
A Christmas Carol, de Charles Dickens, deve ser uma das obras mais adaptadas e readaptadas para todas as mídias que existe. Até a Turma da Mônica, ano sim ano não, no Natal, vem com alguma história dos três fantasmas. Por isso, apesar de amar imensamente o texto original, acreditei que mais uma versão para a trama era gratuito e desnecessário. Felizmente isso não passou de um mero preconceito.
Zemeckis já havia demonstrado habilidade com um tema natalino no excelente, e extremamente doce O Expresso Polar. Sua união com a Disney para esta nova adaptação de Dickens não me animava, também, pela centralização em Jim Carey como nome principal do projeto. Mas o filme chega para surpreender. Com pelo menos cinco anos de intervalo, a tecnologia da captura de movimentos já andou alguns passos (apesar de ainda ser a forma de animação que menos me chama a atenção), propiciando um visual muito mais realista e detalhado do que antes. É claro que o visual estonteante de Os Fantasmas de Scrooge impressiona, mas a força do filme está mesmo em sua trama.
O diretor optou por ser fiel à Dickens, tanto em conteúdo quanto em alma. Apesar de teoricamente ser voltado ao público infantil, Zemeckis abusa da morbidade de diversas passagens, o que deixa o clima extremamente denso e assustador - vide todos os momentos que envolvem o terceiro espírito e o fantasma de seu sócio. Mas também equilibra com momentos de beleza extrema e sensível. A concepção de todos os fantasmas foi genial - desde o delicado e pacífico fantasma do passado, passando pela inteligente visão de cena do espírito do presente culminando na assustadora Morte como fantasma do futuro. Outra característica muito forte de Zemeckis também se faz presente: o cuidado do diretor com os mínimos detalhes da produção faz com que a direção de arte desta animação seja mais destacável do que muito filme live action. O visual belíssimo do filme vai muito além dos efeitos especiais de vôo, mas estão nos detalhes da reconstrução de época, nas passagens da juventude, na sombria cidade do futuro de Scrooge.
A trilha sonora é extremamente competente, dando grandiosidade a alguns eventos, no entanto não cria nenhum tema marcante o suficiente para ser memorável. A canção interpretada por Andrea Bocelli é um tanto estranha - parece capaz de se tornar em um novo tradicional cântico de Natal, se não fosse o fato de ser levemente incompreensível. O trabalho de atuação do elenco é brilhante. Eu que normalmente não suporto Jim Carey fiquei extremamente convencido pelo seu trabalho em todos os 9 personagens que faz, e consigo perceber a carga diferente que ele deu para cada um. Estou para dizer que deve ser a atuação dele que mais me agradou até agora.
É assim que Os Fantasmas de Scrooge me surpreendeu e muito, enterrando de vez a desagradável experiência que foi A Lenda de Beowulf - último trabalho de Zemeckis antes de Scrooge. Seguindo muito mais um estilo de Coraline do que do fraco Up! - Altas Aventuras (para falar de animações deste ano), ele não se preocupa se causará estranhamento nas crianças ou não. Somando este respeito à obra original, que em momento algum impediu de Zemeckis criar algo autoral, a sua perfeição técnica, esta nova versão da Disney se mostra uma grata surpresa, tanto para o cenário de animações em 2009 quanto diante de todas as adaptações já existentes do texto. Uma pena que tenha sido recebida de maneira tão fria nos EUA. Isso faz sua indicação ao Oscar de animação ser extremamente incerta.
Nota: 9,0
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