sábado, 21 de janeiro de 2012

Agora nos Cinemas: A Separação



Nas tradições mais ortodoxas e paternalistas do islamismo, a separação de um casal não é bem vista muito menos facilitada pela sociedade. Assim, é de se destacar que Nader (Peyman Moadi, excelente) reage com notável honra e humanismo, ainda que contrariado com a decisão de sua esposa Simin (Leila Hatami). Buscando se adaptar a nova rotina, ele contrata uma empregada, Razieh (Sareh Bayat, espetacular), para que alguém possa cuidar de seu pai com Alzheimer enquanto ele se encontra no serviço, junção que moverá todas as engrenagens de uma desafiadora trama. Engana-se aquele que pensar que A Separação é um filme iraniano com a finalidade de ressaltar as diferenças da cultura islâmica perante um assunto relativamente comum no Ocidente. Indo muito além, A Separação é um excelente estudo de personagens que se desenvolve a partir de eventos, ocorrências e acidentes cotidianos que se desenvolvem geometricamente, tomando proporções inesperadas. Revelar muito mais sobre a sinopse é infeliz, especialmente porque o resumo jamais fará altura ao que espera o espectador.

Em seu primeiro filme desde A Procura de Elly, o diretor e roteirista Asghar Farhadi nos traz um pouco de ecos de Mike Nichols ou da tensão tipicamente européia quando eles resolvem desvelar o que há por trás das aparências nas relações interumanas. Contudo, o foco aqui é menos os relacionamentos desgastados, e mais a responsabilidade que tomamos quando lidamos com um próximo, seja ele quem for, e os limites que impomos àqueles que nos agridem. Construindo um filme absurdamente tenso, que prende o fôlego do espectador em todos os momentos da projeção, é gratificante ressaltar que este feito é alcançado por nada além de um texto escrito com maestria e cinco atuações marcantes – completando o trio anteriormente apresentado, temos Sarina Farhadi como filha do casal e Shahab Hosseini, interpretando Hodjat, marido de Razieh. A força texto/atuação é tão presente e palpável que não é difícil imaginar aquela encenação em algum palco, ainda que o roteiro tenha sido escrito diretamente para o filme.

Contudo, evidentemente a narrativa é contextualizada por uma cultura específica, e alguns momentos cruciais do filme são desenvolvidos levando-se em consideração tais especificidades (digam-me, em qual cultura ocidental existe tamanha devoção honesta a uma escrita sagrada capaz de se impor num momento de impasse ético decisivo como o que ocorre nos momentos finais do filme?), mas ainda assim, isso parece pouco importar ao filme. Não é a distância que se busca, ao contrário, é a comunhão: islâmicos ou não, todos os personagens parecem nos questionar incessantemente quais seriam nossas atitudes em suas peles. Lidando com assuntos relativamente sensíveis, é louvável que o filme em momento nenhum se renda a algum maniqueísmo desinteressante ou incoerente com o restante de seu conteúdo: ao contrário, os caminhos percorridos por cada personagem mostram-se amplamente complexos, e corrói o expectador com a dúvida, em todos os momentos (algo que, aparentemente, John Patrick Shanley tentou sem sucesso com seu Dúvida).

Fincando-se como o atual favorito ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira (e este troféu só não será seu caso uma surpresa muito desagradável ocorra), o filme sofre sim nas mãos de um bairrismo hollywoodiano. Em um mundo justo, o filme seria tranquilamente indicado nas categorias de melhor roteiro original, melhor ator (Moadi), melhor atriz (Bayat) e melhor ator coadjuvante (Hosseini). Já que tal mundo não existe, espero que suas múltiplas indicações e vitórias em prêmios de destaque internacional (iniciado no sucesso absoluto durante o Festival Internacional de Berlim, em 2011) sirva para que, ao menos, o filme alcance um público maior do que o previsto. Também não posso deixar de me queixar sobre o fato que toda publicidade do filme destaca excessivamente Simin (Hatami), sendo que esta é a personagem menos interessante do quinteto.

