedutora, corrupta, deliciosamente sarcástica, ela interpreta uma Velma Kelly definitiva, surpreendente, e sua rouca voz é o que há de mais delicioso neste musical.

A parte técnica do filme é excelente. Demorou para eu apreciar sua fotografia, mas há uma genialidade o uso de luzes (novamente numa influência clara de Bob Fosse) para criar situações. A edição também é extremamente inventiva, e tem seu ápice na primeira cena do filme (All That Jazz) no encadeamento dos eventos que aconteciam com Velma e com Roxie. A direção de arte é extremamente teatral, o que nos reforça o tempo todo a origem do filme. E a mixagem de som é a melhor feita em um musical dessa nova leva. É o único filme que em todas as cenas cantadas, é difícil acreditar que eles não estão cantando ali na nossa frente. Perfeita! Só há uma reclamação a se fazer. As deliciosas e marcantes coreografias se perderam no filme, que tem apenas um grande momento neste quesito (Cell Block Tango). Apesar de alguns outros momentos inspirados, como When You're Good to Mamma e All That Jazz, a coreografia estonteante da peça realmente se perdeu.

O roteiro segue muito bem. Padece com alguns cortes, mas só quem é fã da peça entende isso. A crítica ácida aos maus costumes da sociedade midiática, doida por um escândalo e extremamente hipócrita em seu senso de justiça continua ali, bem marcante. Em uma comédia satírica, com alguns momentos de humor negro, vemos espelhado ali, numa trama que se passa nos anos 20, inconfundíveis condições de nossa sociedade. Razzle-Dazzle!

Como conclusão só posso dizer que Chicago é um musical marcante, não deve em nada para os grandes clássicos musicais de antigamente, assim como - junto com Moulin Rouge - é o responsável por jogar lenha na fogueira do gênero. Rob Marshall, aguardo ansiosamente o seu Nine! Até lá! And all that jazz!

Nota: 9,5

Chicago, MUSICAL, EUA, 2002. Dir: Rob Marshall. Com: Renée Zellweger, Richard Gere, Catherine Zeta-Jones, John C. Reilly, Christiane Baranski, Luci Lyu, Taye Diggs e Chita Rivera.

7 comentários:

Tiago Marin disse...

PS: vão me chamar de fanzóide, mas All That Jazz é o toque do meu celular rs...

Kau Oliveira disse...

Ok, then...
Antes de assistir ao musical original, da Broadway, eu detestava o filme. Detestava o roteiro, a direção e principalmente Richard Gere.

Tudo mudou depois que assisti ao magnífico musical Chicago (Broadway): cenário simples, figurino simples, elenco excelente, coreografias impressionantes! Logo depois fui rever o filme e tive uma surpresa: foi extremamente bem adaptado e a direção de Marshall é muito consciente e segura. Consciente? Sim, pois ele tinha que saber o quão perfeito era a obra original. E neste filme, a equipe técnica é formada por duas pessoas das quais sou muito fã: Colleen Atwood e Dion Beebe.

O elenco do filme não é tão perfeito quanto o do musical original. Acredito que Catherine tenha composto a melhor Velma já vista, no doubt. Renée é muito ruim mesmo... a teria tirado do elenco facílimo! Minha queridíssima Queen Latifah vai melhor que a Mama da peça e Richard Gere, o qual eu chamava de canastrão, esteve muito bem; uma vez que seu personagem era um canastrão.

Ahh, eu aprendi a gostar deste filme, mas como disse Tiago, não bate a perfeição de As Horas.

cinefilapornatureza disse...

Se "Moulin Rouge!" é um musical mais moderno, "Chicago" é justamente aquilo que considero um musical mais clássico. Acho o trabalho do Rob Marshall sensacional e a Catherine Zeta-Jones, para mim, é a dona do filme!

Mas, confesso que também tinha a preferência pessoal por "As Horas" naquele ano.

Pedro Henrique disse...

O filme é bom, mas tu é fanzóide sim!!!

Abraço!!!

Kau Oliveira disse...

Kami, não sei. Tanto Chicago quanto Mouling Rouge! são ousados no que propõem. Chicago com a sua montagem brilhante misturando sonho e realidade; Moulin Rouge! com aquelas cores, maquiagem, figurinos... tudo muito ousado e original.

Nespoli disse...

Eu seguindo o preconceito da época relutei muito para ver Moulin Rouge e me surpreendi, gostei muito. Depois surgiu Chicago, e todos estavam falando bem, MUITO bem, fui com muitas espectativas e caí do cavalo... Um belo filme, mas infelizmente eu esperava mais...

Nespoli disse...

Eu seguindo o preconceito da época relutei muito para ver Moulin Rouge e me surpreendi, gostei muito. Depois surgiu Chicago, e todos estavam falando bem, MUITO bem, fui com muitas espectativas e caí do cavalo... Um belo filme, mas infelizmente eu esperava mais...