Nota: 10,0.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Agora nos Cinemas: Cavalo de Guerra



Coube ao homem urbano atual, no lugar de alguma opção melhor para o destino de seu afeto, ser fielmente apegado aos animais mais caros e próximos, aqueles que nos obedecem, gracejam e amam cotidianamente. Com isso, inúmeros filmes exploram este profundo sentimento humano com seus filmes sobre baleias, cachorros, golfinhos, e sinto falta de uma calorosa e incompreendida jibóia nesta lista. Reza lenda que este sentimento está fincado em nosso passado, remoto ou não, da relação dos índios, egípcios, romanos e a natureza. E muito provavelmente no homem rural, que tinha seu labor apoiado em seus fiéis companheiros, como os cavalos. Pois bem, Cavalo de Guerra é a declaração de amor do Spielberg pelas fazendas que tem ou deveria ter.

Baseado em uma peça teatral (não, não estamos falando de Equus), o filme gira em torno de Albert (o inexpressivo e sem carisma algum Jeremy Irvine) e sua amizade com Joey, um cavalo comprado por seu pai a altos custos, desde potro, para ajudar com os afazeres de uma fazenda que ruma à falência. Por motivos alheios à vontade do garoto, o cavalo é vendido a um oficial do exército inglês durante a primeira guerra mundial, e o que vemos, em seguida, é a busca deste apaixonado pelo objeto de seu desejo. Talvez alguns percebam aí um filme sobre amor ou amizade.

Há outros que, por outro lado, se questionam na cadeira do cinema os motivos que levaram a seqüência de Austrália não ter nem Nicole Kidman nem Hugh Jackman no elenco. Comparação esdrúxula por comparação esdrúxula, não me parece errôneo o comentário que relacione o caráter episódico de Cavalo de Guerra com o mesmo estilo adotado em Cold Mountain, contudo, se no filme de Minghella as tramas agregadas acrescentavam um mínimo de impacto à narrativa (não se esqueçam que com pouco mais de dez minutos em cena, Natalie Portman era o verdadeiro destaque do filme), no filme de Spielberg, cada novo episódio parece mais sem razão de ser do que o anterior.  Contudo, apesar da falha estrutural, o filme esconde sua longuíssima duração em doses equilibradas de melodrama e momentos verdadeiramente interessantes.

A saber, a divisão é muito simples: tudo que envolve os humanos (exceto, talvez, a família de Albert, com tocantes interpretações de Peter Mullan e Emily Watson) é extremamente enfadonho e apelativo – ainda que tenha um ou outro momento interessante (como os eventos em um moinho). Já tudo aquilo que envolve o cavalo é simplesmente arrebatador. Spielberg foi um excelente e inenarrável diretor de elenco com seu animal (provavelmente interpretado por mais de um, e alguns digitais) – não há cena de Joey que não nos provoque alguma reação ou emoção, e o equino sustenta com classe e honra o filme. Hábil diretor de cenas de guerra (contudo, registra-se que nem mesmo em Soldado Ryan Spielberg sobre dosar corretamente guerra e tédio), os momentos de batalha são mais maquiados (sendo um filme família, evita-se o sangue a qualquer custo), mas ainda assim tensos e convincentes. Desta maneira, o momento mais marcante da película é na loucura de Joey, quando este foge por trincheiras em determinado momento (ignorando-se as conseqüências supérfluas da cena, há de se concordar que nenhum ser humano é passível de assisti-la sem reação alguma).

Contudo, Spielberg está invariavelmente deslocado no tempo, assim como brega e apelativo. Se não nos bastasse a vergonha alheia por um inexplicável leilão nos encerramentos da narrativa, como então encarar as fotografias finais sem imaginar Albert arrancando um pedaço de cenoura da terra e entregando ao cavalo enquanto diz “Jamais passaremos fome de novo”?

Deseja-se que a biografia de Lincoln, atual pré-favorito ao Oscar 2013, tenha destino melhor.

Nota: 5,0.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Agora nos Cinemas: Precisamos falar sobre o Kevin



Eva Katchadourian é uma mulher claramente em desespero. Morando em uma casa desestruturada, encarando sua depressão com álcool e pílulas e aceitando um subemprego ante a sua grande capacidade, ela vive soterrada pelo labirinto emocional da culpa. Perseguida pela população de sua cidade, que a agride fisicamente e vandaliza sua casa, Eva é a mãe de um atirador que matou seus colegas de colegial – Kevin. Não se preocupem sobre algum possível spoiler, estes são apenas os dez minutos iniciais da projeção.

Não conheço a obra original de Lionel Shriver, apenas tenho a intuição de se tratar de uma obra alternativa de boa qualidade, pelo estilo de meus poucos amigos que comentaram enfaticamente sobre o livro. Também fiquei sabendo que a estrutura do livro é através de cartas através da qual a mãe tenta expurgar suas dores e culpas. Já a diretora Linney Ramsey aposta em diferente estrutura: vemos cortes abruptos entre o presente da mãe e sua dificuldade em voltar a fazer parte do mundo no qual sempre viveu, e o passado de uma família, desde os pais se conhecendo, até o desenvolvimento infantojuvenil de Kevin e sua pequena irmã. Já devo deixar claro o elogio às escolhas estilísticas da diretora – ainda que nada sutis, o abuso da cor vermelha e da sobreposição entre mãe e filho em alguns momentos, além de inúmeros jogos de luzes e perda de focos faz com que o filme nos perturbe gradativamente. Sua arriscada opção por nos entregar aspectos do clímax violento que chegará no final da projeção também se mostra acertada, apesar de ousada: mesmo sabendo o que aconteceu, ficamos atônitos ante as imagens (nem tão gráficas) que surgirão.

A divisão estrutural da narrativa também já permite o link com a principal qualidade do filme: Tilda Swinton tem aqui o ponto mais alto e sua carreira. Atriz que nunca me conquistou por completo (apesar de ser apaixonado por sua participação em Queime Depois de Ler – junto com todo este elenco) consegue com este filme a proeza de nos deixar sem conseguirmos imaginar quem pudesse fazer o papel de Eva se não ela. Seu rosto magnético ainda que estranho é tão essencial ao filme quanto sua desorientação e enganadora frieza agregadas ao papel com maestria.

Contudo, quando chegamos a Kevin, o filme começa aos poucos a perder sua força. Não por falta de talento do elenco – tanto Ezra Miller (adolescente) quanto Rock Duer (mais ou menos 3 anos) defendem seu personagem de maneira extremamente competente, mas ainda assim Jasper Newell (6-8 anos) consegue se sobrepor aos anteriores. Contudo, o que sobra de elenco, falta de conteúdo. Peço desculpas sobre o trocadilho, mas o filme não nos diz nada sobre Kevin, e este não passa da encarnação demoníaca da perversidade natural. Este ponto do filme – crucial para a apreciação do mesmo – é tão inconseqüente que não foram poucas as vezes que tive a impressão de estar assistindo a “O Anjo Malvado” (The Good Son, 1993) em uma versão para adultos sádicos. Seus motivos, angústias e dores nunca transparecem na tela, e o personagem não é nada além do ódio inexplicável estampado em seu rosto desde muito pequeno. O extermínio em massa nas escolas é um problema endêmico – e, até o início da década passada, exclusivo – à sociedade norteamericana, contudo o filme em momento algum se pretende a alguma discussão social sobre o tema.

Por fim, é válido ressaltar que apesar de não ser tão bom quanto alguns críticos disseram, o filme é mesmo tão perturbador e repelente quanto dizem. Fazendo questão de ser cruel em cada detalhe, sobrou para a leveza Franklin (John C. Reily, o pai) soar como uma distância facilitada pela cegueira, e a doçura de Celia (Ashley Gerasimovich, a irmã caçula) ser dilacerada pelos momentos mais incômodos do filme. E diante de tantas indisposições, não deixa de ser importante comentar que mesmo uma resposta inesperada dada em uma comemoração de fim de ano consegue ter o poder de se fincar como um dos momentos mais repulsivos da projeção.

Sugerindo um desfecho que deixará os mais imediatistas revoltados e os interpretativos um tanto desnorteados, Precisamos falar sobre o Kevin é um filme que dificilmente conseguirá adoração de um grande público, contudo, apesar de seus incômodos defeitos, merece ser reconhecido pelo excesso de coragem em sua crueza e estilo.

Nota: 6,5

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Feliz Ano Novo:D

Bem gente, passando aqui pra me despedir temporariamente de todos, pois amanhã de manhã estou indo pra Lagoa, que é onde veraneio, e ficarei lá durante uns 15 dias (sendo que lá não tem internet).
Então desejo a todos vocês um Feliz Ano Novo e que 2012 seja ainda mais glorioso que este ano que passou:)
Mil bjus, vivi

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Videocast: Indicados ao Globo de Ouro 2012- melhor trilha sonora e melhor canção


minha opinião sobre os indicados a melhor trilha e melhor canção ao Globo de Ouro 2012...espero que gostemmmm!
Um ótimo natal e ano novo a todossssss,
vivi

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Cinema Musical: A trilha sonora de The Artist


Enfim irei discorrer sobre aquele que é considerado por muitos o já franco favorito para o Oscar de Melhor Trilha sonora deste ano: O Artista, do francês Ludovic Bource.

Bource é um compositor francês que começou sua carreira compondo para comerciais do grande amigo Michel Hazanavicius. Desde então ele vem colaborando com o diretor, nos longas Agente117 e Agente 117 – Missão Rio, duas comédias que seriam uma espécie deAustin Powers francês. Agora, ele mais uma vez compõe para uma obra do diretor, que é este filme em preto e branco e mudo que homenageia os clássicos de Hollywood das décadas de 1920 e 1930, e que já é um dos queridinhos do ano. E a trilha é realmente muito bonita.

São 24 faixas que embalam o romance do ator de sucesso (interpretado por Jean Dujardin, sendo que o filme foi feito especialmente para ele) que se apaixona por uma novata (Berenice Bejo) em meio à mudança dos filmes mudos para os filmes falados. Uma obra extremamente especial que necessitava de uma trilha à altura – algo que ocorre aqui.

“The Artist Ouverture” é uma breve faixa que deixa qualquer um com lagrima nos olhos, ao ter uma melodia saudosista e etérea que homenageia as trilhas do início da história do cinema. Segue-se então com “1927 A Russian Affair”, que é melodramática e abusa das cordas e de um ritmo acelerado que dá ares de aventura à faixa. Já “George Valentin” é o tema adorável do protagonista que lembra os musicais da época, uma faixa muito charmosa que ganha um toque adocicado pela mistura da lira com o piano. Em contrapartida “Pretty Peppy” é o tema da mocinha da história, cheio de violinos, lampejos, romances e prosa em melodia.

“At The Kinograph Studios” é outra faixa graciosa, que traz o passado ao presente de modo muito romântico e suave. “Fantaisie D´amour” é divertida e inteligente, mais uma vez seguindo esta linha mais lúdica da trilha. “Waltz for Peppy” - emotiva, inteligente, única e simplesmente adorável – é provavelmente a grande faixa do score e talvez a grande faixa do ano de uma trilha sonora. Depois tem-se a utilização de uma peça do compositor erudito argentino Alberto Ginastera com a fantástica “Estância op.8”, e “Imagination” de Fud Livingston.

A trilha continua de alto nível com a poderosa “Silent Rumble”, a obscura (e dominada pelo oboé) “1929”, e a triste mas bela “In the Stairs”. Segue-se então “Jubilee Stomp” de Duke Ellington, e depois voltamos às faixas originais de Bource com “Commeune Rosée de Larmes”, que é toda executada ao piano e tem uma melodia poética e singela. “The Sound of Tears” mas uma vez traz o oboé em destaque, e a canção “Pennies of Heaven” de Johnny Burke traz as memórias do cinema adorável da Hollywood que não existe mais.

Outras faixas de destaque são “1931”, que é uma faixa que parece ter vida própria, “L’ombre des Flammes”, que lembra muito a trilha sonora do clássico Aurora de Murnau, a dramática e maravilhosa “My Suicide” e claro “Peppy and George”, que resume bem o espírito radiante do longa, no tema do casal principal.

Trata-se se aqui de uma trilha sonora inteligente, única e de grande valor. Seria digna de um Oscar e, mais do que isso, de colocar em Hollywood um compositor desconhecido aos americanos que ainda pode mostrar muito mais do seu potencial. Esse vai longe.

Número de estrelas: 5

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Agora nos cinemas: Um Dia

Baseado no best seller mundial escrito por David Nicholls (e adaptado às telonas por ele), o romance "Um dia" chegou esta semana aos nossos cinemas e demonstra ser uma grata surpresa (principalmente pelos criticos americanos terem sido tão duros com o filme) que é dirigido pela dinamarquesa Lone Scherfig, que ficou conhecida no circuito cinematográfico por ter dirigido e roteirizado o oscarizável "Educação" a dois anos atrás.
O filme conta a história de Emma (Anne Hathaway) e Dexter (Jim Sturgess) que ficam amigos no dia da formatura de ambos- ela tem uma queda por ele, ele é um bon vivant, e os dois acabam estabelecendo uma duradoura amizade onde sempre se encontram no dia 15 de julho de cada ano. O mais legal no filme é que ele vai mostrando o progresso na vida de cada um- o duro inicio de Emma para pagar as contas trabalhando em um restaurante mexicano (onde conhece Ian- Rafe Spall, que se apaixona por ela) e em contrapartida a facilidade com que Dexter, que é de familia rica, consegue transformar-se em um famoso apresentador de tv...e como as situações vão se invertendo ao longo dos anos entre um e outro.
Não dá pra contar muita coisa da história, pois existem elementos importantes que devem ser descobertos se assistindo o filme, mas devo informar que aqui trata-se de um romance dramático forte, e para os mais sensiveis, as lagrimas serão involuntárias. O casal principal está muito bem (reclamaram do sotaque de Anna mas mal se nota), e a trilha sonora de Rachel Portman mais uma vez é soberba (a melodia em si é simples mas extremamente tocante). A fotografia de Benoit Delhomme também é outro ponto de destaque e os coadjuvantes do filme (Rafe Spall, Patricia Clarkson, Romola Garai, Ken Stott, Jodie Whitaker) dão o charme necessário para o filme se tornar ainda mais especial.
É um belo longa, um dos melhores do gênero dos ultimos tempos. Vale a pena conferir e se emocionar.

Nota: 8,0

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Cinema Musical: A trilha sonora de My Week with Marilyn


Este foi mais um ano produtivo para Alexandre Desplat, que continua sendo o compositor queridinho de Hollywood. Aqui, em parceria com o seu fiel escudeiro Conrad Pope (que orquestra a maioria de seus trabalhos), Desplat e Pope entregam um ótimo trabalho, em um projeto super especial: a história de Marilyn Monroe nos bastidores do longa o qual ela contracenou com Laurence Olivier- “O príncipe encantado”.

Dirigido por Simon Curtis, o filme se baseia no livro de Colin Clark (que no filme é interpretado por Eddie Redmayne) que narra seu relacionamento com Marilyn Monroe (interpretada por Michelle Williams) enquanto esta gravava o filme com Laurence Olivier (feito por Kenneth Branagh). É então o ponto de vista de Colin sobre a diva, que tinha a dualidade como sua principal característica sendo ao mesmo tempo a mais sexy mas também a atriz mais frágil da época. Essa dualidade da personagem se transfere para sua trilha sonora que contem sensibilidade mas também muita energia.

A primeira faixa do score é “Marilyn´s theme” composta por Desplat, que é um belíssimo tema todo executado ao piano, muito emotivo e cuidadoso. Após, tem-se a versão de “When love goes wrong, nothin´ goes right & heat wave” onde Michelle Williams mostra poder nos vocais. Já “Colin runs off to the circus” assinada por Pope é radiante e enérgica, magnificamente executada por cordas. Em “Colin joins the circus/ Mr. Jacobs” Pope traz uma melodia deliciosa e poderosa e jazz, extremamente sexy e cheia de vida, bem como a curtinha “Driving through Pinewood” que soa como uma passagem alegre e graciosa. Depois ouve-se “Paparazzi” de Desplat, que executa com cordas o tema do filme de modo muito romântico e sensível, para no meio da faixa haver uma transformação no ritmo que leva o score à outro patamar. Em “Colin and Vivian”, temos o estilo de Desplat bem marcado (piano com cordas e harpas alternando-se). Tem-se então a versão remasterizada da canção “Memories are made of this”, e após a faixa “Rushes” de Desplat, melancólica e marcada pelo som do oboé que se destaca como instrumento principal aqui. “Lucy” de Pope, é muito bela e tem uma melodia no piano intensa mas também delicada.

Ouve-se então a canção “Uno, dos, três” e a faixa “Arthur and Marilyn” de Desplat, que é mais obscura. Temos o tema de volta em “Marilyn Alone”, mas a vida volta ao score com “Arthur´s notebook” de Pope, uma faixa extremamente bem composta e perfeitamente harmônica. Em “Vivian screens Marilyn” também de Pope, há uma doçura misturada à um sentimento de melancolia muito bem transposto através do piano. “The Getaway” de Desplat, é também outra faixa muito graciosa e muito suave, mais leve e divertida. Segue-se com a canção “You stepped out of a dream” e a faixa de Pope “Eton Schoolyard” marcada mais uma vez por um ritmo de jazz contagiante.

Destacam-se também “Overdose” de Pope, “Colin and Marilyn” de Desplat e “Remembering Marilyn” que traz o tema de volta com o piano e com as cordas, lembrando o estilo das trilhas de Henry Mancini para com os filmes de Audrey Hepburn. A trilha termina ainda com mais uma canção muito bem interpretada por Williams- “that old magic black” onde a atriz mais uma vez sai-se muito bem.

É uma trilha muito boa, que revela o talento de Conrad Pope, um compositor que eu só conhecia como orquestrador, mas que arrasa neste belo e singelo trabalho. Para ouvir e reouvir muitas vezes.

Numero de estrelas : 4

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Agora nos cinemas: Toda forma de amor

Este adorável filme dirigido por Mike Mills baseado em sua própria história, se revela como um dos mais inteligentes, originais, e peculiares do cinema atual. Com uma narrativa que foge dos convencionismos baratos e um elenco brilhante, esta comédia romântica já se estabelece como um dos grandes filmes do ano.

O filme conta, de forma aleatória, a história de Oliver (Ewan Mc Gregor), um cartunista que descobre a homossexualidade do pai Hal (Christopher Plummer), que recentemente perdeu a esposa de câncer (em um casamento que durou 45 anos). O pai, que também está com câncer, tem 75 anos e resolve aproveitar seus últimos momentos, inclusive arranjando um namorado que não é monogâmico (feito por Goran Visnic de modo bem competente). O fato mais curioso é Oliver descobrir que a mae sempre soube da homossexualidade do marido, pedindo o mesmo em casamento e prometendo à ele consertar o seu problema. De qualquer forma, Hal sempre foi fiel à esposa, apenas assumindo sua opção sexual após a morte da mesma. Em contrapartida, vemos em alguns flashbacks a infância de Oliver com a mãe, e partimos para os dias atuais, após a morte do pai, onde ele cuida do cãozinho Arthur que era de seu pai (e aqui temos uma lição de originalidade- Arthur conversa com Oliver, e vemos suas respostas através de legendas que dão um ar ainda mais criativo ao filme). Além disso Oliver se apaixona pela incrível Anna (Melanie Laurent), que vai ajuda-lo a superar seus medos e confusões.

Com uma trilha sonora soberba, e atuações magníficas, o filme dá ao lendário Christopher Plummer a chance de mostrar aquele que talvez é seu personagem mais humano e sensível, já que seu Hal embora seja alegre e espirituoso, também tem dificuldade de lidar com a doença, escondendo dos novos amigos por exemplo, o quão está doente. Já Melanie Laurent como sempre está ótima, em um papel que tem muito mais complexidades do que se aparenta ter. Mas é Ewan Mc Gregor que realmente me surpreendeu. Embora seja fã do ator desde a época em que ele fazia parcerias com Danny Boyle, nos últimos anos parecia-me que ele havia perdido o brilho como ator. Como eu estava enganada, pois aqui ele dá uma das melhores performances de sua carreira, fazendo um personagem que, embora introspectivo, seja extremamente aberto em suas emoções. Palmas também vão ao roteiro do diretor, que mistura estratégias a lá Amelie Poulain com uma historia que é sentimental mas também realista, de modo muito diferente com que estamos habituados a ver hoje no cinema atual, onde tudo se copia e há remakes por todo o lado.

É então um filme magnífico, bem feito, que merece ser conferido por sua competência e autenticidade, e que desde já coloca Christopher Plummer como o franco favorito (merecidamente) à melhor ator coadjuvante na corrida ao Oscar do ano que vem. Sensacional.

Nota: 10,0